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Namoro de Férias - Cap 28

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Namoro de Férias

Antes de retornar à Praia do Peró, precisava passar no apartamento dos pais, onde havia morado nos últimos anos com Jane.  Havia contas a pagar e coisas do gênero.  Passaria também na Faculdade de para reunir-se com o professor orientador de sua monografia.

 

A Universidade Federal do Rio de Janeiro era uma das mais renomadas do país, a despeito das dificuldades comuns a todas as instituições de ensino superior públicas do país como greves constantes e depreciação dos equipamentos.  Mas lá ensinavam alguns dos cérebros mais brilhantes do Brasil e estudavam os melhores alunos, pois o exame vestibular era muito rigoroso e igualmente disputado.  Na área de Ciências Biológicas e Ecologia se destacavam algumas das pós-graduações mais bem conceituadas. 

 

A maior parte dos campi se situava na Ilha do Fundão, por onde circulavam diariamente cerca de sessenta e cinco mil pessoas entre estudantes e funcionários.   A gigantesca cidade universitária se espalhava por uma área de mais de quatro milhões de metros quadrados.  Como o prédio onde se situava o curso de Elisa se situava razoavelmente próximo ao acesso central ela preferiu dar uma caminhada ao invés de usar um dos ônibus internos para se locomover. 

 

Havia marcado o encontro com seu professor com bastante antecedência e ele a estava esperando quando chegou.  Era um homem alto de cabelos parcialmente grisalhos beirando os quarenta e olhos castanhos bem claros contrastando com a pele bronzeada pelo constante trabalho de campo, do qual ele não abria mão em hipótese alguma, como costumava dizer. Ele costumava passar a maior parte do seu tempo em um campus avançado mantido pela UFRJ na Restinga de Jurubatiba, a cerca de cento e oitenta quilômetros do Rio. O patrocínio da PETROBRÁS para o projeto permitia que ele viesse à faculdade apenas um ou dois dias da semana para suas aulas, podendo se dedicar às suas pesquisas quase em tempo integral.

 

- Boa tarde, professor.  Como vai?

 

O aperto de mão dado por ele foi forte e caloroso, devidamente acompanhado de um sorriso sincero. Mas seu temperamento extrovertido enganava àqueles que pudessem pensar que ele não fosse exigente.  Todos os professores do curso o eram, com raras exceções, mas a fama do rigor de Reinaldo Moraes os ultrapassava de longe.  Mesmo assim Lizzy o convidara para orientar sua tese por identificar nele uma qualidade que o credenciara como seu mestre favorito: a paixão contagiante pelo que ensinava que comunicava aos seus alunos.

 

- Bem, e você?  Como anda nossa monografia?

 

Não ia tão bem como ela gostaria. A carga de trabalho assumida, embora relacionada ao tema que escolhera, não estava permitindo que ela se dedicasse como esperava e necessitava.  Mas já reunira material suficiente para mostrar a ele dessa vez.

 

- Está aqui.

 

Ela estendeu um volume encadernado a ele.  Havia mandado algum material anteriormente pela internet, mas ele insistira em receber um esboço impresso em papel que agora perscrutava atentamente.   Após alguns minutos de exame cuidadoso, tirou os óculos de leitura e a encarou:

 

- Está muito bom, Elisa – disse ele – Para começar, é claro. Vai precisar ir muito além disso, especialmente se desejar se candidatar ao Mestrado.

- Estou ciente disso.  Mas estou me organizando para um ritmo mais forte de produção a partir desta semana.  Em um próximo encontro, tenho certeza de que teremos bem mais o que discutir.

- Assim esperamos.  Você está estagiando no projeto do resort no Peró, é isso?

- Exatamente.  Estou junto com o professor Fernando Bozzelli.

- Muito bem acompanhada, sem dúvida.   Há muita coisa saindo naquela região, mas este é o de maior porte e tenho certeza de que Fernando não emprestaria seu nome a algo que não estivesse correto.    Posso ir visitá-los nos próximos dias?  Gostaria de acompanhar um pouco da pesquisa de vocês.

- Será um prazer e poderá examinar pessoalmente o que coloquei neste material.

- Ficamos combinados assim, Elisa. Depois de ler com mais calma, passo para você minhas observações.

- Tudo certo, eu aguardo.  Até a próxima, professor.

- Até logo, Elisa.

 

Ele renovou o seu aperto de mão, demorando um pouco mais dessa vez.  Sempre fora um cavalheiro, mantendo a devida distância de suas alunas, por mais que estas lançassem olhares sugestivos ao charmoso professor que sabiam ser divorciado.  Mas Elisa tivera a nítida impressão de que ele flertava com ela naquele instante.  Era um homem atraente, sem dúvida, mas além da diferença de idade, ela não conseguia ser ver ao lado de nenhum outro homem que não fosse Darcy, pelo menos por enquanto.  E se não fosse por estas razões, suas recentes experiências haviam lhe mostrado que definitivamente não dava certo misturar amor e trabalho.

 

Após despedir-se do professor, caminhou em direção a um dos pontos dos ônibus internos da cidade universitária.  Enquanto fazia este percurso, se deu conta de que uma vez evocada em sua mente, a imagem de Darcy a perseguia de novo.  O olhar triste dele na última vez em que se encontraram havia tocado seu coração.  Mas seu lado racional lembrava-lhe de que isso não significava que ele mudara de idéia sobre como deveria ser o relacionamento entre eles.   Mesmo que ela houvesse sido injusta quanto à Wickham, todo o resto permanecia sendo verdade.  Inclusive as lembranças dos momentos de amor que viveram juntos, marcadas a ferro e fofo em seu corpo, ainda que por tão pouco tempo e por mais que tentasse esquecer.

 

***

No caminho para casa, ainda na Estrada de Alta Serra, Darcy percebeu o nó que ainda sentia em seu peito quando pensava em Lizzy e em como haviam discutido.  Desde que seus pais morreram eram bem raras as ocasiões em que sentia suas emoções tocadas como agora.  Georgiana costumava dizer que ele construíra um muro em volta de si especialmente para evitar que expusesse os próprios sentimentos.  Se ela estava certa, esta barreira fora quebrada pela paixão que reconhecia em si por Elisa.  

 

Queria ter dito a ela que fora um tolo e declarar que a amava como nunca antes acontecera com outra mulher.  Que desejava arriscar tudo que fosse preciso, desde que estivesse ao seu lado.  Mas as palavras haviam faltado.  Estava demasiado habituado a se conter.  Precisaria de tempo para reconquistá-la, mas não desistiria enquanto não ouvisse dela mesma que não havia mais nenhuma chance para eles.   Esperava que o convívio no trabalho fosse um trunfo a seu favor, para que não se distanciassem um do outro de vez.

 

Quando chegou ao seu escritório havia um recado de Catherine, que não conseguira contato com seu celular, provavelmente por ter ligado enquanto ele passava por uma área sem sinal.  Ela mandava que ele passasse em sua empresa assim que pudesse.  Este comportamento era típico da parte dela: dar ordens sem esperar um não como resposta.  Desde que ele assumira, ainda bem jovem, o controle da Darcy Incorporações, ela se sentia à vontade para tutelá-lo.  No início seu apoio foi de grande ajuda, mas com o tempo as constantes ingerências dela nos negócios em comum passaram a se tornar cada vez mais desconfortáveis.  

 

Sempre que podia, preferia se entender com Anne, que era muito competente, à despeito da mãe sufocá-la como uma árvore mais alta faz com outra que ouse tentar crescer à sua sombra.   Isso passara a alimentar as expectativas de Catherine de que eles pudessem vir a se casar um dia, não por anseios sentimentais, que não eram de seu feitio, mas descortinando sobretudo as possibilidades das duas empresas familiares se juntarem em vantajosa fusão. Depois de verificar a sua agenda, Darcy resolveu atender ao pedido da tia ainda que à contragosto, planejando usar este encontro para fazer pressão junto a ela em favor de Lizzy.

 

***

Depois do ônibus interno da cidade universitária Elisa tomou um táxi para o bairro da Urca, uma área tranqüila e arborizada próxima ao Pão de Açúcar onde ficava o apartamento dos Bennet. O charmoso sala e dois quartos decorado com simplicidade e bom gosto fora uma herança de família e se situava em um prédio antigo e bem conservado.


No início havia sido difícil para Elisa se adaptar à distância da família.  Talvez fosse mesmo super-protegida como Darcy dissera, mas a distância dos pais e das irmãs a fizeram chorar com freqüência em seus primeiros dias longe de casa. A presença de Joana a seu lado fora fundamental e a convivência mais estreita durante este período as fizeram ainda mais ligadas.  

 

Além dela, os avós que residiam a alguns quarteirões estavam sempre por perto. June Bennet era uma doce septuagenária de porte empertigado que parecia movida a pilhas inesgotáveis, sempre saindo de algum curso ou aula.  Samuel Bennet, por sua vez, era de um temperamento mais plácido, bem semelhante ao filho, que herdara sua verve irônica e bem-humorada.  .

 

- Lizzy, meu amor, que saudades! - Foi a saudação recebida da avó ao entrar ainda no hall.

 

Elas se abraçaram carinhosamente e Elisa pensou em como era bom estar ao lado dela mais uma vez.  O avô levantou-se do sofá onde estivera sentado lendo um jornal para cumprimenta-la com um beijo na testa.   Ambos adoravam as netas e ainda sentiam muito a falta delas depois do retorno recente e praticamente simultâneo das duas para Alta Serra. 

 

- Como vão todos, Elisa? Quando Maria vai vir? – continuou June.

- A matrícula será este mês, vovó. Falta pouco. E todos estão muito bem.

- Não vejo a hora.  Isto aqui ficou muito parado sem vocês. Não é, Samuel?

- Com certeza, embora você se encarregue sempre de movimentar as coisas onde quer que esteja, não é minha cara? – completou o Sr. Bennet.

- Claro, Samuel. Pois se eu for esperar por você...

Os dois costumavam trocar gracejos desta natureza, mas eram unidos de uma forma que Lizzy só pensava ser possível em um casal depois de tantos anos juntos.  Eles se entendiam apenas olhando um para o outro, sem precisar de palavras. 

 

- Lizzy... – disse a avó – Algum problema?

Ela a conhecia tão bem que um simples olhar lhe mostrava tudo que sentia, por mais que tentasse disfarçar.  Fora sempre assim, desde criança, como quando ela fazia alguma travessura e queria esconder.

 

- Está tudo certo, vó.  – respondeu Lizzy sem nenhuma convicção.

- Não está não, mas se você não quer me dizer o que é, vou respeitar sua privacidade. Só espero que não seja nada sério.

- Estou cansada e preocupada por causa do trabalho, nada demais.

- Eu diria que há alguma dor de amor no meio disso tudo.

 

Não era possível, alguém devia ter contado a ela!

- Quem lhe disse isso?

- Então é verdade – devolveu a avó com a expressão arguta de quem havia jogado verde e colhido maduro.

- Não dá para esconder nada mesmo de você, June Bennet.

- Perdoe minha curiosidade, meu amor. Não quero invadir sua vida particular.  Afinal nossas meninas cresceram, por mais que nós as vejamos como crianças ainda. É que nunca vamos deixar de nos preocupar com nenhuma de vocês.

- De qualquer modo, não é nada tão sério. – respondeu Elisa, sentando-se no sofá da sala e respirando fundo. – Terminei um relacionamento que nem havia começado direito, foi só isso.

- Mas se magoou você, deve estar sendo difícil.  Não adianta fingir que não dói.

- Mais do que devia, eu não consigo evitar. – Lizzy sentiu que suas defesas se desarmavam diante do carinho da avó.

- O tempo lhe mostrará o melhor a fazer minha neta, e também vai sarar toda dor em seu coração, por mais que isso pareça impossível agora.

 

Era como se voltasse a ser a criança com um arranhão em que a avó aplicava um curativo junto com palavras doces para curá-la. Elisa sentiu muita vontade de desabafar tudo que sentia, mas isso só a faria se sentir-se pior. Lágrimas rolaram de seus olhos e a avó a aconchegou em seu colo onde ela ficou bastante tempo, observada à curta distância pelo olhar carinhoso e bonachão do avô.

 

***

Darcy estacionou seu carro na garagem subterrânea do prédio e subiu pelo elevador até a cobertura onde se situava o escritório de Catherine.  Resolveu primeiro procurar por Anne para se inteirar das reações da tia depois da audiência pública.   Não precisou ir à sala dela, pois a encontrou no corredor:

 

- Como vai, Anne? – cumprimentou-a com um beijo na bochecha.  Ela sempre fora como sua segunda irmã, depois de Georgiana.   Seu temperamento meigo e tranqüilo suavizavam a determinação férrea que herdara da mãe.

 

- Tudo bem, Gui.  E você?  Parece cansado.

- Algumas horas dirigindo, apenas.   E Bernardo?

Este era o namorado de Anne há mais de um ano, e tudo indicava que eles fossem se casar, mesmo diante da oposição disfarçada da mãe.   Ele era artista plástico e tinha prioridades completamente diferentes das que Catherine achava corretas para a vida da filha, como posição social e situação financeira.

- Ele está viajando para Portugal hoje para uma exposição.

 

Enquanto caminhavam, Darcy sussurrou:

- E a nossa chefe? Como está o seu humor hoje?

Anne retribuiu respondendo baixinho:

- Não muito bem depois dos problemas em Alta Serra, você pode imaginar.  Ela está contando com você para ajeitar tudo.  Foi por isso que o chamou.

- Você sabe que não vou fazer isso, prima.

- É claro.  Nem eu faria.  Fui declaradamente contra o porte que o projeto tomou no final, mas você sabe, por enquanto ainda sou voto vencido. 

- Pelo contrário.  Pretendo advogar a causa contrária junto a ela.

- Boa Sorte!  Mas pelo menos por hoje é melhor ir com calma.    Se precisar de alguma coisa, sabe que pode contar comigo. – ela acompanhou esta frase de uma piscadela sutil que Darcy logo entendeu.  Não seria a primeira vez em que ela o ajudaria a contornar o autoritarismo da tia.

 

Depois de ser anunciado pela secretária, ele adentrou a espaçosa sala da presidente do grupo De Bourgh.  Embora de muito bom gosto, como convinha ao nível de quem a ocupava, o tamanho da sala intimidava um pouco quem nunca houvesse entrado no enorme espaço de onde se descortinava a Baía da Guanabara. 

Catherine levantou-se para cumprimentá-lo.  A verdade é que ela sinceramente apreciava Darcy.  Não obstante alguns choques de vontades e personalidades ela sentia muito mais afinidade com o sobrinho do que com a única filha.

- Boa tarde, Guilherme.  Fez boa viagem?

- Para quem dirigiu devagar, acho que cheguei bem rápido. 

- E aquela moça, Elisa... Veio com você?

O tom dela sugeria muito mais do que estava dizendo.  Ela queria saber qual era o nível de relacionamento entre eles.

- Ela viria depois, para recomeçar o trabalho no Peró.

- Muito bem.  Suponho que você tenha explicado a ela que nunca tivemos a intenção de fazer nada que fosse ilegal.

- Na verdade, eu disse a ela o mesmo que havia lhe dito antes, tia. Diante da forma que tomou o projeto, também sou contra, como já sabe.

- Darcy!  Preciso da sua cooperação.   Você sabe que estaríamos apenas apressando uma ocupação que aconteceria mais cedo ou mais tarde.

- Não é essa a questão, tia Catherine.  O fato é que não estamos respaldados pelas Leis... Nem pelo bom-senso.   Por que não retomamos a idéia original? Um hotel charmoso e exclusivo no meio da mata ainda intocada.  Este loteamento só desvalorizaria o nosso público-alvo.

- Você não está entendendo, meu sobrinho. – Ela debruçou-se sobre a mesa em sua direção e fixou seus olhos nos dele. – Há muito em jogo aqui. Não estamos falando de milhares, mas de milhões de reais.

Quando se tratava de dinheiro, nenhuma argumentação a convenceria pensou Darcy, decidindo mudar de tática.

- Não se esqueça da publicidade negativa, se algo der errado.  O nome de uma empresa é um patrimônio sem preço.

Catherine levantou-se e contemplou a linha de horizonte no mar pensativa.  Logo depois se virou e fez a seguinte observação:

- Guilherme, vamos ser sinceros.  Você quer agradar à garota.  Não é isso?

Darcy surpreendeu-se com a abordagem pessoal que a conversa tomou.  A tia não costumava se imiscuir na sua vida particular, por mais dominadora que fosse.  Como se o ouvisse, ela continuou.

- Não quero dar palpites quanto a suas pretensões, mas ousaria dizer que está muito enganado.  Esta menina não é para você, Darcy.  Nunca daria certo um relacionamento com uma pessoa de um nível tão diferente do seu, vinda de um mundo tão mais restrito.   Não se deixe levar por este capricho e muito menos permita que ele interfira em sua vida profissional.  É tudo que lhe peço: saiba separar as coisas.  Prefiro que não me diga nada hoje, apenas pense no que eu disse, está bem?

Sabendo que seria inútil discutir com ela, ele assentiu silenciosamente e despediu-se, pensando pelo caminho que as palavras da tia foram estranhamente semelhantes às que ele havia desastradamente dito a Lizzy.