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Namoro de Férias - Cap 29

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Namoro de Férias

Tinha nítida impressão de que muito tempo passara desde que viajara, tanto havia ocorrido no curto espaço em que havia se afastado. Fernando a recebeu com a mesma gentileza de sempre, assim como o resto da equipe. O relativo isolamento em que se encontravam, fazia com que se sentissem bastante unidos.   Ela sentiria falta desta convivência e tirava muitas fotos para se recordar daqueles dias tão especiais. Elas também lhe lembrariam do que acontecera entre ela e Darcy. Mesmo que não houvesse dado certo, guardaria sempre em seu coração os momentos felizes vividos juntos.

 

Depois de se acomodar, decidiu não perder tempo e começar a trabalhar naquela mesma noite.  Abriu seu laptop e constatou que seu orientador já havia lhe enviado algumas recomendações para que ela ajustasse seu texto.  Além disso, ele avisava que provavelmente a visitaria nos próximos dias.    Esperava ter mais alguma coisa pra mostrar, mesmo em tão curto prazo.

 

Após algum tempo, Paula chegou e após tomar banho e se arrumar, sentou-se ao seu lado com uma expressão travessa de quem quer contar uma novidade:

 

- Elisa, nosso engenheiro preferido vai chegar amanhã. 

 

Quando Paula desconfiara do envolvimento dela e Darcy, se retirara estrategicamente do páreo e parecia apreciar o fato de que a colega estivesse apaixonada por ele, mesmo que não fizessem confidências mútuas.  Mesmo assim, a esta altura Lizzy não estava com disposição para retomar este assunto com quem quer que fosse e preferiu aparentar não saber de quem ela falava.

 

- De quem você está falando? – respondeu ela, sem retirar os olhos do monitor do laptop.

- Guilherme Darcy! Quem mais?

 

Não gostaria de alimentar a idéia de que ele estivesse em busca dela.  Enquanto estivessem em contato seria muito mais difícil esquecê-lo e não queria nem pensar na possibilidade de uma recaída, embora fosse impossível fingir que ele não a desmontava completamente com sua proximidade física.  Entretanto, não podia abandonar o trabalho depois dos acontecimentos envolvendo a companhia De Bourgh, por mais que desejasse.

 

- Lizzy, você está me ouvindo?

 

Ela estivera com o olhar perdido em seus pensamentos e não prestara atenção ao que Paula dissera depois de informar que era mesmo Darcy quem viria, confirmando as expectativas da companheira de quarto.

 

- Desculpe, estava distraída.

- Teremos um prazo menor do que o planejado para encerrar o projeto e ele pediu uma reunião para amanhã à noite para passar os detalhes.  Isso quer dizer muito trabalho pela frente, Lizzy!   Mas hoje vamos esquecer disso e sair todos para jantar.  Aproveitar o último dia de descanso!

- Se você não se incomodar que eu fique acordada até mais tarde digitando...

- Desde que não me obrigue a ficar também, não há problemas, durmo como uma pedra!

 

O jantar transcorreu com a presença de todos em um clima muito alegre.  O Professor Fernando contava piadas muito bem e Elisa não se lembrava de ter rido tanto há muito tempo. Depois que retornaram, Elisa ainda trabalhou por algumas horas até que o sono a vencesse.  Mesmo assim, quando adormeceu seus pensamentos teimosamente pareciam não querer se esquecer de que Darcy chegaria no dia seguinte.

 

***

 

Naquele dia, Guilherme Darcy marcara de se encontrar com Georgiana na Confeitaria Colombo que se situava relativamente próxima do trabalho de ambos. Desde que ela havia saído de casa para morar sozinha, costumavam se ver no mínimo uma vez durante a semana, mesmo que as agendas de ambos estivessem apertadas.  A centenária casa de estilo art-noveau com seus espelhos belgas e móveis de época guardava uma atmosfera que fazia seus freqüentadores voltarem no tempo, longe de todo o movimento e tumulto do centro da cidade do Rio de Janeiro que ficava logo do lado de fora.


- Você demorou, Gui.

- Me perdoe, estava resolvendo as últimas pendências para viajar tranqüilo.

- Vai para onde?

- Vou trabalhar na Praia do Peró durante o resto da semana.

 

Assim que chegou, Darcy havia se desembaraçado das questões mais urgentes em seu escritório para poder seguir para lá.  É certo que havia uma certa necessidade de sua presença profissional nesta etapa conclusiva do projeto.  Mas o que tornava sua ida tão imperiosa era o desejo de ver Elisa novamente.  Cada vez tinha mais certeza de seus sentimentos por ela e lamentava que sua hesitação houvesse colocado tudo a perder.

 

- É tão perto de Búzios. Por que prefere ficar em um hotel? – indagou Georgiana. Diante do olhar maroto de Darcy, ela se lembrou de Lizzy. – Entendi. Há uma certa pessoa lá da qual você quer ficar bem próximo. Mas vocês não...

 

Darcy não era homem de chorar pelo leite derramado e após considerar cuidadosamente as suas possibilidades decidiu estar perto de Elisa o quanto antes para colocar em prática as estratégias que traçara para se reaproximarem. 

 

- Nós brigamos sim, Geórgia. E eu fui o maior culpado. Por isso quero tomar a iniciativa de consertar onde errei.

 

- Ela parece perfeita para você, meu irmão.  Mas talvez seja esse o problema: os dois são teimosos e de personalidade forte.  Alguém vai ter que ceder.

 

- E desta vez serei eu. – disse ele.

 

Georgiana lhe deu um olhar espantado e soltou uma gostosa risada que Darcy não entendeu. Diante do olhar desconcertado dele, ela tomou fôlego e explicou ainda sorrindo:

 

- Perdão, mas não estou acreditando!  Guilherme Darcy dizendo que vai dar a mão à palmatória? É meu irmão mesmo ou ele foi abduzido por um alienígena e substituído por um clone? – perguntou ela colocando a mão em sua testa.

 

Georgiana sempre tivera o dom de fazer o quase sempre circunspecto irmão sorrir como agora. Não que fosse tão sério o tempo todo, mas sua faceta descontraída era reservada às pessoas que privavam de sua intimidade e a ninguém mais.   Enquanto aguardavam o pedido, ela contou-lhe que aceitaria a proposta do escritório em que estagiava para permanecer em um cargo fixo.  Além disso, continuaria se preparando para um concurso público para o Tribunal de Justiça, talvez no futuro para chegar a Juíza. 

 

O delicioso chá da tarde, além dos pães variados, frios, iogurte, cereais e bolos de praxe, trazia doces maravilhosos como petits-fours recheados com baba de moça e doce de leite, pastéis de nata, trouxinhas de fios de ovos e casadinhos.  Georgiana reclamou das horas que precisaria passar a mais na academia durante a semana para compensar as calorias ingeridas.

 

Darcy se despediu da irmã recebendo votos de boa sorte por parte dela e foi para sua casa arrumar a bagagem para que viajar ainda naquele dias. Morava na casa que fora dos pais em um condomínio na Praia da Joatinga, próxima à Barra.


Era um pouco solitário morar lá depois que Georgiana se mudara, mas Darcy não ficava muito tempo em casa, especialmente nos fins de semana, mantendo ainda um flat no bairro do Flamengo para quando não queria enfrentar o trânsito do Centro de volta para a casa.  Bingley e sua irmã também moravam bem próximos desde crianças.  Aliás, Darcy não conversara com ele desde que se despediram na estrada de Alta Serra.  Este era outro erro que precisava reparar. Tinha plena consciência de que sua ascendência sobre o amigo fora decisiva para que ele houvesse desistido de Joana.  Como também tinha planos em relação a este particular, tão logo se encontrassem os discutiria com Carlos. De algum modo o assunto fora encaminhado com o reencontro deles em Alta Serra, faltava apenas a seqüência necessária à reconciliação entre eles.

 

Separou poucas peças bem despojadas, além de uma opção um pouco mais social.  Se fosse necessário havia bastante coisa sua em Búzios e ele tinha bastante facilidade em arrumar exatamente o que era necessário quando preparava sua bagagem devido às constantes viagens a trabalho.  Sempre que podia preferia andar bem à vontade, escapando do terno e gravata que era obrigado a usar durante a semana.  De modo geral preferia um estilo despretensioso e sóbrio, sem dar importância a marcas caras, não obstante também as adquirisse quando sua qualidade o justificasse. Deixou o carro que costumava usar na garagem e preferiu o jipe, preparado para agüentar os buracos das estradas da região.


 

Enquanto dirigia, uma música tocou no rádio, lembrando-lhe da primeira vez em que dançara com Lizzy, quando ainda não poderia imaginar tudo que acontecera entre eles, muito menos que estaria um dia apaixonado por ela como um adolescente.  Mas a letra parecia surpreendentemente ter previsto o futuro entre eles.

 

{denvideo http://www.youtube.com/watch?v=Q3Sz5VPfWcY}


Agora eu entendo o que me afastou de você

Precisei ir tão longe para perceber

Que a única pessoa com que eu precisava me encontrar

Era comigo mesmo(a)

 

***

 

Darcy era aguardado por todos para a reunião marcada no salão social do hotel.  Quando chegou, pareceu a Lizzy que ele estava bem diferente da última vez em que se encontraram, bem barbeado e disposto, e ela ousaria dizer, muito bem humorado e tranqüilo.  Se recuperara bem mais rápido que ela, pensou ironicamente. Depois de todos sentados em uma espaçosa mesa do local, Darcy iniciou o encontro sem maiores rodeios, como era de seu estilo.

 

- Boa noite, desculpem o horário, sei que estão trabalhando muito.  Mas a urgência de nosso cronograma não me permitiria agir de outra forma. 

 

A voz grave dele a despertou de seus devaneios, lembrando-a do profissional eficiente que ele se mostrara desde que começaram a trabalhar juntos.

 

- Vamos antecipar o fechamento deste estudo para no máximo dez dias, caso contrário não conseguiremos obter a aprovação dos órgãos competentes a tempo de recebermos os recursos para construir a primeira etapa.   Precisaremos dar o nosso máximo para alcançar este objetivo.

 

Elisa pensou que agora seria mesmo um milagre aprontar a sua monografia no prazo combinado com o professor. Tomara que ele entendesse suas justificativas.  Um murmúrio percorreu os presentes e o professor Fernando resolve falar por todos:

 

- Não garanto que isso seja possível, Darcy, mas vamos tentar.

- Vou me empenhar pessoalmente em auxiliá-los no que for possível e podemos considerar a hipótese de buscar ajuda extra.  Eu gostaria de começar me inteirando exatamente de como está o andamento de cada área, a começar pela sua, Fernando, que será fundamental para esta fase. Podemos jantar juntos enquanto conversamos?

- Por mim, tudo bem.  E quanto a você, Elisa?

- Claro – respondeu ela sem muita convicção diante da perspectiva de continuar ao lado de Darcy por mais tempo. – Só gostaria de subir para buscar o laptop com os dados, se forem necessários.

 

Ela ainda estava vestida com uma camisa e bermuda de sarja empoeiradas pela areia fina das dunas, e havia planejado um banho demorado que agora teria de ser abreviado. Foi ao seu quarto e após uma ducha vestiu um jeans e uma camisa fluida, escolhendo um visual que deliberadamente a faria parecer despretensiosamente bem vestida, para que Darcy não pensasse que se arrumara especialmente para ele, embora fosse exatamente isso que estivesse fazendo. Finalizou seu visual com uma maquiagem leve e rápida e sandálias bem femininas.


Quando desceu, os dois já conversavam à mesa.  Darcy, um tanto inesperadamente porque se sentara ao lado oposto onde ela estava e parecia nem ter percebido a sua chegada, levantou-se e afastou a cadeira cavalheirescamente para que ela se sentasse, lembrando-a de que ele tivera o mesmo gesto no restaurante em Búzios.  

 

Durante a refeição, Fernando detalhou todo o resultado do trabalho obtido socorrendo-se de Lizzy para alguns dados e opiniões.  Darcy o ouvia atentamente, mas com freqüência repousava seu olhar sobre Lizzy para logo depois voltar a concentrar-se no que o biólogo lhe dizia.   Ao final Fernando concluiu dizendo:

 

- Resumindo tudo que eu disse, Darcy, a área das dunas deve obrigatoriamente estar isolada sob proteção. 

- Deduzo então que o porte do projeto deverá permanecer rigorosamente nos limites que traçamos inicialmente, não ultrapassando sequer um milímetro.

- Exatamente.

- Concordo com sua posição e não pretendo interferir em uma linha do que você escrever.

 

O professor deu um discreto suspiro de alívio.

- Que bom, Darcy.  Mesmo assim preciso de alguns dias para colocar tudo isso no papel.

- Fique à vontade.  Vai precisar de mais ajuda?

- Acho que conseguimos dar conta. Concorda, Lizzy?

Ela assentiu silenciosamente com um gesto afirmativo, mas intimamente pensou que não sobraria tempo nem para respirar.

- Então – prosseguiu Fernando. – acho que é tudo por hoje.  Não sei quanto a vocês, mas eu estou exausto. 

Lizzy também se levantou, fazendo menção de se retirar, quando Darcy pediu que ela permanecesse.

 

- Elisa, se puder ficar mais um pouco, gostaria de falar com você  sobre outro assunto: a questão de Alta Serra.

Ela despediu-se de Fernando e sentou-se novamente.  Ele agora debruçou-se sobre a mesa em sua direção, olhando-a atentamente, o que a fez sentir subir calor ao rosto, mas manteve-se impassível.  

 

- Estive conversando com Catherine, e da parte dela não há a menor chance de conseguirmos alguma coisa.  Conheço minha tia e sei que ela não vai desistir.  Só há uma saída para reverter este quadro: recorrer à Justiça para obter uma liminar.  Pedi a Georgiana que adiantasse este assunto, mas é aconselhável que um advogado da região ingresse com a petição.  Há alguém que possa fazê-lo?

- Há um grande amigo nosso, com casa em Alta Serra, que poderá ajudar. Ele é advogado do meu pai há anos.

- Creio que isto forçará uma mudança de atitude de Catherine, pelo menos para abrirmos uma negociação, devido ao tempo e dinheiro que uma disputa judicial a faria perder.

 

Darcy estava sendo muito solidário, mesmo depois de tudo que acontecera entre elas e ela pensou que ainda não havia agradecido devidamente.

- Darcy, somos gratos pelo seu apoio.  Tudo isso é muito importante para todos nós que moramos ou temos algum vínculo com a cidade.  Mas você não teria nenhuma obrigação de tomar esta iniciativa.

 

Ele agora deixou de ser o executivo eficiente e em seus olhos brilharam a chama da paixão que sentia por ela quando respondeu:

- Não se iluda, estou fazendo isso por você. É tudo por você.

 

Ele pensou em segurar sua mão e falar de novo dos seus sentimentos, mas precisava ter paciência para ganhar espaços nos momentos certos, sem forçar nenhuma atitude da qual ela pudesse se arrepender.  Mas o perfume e o olhos dela tão próximos estavam a ponto de fazê-lo se esquecer de qualquer consideração racional.   Antes que ele se decidisse, ela se levantou um pouco abruptamente.

 

- Muito obrigada, de qualquer maneira.  Perdoe-me agora, mas também estou muito cansada  e preciso dormir.  Boa noite.

 

E foi embora.  De qualquer modo ele marcara pontos, pois tinha certeza de que ela continuava se sentindo atraída e mobilizada pela presença dele, mesmo que lutasse contra este sentimento.  Embalado por estas esperanças, ele subiu as escadas assobiando baixinho como costumava fazer desde criança quando estava feliz. Estava certo, nem tudo estava perdido.