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Namoro de Férias - Cap 31

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Namoro de Férias

A noite caía e os bares dos arredores boêmio do bairro da Lapa já fervilhavam com o movimento do happy hour de sexta-feira. Darcy procurava uma vaga nas ruas lotadas de carros, enquanto imaginava se conseguiria se controlar ao encontrar Wickham mais uma vez. Bingley fora buscar Joana e Elisa para todos se encontrarem no local, mas Guilherme decidiu que não os esperaria, pois qualquer perda de tempo poderia levá-los a se desencontrassem de George e Lídia, se é que eles ainda seriam achados por ali.  Após parar em um estacionamento rotativo, Darcy andou alguns quarteirões até encontrar uma viela meio escondida do bairro da Lapa que abrigava uma série de pequenos prédios antigos bem desgastados pelo tempo, e entre eles um de três andares onde, segundo as informações interceptadas, Wickham estaria morando.  Algumas luzes estavam acesas nos apartamentos, mas ele não sabia em qual deles estariam os dois.

 

Pela portaria eletrônica saíram dois moradores e Darcy fez menção de passar pela porta entreaberta. Este fato pareceu não causar nenhuma estranheza aos jovens vestidos de forma extravagante que saíram conversando animadamente enquanto ele entrava. Subiu os vários lances de escada que levavam ao último andar, uma vez que o prédio não tinha elevador, procurando o número indicado na mensagem trocada entre eles.   Tocou a campainha, mas ela parecia não estar funcionando, então bateu à porta.   Mais uma vez silêncio.   Após  chamar várias vezes, estava a ponto de ir embora, quando se fez ouvir o som metálico da maçaneta sendo destrancada e do ferrolho de segurança, que ainda permaneceu travando a porta.

 

Quando a porta foi entreaberta o rosto surpreso de Lídia apareceu e ouviu-se a voz distante de Wickham perguntando quem era.  Ela abriu a porta um tanto aturdida ao mesmo em que respondia que era Darcy à porta.

 

- Boa noite, Lídia. – cumprimentou-a ele com seu tom de voz grave.

- Boa noite, Sr. Darcy – balcuciou ela. 

 

 

 

- Não esperava me ver por aqui, creio eu – continuou Darcy.

- Confesso que não.  Quer falar com George?

- Com ele também.  Mas antes de tudo quero avisá-la que sua família está desesperada por notícias suas.  Joana e Elisa estão a caminho.

- Como foi que me encontraram? – Perguntou Lídia, incrédula.

- Isso elas mesmas vão lhe explicar melhor.

Lídia sentou-se em um pequeno sofá da sala desarrumada torcendo as mãos, e tentou justificar-se sem olhar diretamente para Darcy.

- Não entenda mal o que diz, Sr. Darcy.  É que ninguém permitiria que eu viesse, se dissesse para onde ia.   E se avisasse onde estava, viriam me buscar imediatamente. Como está acontecendo agora.

- O que mostra o quanto todos se importam com você.

 

Neste momento, George chegou recém-barbeado e com os cabelos ainda úmidos.  Vestia uma camisa desabotoada, bermudas longas e uma toalha em torno dos ombros, e ostentava um sorriso cínico que Darcy conhecia e abominava.

- Salve, salve, Guilherme Darcy! Quem é vivo sempre aparece, é o que dizem! Há tempos não nos vemos... Se não me falha a memória... Desde aquela festa em Alta Serra quando você estava um tanto... estressado, digamos assim. Espero que esteja mais calmo hoje.

 

O tom sarcástico da voz dele enquanto caminhava lentamente em sua direção como um gato, fez o estômago de Darcy dar voltas de contrariedade, mas ele procurou se controlar:

 

- Boa noite, Wickham.  Podemos conversar em particular?

- Se Lídia não se incomodar de nos deixar a sós...

 

Ela olhou um pouco assustada para os dois e se retirou para a cozinha murmurando um “com licença” envergonhado. Reunindo o que restava de seu auto-controle, Darcy perguntou a Wickham:

 

- Mesmo um canalha como você precisa estar fora de seu juízo para abrigar uma menor de idade sem o conhecimento dos pais.

- Ela veio por vontade própria, ninguém a obrigou a nada.

- Impossível que isso acontece sem que você a encorajasse, não seja cínico.

 

George se aproximou da janela e olhando para fora e ainda com um meio sorriso, respondeu:

- Hoje em dia uma garota da idade dela sabe perfeitamente o que está fazendo, não é mais nenhuma criança.

E virando-se agora para Darcy prosseguiu:

- Assim como sua irmã sabia, por mais que você queira me responsabilizar pelo que aconteceu com ela.

 

Guilherme e agarrou-o pela gola da camisa e encostou-o contra a parede;

- Você é um mau-caráter da pior espécie.  Eu devia ter batido muito mais em você daquela vez, mas ainda está em tempo de acertarmos nossas contas de uma vez por todas.

- Você só se esqueceu de uma coisa. – sussurrou George com dificuldade diante das mãos fortes de Darcy quase o sufocando. – Estamos em minha casa.  Posso chamar a polícia e dar queixa de agressão e ainda descolar uma indenização sua por danos físicos e morais.

 

Por mais que ele merecesse ser castigado, Guilherme sabia que ele estava certo. Largou-o a contragosto e tentou recobrar a serenidade para resolver aquela situação da melhor forma possível para todos.  Ele continuou:

 

- Vocês levam as coisas a sério demais.  Só estávamos nos divertindo! Qual o problema? Você estava pegando a irmã dela e ninguém reclamou...  Aliás você tem bom gosto, pena que eu e Elisa não passamos de uns amassos.  Mas a Lídia não fica atrás...

 

Darcy percebeu que agora Lídia espiava e ouvia a conversa entre eles pela fresta da porta da cozinha e decidiu desmascará-lo:

- O que ela significa para você?

- Nada.  Ainda está para nascer mulher que me prenda.  Alguns bons momentos juntos e depois... adeus. – respondeu ele passando a mão pelo queixo e se aproximando de Darcy para olhar em seus olhos. - Mas neste caso confesso que houve uma outra satisfação pessoal: o sabor da vingança tanto de você, pelos motivos que conhecemos, como da irmã dela que ficou fazendo doce depois de me encorajar...

 

Neste momento a campainha tocou novamente e Lídia atravessou a sala em prantos para abrir a porta, abraçando-se com as irmãs. Bingley olhou interrogativamente para Darcy que fez um gesto significativo em direção a George. Enquanto Lídia soluçava no ombro de Joana, Lizzy colocou-se frente a Wickham:

 

- E pensar que eu já acreditei em você... Infelizmente me sinto responsável por não ter conseguido impedir que ela confiasse tanto em um cafajeste! 

 

Dizendo isso, Lizzy levantou a mão e acertou um tapa em cheio no rosto dele que instintivamente deu um passo a frente, fazendo menção de reagir, mas Darcy se aproximou dos dois e encarou duramente George que se afastou, passando a mão pela face avermelhada em que Lizzy havia batido, com .ar furioso

 

- Fora! - vociferou ele – Todos vocês!

- Não sem antes levar minhas coisas pra não ter que olhar pra sua cara nunca mais! - gritou Lídia que rapidamente arrumou sua bagagem que estava no quarto. 

 

- Desçam vocês, que ainda temos o que conversar. – disse Darcy

 

Após todos saírem ele se dirigiu friamente a George:

- O que você fez é crime.  Temos testemunhas e a prova escrita que são os emails trocados entre vocês.  Você poderia passar um tempo razoável na cadeia. 

George ficou lívido agora.

- Mas esta queixa à polícia caberá à família dela decidir se vai registrar ou não.  Só não pense em fugir para lugar algum, porque há gente atrás de você a partir de hoje o tempo todo e isso só vai piorar as coisas. 

- Era só isso que você tinha pra me dizer?  Já pode ir embora.

- Ainda não acabei. Aconteça o que acontecer, quero de você a garantia de que não vai mais importunar nem a mim nem a ninguém da minha família ou da família Bennet de modo algum no futuro.   

Agora George recobrara o sangue frio:

- Isso não sairia barato, Darcy.  Mas dinheiro nunca foi problema pra você, ao contrário de mim...

- Se a família achar por bem não denunciá-lo, você vai receber uma passagem de ida, sem volta, para a Argentina e uma quantia que eu vou estipular.  Aguarde um telefonema avisando.

- Acho que não tenho muita escolha.  De qualquer modo estou no lucro. E é você quem vai pagar a conta, não é mesmo?

 

Guilherme se aproximava da porta para ir embora, mas diante do sorriso irônico que George voltara a exibir, resolveu não deixar aquele comentário sem resposta:

 

- Você sabe que por mim eu partiria a sua cara agora mesmo e mais nada.   Mas já fiz isso antes e isso não o impediu de aprontar mais alguma.   Como você bem lembrou, tenho bastante dinheiro e posso gastá-lo como quiser.  E pensando bem... não precisar ver você pela frente nunca mais.... É algo que não tem preço!   

 

E saiu, sem esperar por resposta.

 

***

 

No dia seguinte, as irmãs Bennet voltaram para casa, onde Lídia foi recebida pela mãe entre lágrimas e o pelo pai com um abraço emocionado, pois naquele instante a alegria de ambos em ver a filha de volta sã e salva superava o desgosto pelo gesto impensado da adolescente.  Mais tarde ela deveria arcar com as conseqüências do que fizera, muito embora Lizzy achasse que ela fora bastante punida pelo pouco valor que descobrira ter por parte de Wickham e pela visão da aflição que havia causado a sua família.

 

Elisa estava cansada. Os últimos dias haviam sido realmente extenuantes: a briga com Darcy, os problemas com a De Bourgh, o trabalho pesado na Praia do Peró e o desaparecimento de Lídia.  Seu corpo estava lhe cobrando a conta do cansaço, os nervos retesados pelas tensões vividas continuamente. 

 

A despedida de Darcy fora rápida. Ele dissera que não precisaria retornar ao trabalho, pois o projeto estava praticamente concluído.

- Mas espero que possamos continuar a nos ver... – completou ele segurando em seu queixo e dando-lhe um beijo leve na boca, que ela gostaria de ter correspondido com mais intensidade, mas Lídia a esperava para subir e Joana ainda não chegara com Bingley. Este também se mostrara um grande amigo e os desencontros do passado com a irmã pareciam ter sido superados.   Naquela situação difícil que viveram, tanto Carlos Bingley como Guilherme Darcy foram fundamentais para que tudo desse certo e elas lhes seriam eternamente gratas. Entretanto, isso não significava que ela e Darcy haviam reatado de fato. 

 

Com todo o esgotamento que entorpecia seu corpo e a mente conturbada por tantos acontecimentos recentes, não podia ignorar que a ausência de Darcy, tão presente junto a ela nos dois últimos dias, doía fisicamente, como se ela agora tivesse pouco ar para respirar.  O som da voz dele ao seu lado era apenas uma doce promessa que poderia ou não se cumprir, desde que conseguissem acertar suas diferenças de temperamento.   Nada faria além de esperar que ele tomasse alguma iniciativa, afinal, ele não acenara com nenhuma espécie de comprometimento entre os dois, e não seria ela a se pronunciar sobre o assunto sem que ele perguntasse.

 

No decorrer da semana, Lizzy dedicou-se com afinco a concluir sua tese e obteve uma excelente produção que a credenciou a marcar um novo encontro com seu orientador para apresentar sua versão final.  Darcy ligara algumas vezes e não falava muito, o que levou Lizzy a suspeitar que suas incertezas quanto ao futuro dos dois novamente seriam confirmadas.    Bingley por sua vez ligava várias vezes por dia para Joana e haviam combinado se encontrarem na pousada dos Bennet.    No fim de semana ele viria e Lizzy imaginava se Darcy o acompanharia, mas preferia nem perguntar, pois em seu último contato ele havia lamentado o excesso de trabalho que estava impedindo que os dois estivessem mais próximos um do outro.

 

Lídia esteve melancólica e cabisbaixa após retornar e no dia seguinte procurou a irmã:

 

- Lizzy, posso falar com você?

- Claro, Lídia.

- Eu... lhe devo um pedido de desculpas por não tê-la ouvido mais...

- Não se preocupe com isso agora, a não ser para evitar o mesmo erro no futuro.  É para isso que nossas experiências negativas: para aprender.  Se levarmos a lição que precisamos, pelo menos isso valeu a pena.

- Eu estava apaixonada por ele.  Doeu demais perceber quem ele era.

- Quando temos a sua idade, a tendência é achar que o primeiro amor vai ser o último, que nunca mais vamos conseguir encontrar alguém de novo.  Mas fique tranqüila, não vai ser assim.

- Lizzy, você não é tão mais velha do que eu para falar desse jeito! – protestou ela, sorrindo pela primeira vez durante aquela conversa. - Quem foi seu primeiro amor?

- Não foi. – respondeu ela com ar pensativo. - Ainda é.

- Sr. Darcy?  Mas antes você não o suportava!

- Não houve ninguém antes que realmente fosse importante, Lídia.  E acho que nossa implicância mútua era uma forma de esconder de nós mesmos o que sentíamos um pelo outro.

- Mas como vocês ficaram depois disso tudo?

- Não sei, Lídia, estamos... mal resolvidos, digamos assim, mas não separados em definitivo.  Estou esperando para ver o que vai acontecer.

 

Neste momento a sineta da recepção tocou e a funcionária responsável não estava.  Elisa foi receber o possível hóspede.   Qual não foi sua surpresa ao encontrar a própria Catherine De Bourgh em pessoa!

 

- Boa tarde, em que posso ajudá-la? – Lizzy tentou tratá-la com a maior naturalidade possível.

- É com você mesmo que eu gostaria de falar.  Há algum lugar por aqui em que possamos estar a sós?

 

Ela fez esta pergunta examinando o derredor da pousada com um olhar de desprezo. Elisa encaminhou-a à saleta anexa ao pequeno escritório de seu pai, sem nenhuma palavra. Ela tinha a face carregada de mau-humor e contrariedade e Elisa imaginou o que a teria trazido tão inesperadamente à sua casa.   Depois de se sentarem, a executiva a encarou com um olhar frio e iniciou o diálogo sem quaisquer preâmbulos:

 

- Imagino que você saiba bem qual é a razão para eu estar aqui.

 

- Confesso que não estou bem certa, já que a senhora não me avisou de sua vinda nem agendou nenhuma reserva em nossa pousada.

 

Ela pareceu se irritar mais ainda com o tom tranqüilo e ligeiramente irônico de Lizzy.

 

- Eu não estou para brincadeiras.  Serei muito sincera e franca.  Recebi há dois dias uma intimação de um advogado contratado por vocês para comparecer ao Ministério Público sobre nosso projeto.   E pior: soube que Darcy está se levantando contra mim para ajudá-la!

 

- Sra. De Bourgh, tudo isso é verdade exceto por um detalhe: Darcy está ao lado de uma causa justa que envolve toda nossa comunidade e não está apenas “me ajudando”.

 

- Quem você pensa que é?   Uma jovem inexperiente e interiorana encantada por um homem que pertence ao mundo como Darcy...  Acha que isso pode dar certo?  Está muito enganada.   Ele e você não têm nada a ver com o outro.

 

- Se tem tanta certeza de que nosso relacionamento não vai à frente, por que faz tanta questão de me convencer disso?

 

- Porque você precisa se colocar em seu lugar.   A decisão de me enfrentar dessa forma fecha todas as portas para negociarmos qualquer concessão.

 

- Não pretendemos compactuar com nenhuma “concessão” a não ser aquelas permitidas pelas Leis.  É para isso que elas servem, para colocar limites em atividades como as de seu grupo, por mais que queiram ignorá-las.

 

- Vim aqui numa última tentativa de apelar para seu bom senso.   Renunciem a esta liminar e poderemos tentar nos entender.    Caso contrário, vocês não tem idéia do que enfrentarão.   Sua batalha é perdida.   Prometa que vão mudar sua atitude e eu me comprometo a ouvir vocês.  Ou então...

 

- Ou então nos enfrentamos nos tribunais.   Não se esqueça Sra. De Bourgh, que a publicidade negativa tanto para sua empresa como para o empreendimento também poderão atrapalhar bastante.  Acho que não sou eu quem deve reconsiderar a posição que assumiu, mas vocês com sua intransigência.

 

- Não vou sair daqui sem que me garanta que vão rever esta ação judicial.  Eu exijo uma resposta cabível.  

 

- A resposta só pode ser uma: vamos persistir até fazer valer o que é justo.

 

- Mas você é muito petulante e mal-agradecida mesmo!  Uma menina sem juízo, assim como sua irmã que fugiu com o primeiro vagabundo que apareceu!

 

- Creio que agora nada mais tem para me dizer – disse Elisa, ressentida. – Insultou-me além da conta.   Peço que saia da minha casa.

 

E, dizendo isto, levantou-se e Catherine também.

 

- Muito bem, recusa-se a atender o meu pedido. Está decidida a arruinar a chance desta cidadezinha de crescer um pouco.  Vim aqui para experimentá-la. Esperei encontrá-la mais sensata, mas verá como a minha vontade acabará por prevalecer.

 

Quando chegaram ao carro dela onde o motorista a aguardava, de súbito ela se voltou e acrescentou:

- Não vou me despedir de você, muito menos de sua família. Não merecem a minha atenção.  E um último aviso: Esqueça Darcy, vocês não seriam felizes.   A mulher certa para ele é a minha Anne e eles acabarão percebendo isso.

 

Quando voltou e subiu as escadas, toda a sua família havia surgido para saber a razão da visita, pois a voz alterada de Catherine de Bourgh atravessara uma boa distância.  Elisa relatou resumidamente o que havia ocorrido e entre lágrimas pelas palavras agressivas que havia recebido, subiu a seu quarto e desabafou todo o cansaço e preocupação dos últimos dias.