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Dois Natais

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Dois Natais

Tentara escolher algo pudesse agradar unanimemente já que a troca seria sorteada na hora da ceia e escolhera um disco. Aquela música o perseguia por onde fosse naquele final de dezembro de 1984, mas ao menos seria por uma boa causa, já que a gravação era beneficente. 

 

A senhora idosa a sua frente na fila explicava detalhadamente à atendente como queria seu embrulho, parecendo não ter nenhuma pressa, ao contrário do resto dos clientes e dele, que se atrasaria para trabalhar caso demorasse mais um pouco.  Apelando para o que restara de seu espírito natalino, já escasso àquela altura,  Darcy controlou-se e esperou pacientemente que chegasse a sua vez de sair daquele ambiente tumultuado, embora as ruas não estivessem menos vazias naquela véspera de Natal. 

 

Logo anoiteceria e a multidão estaria indo para suas casas, embora nem todos fossem passar o feriado com a família. Como ele mesmo. Havia um rodízio para alternar os plantões no quartel do Corpo de Bombeiros e Darcy fora escalado para o Natal. Uma longa noite de serviço o esperava, provavelmente devido aos exageros alcoólicos, embora certamente com menos ocorrências do que no Ano Novo.

 

Georgiana viajara para a casa de seus futuros sogros em Derbyshire, depois de ter passado o Natal do ano anterior em Londres com ele.  Sua ceia seria com os seus companheiros, mas isto não o entristecia.  Seus parceiros eram como sua segunda família, e mesmo não estando com a irmã, seria uma noite especial.

 

Lembrou-se de seu último Natal em serviço. Havia retirado um homem idoso de um apartamento em chamas, o envolvendo em um cobertor e o arrastando para a saída. O médico dissera que ele morreria devido à quantidade de fumaça que havia aspirado, porém conseguiu sobreviver e ainda voltou para agradecer  por ter sido salvo.

Contou-lhe ainda muito emocionado, que abrira o gás propositalmente, tentando se matar devido á solidão, mas que a experiência o fizera dar muito mais valor à própria vida após chegar ao limiar de perdê-la.

 

Enquanto pensava que estas coisas é que faziam valer a pena trabalhar em uma noite dessas, adentrou seu gabinete onde conferiu a escala e tomou as primeiras providências para sua equipe tirar o turno da noite. Logo após dirigiu-se ao refeitório, devidamente ornamentado para a confraternização que fariam antes de entrarem de prontidão. Quase todos estavam reunidos exceto Darcy e a Drª. Elizabeth Bennet, médica socorrista que chegava logo atrás ele.

 

- Atrasada, Drª Bennet?

 

- Eu diria que estamos atrasados, capitão... – Ela o corrigiu encarando-o desafiadoramente com um sorriso divertido e frisando o plural da frase.  Apesar de várias outras mulheres trabalharem no quartel, a jovem de cabelos e olhos escuros chamava a atenção por onde passava, e Darcy não era exceção.

 

- É verdade...  – disse ele sorrindo e estendendo-lhe o braço que ela aceitou para entrarem juntos.

 

Normalmente não agiria assim. Preferia evitar qualquer tipo de relacionamento mais próximo com colegas do sexo oposto no ambiente de trabalho, especialmente sendo ela uma subordinada. Mas afinal, era noite de Natal e porque ele devia resistir e trocar alguma farpa com ela ao invés de ceder à expressão bem-humorada de seu rosto?

 

O breve jantar e a troca de presentes do amigo secreto transcorreram com alegria, mas sem se prolongar além do necessário para renderem os colegas a tempo deles irem para casa. Na hora dos cumprimentos desejando um Feliz Natal, Darcy e a médica se beijaram no rosto.  O perfume suave da pele dela o perturbou o fazendo reconsiderar sua opinião sobre romances no local de trabalho.

 

Normalmente seria um dos médicos mais antigos que estaria em seu grupo, mas Thomas e George deviam ter aproveitado para colocar a novata na noite de Natal.  Seria a primeira vez que a Dra. Elizabeth Bennet estaria de prontidão na linha de frente junto à equipe de resgate.  Ela ainda cumpria o final de seu estágio de especialização em Atendimento Pré-Hospitalar, embora viesse se revelando uma profissional competente.

 

Depois de alguns chamados de rotina e de algumas ligações de felicitações pela noite de Natal, a equipe de resgate recebeu um chamado mais urgente. Uma grávida havia entrado em trabalho de parto em casa e sendo Natal todos os serviços de emergência trabalhavam em ritmo mínimo. Sendo assim, no caso dela os bombeiros eram os mais próximos transportá-la ao hospital e dar o apoio médico necessário até que ela fosse atendida por um obstetra. Parecia quase uma regra que mais bebês nascessem nas noites de Natal do que em qualquer outro dia, pensou Darcy.

 

No apartamento humilde de imigrantes africanos havia apenas o casal, que não tinham parentes no país. O marido, que falava um inglês fluente embora com sotaque carregado, usava um gorro de Papai Noel. Parecia muito feliz, embora preocupado com a chegada do segundo filho, enquanto a mulher gemia e se contorcia fazendo parecer que o nascimento do bebê seria iminente.  Não era incomum que algumas mulheres tivessem um trabalho de parto tão rápido que não houvesse tempo para chegar ao hospital.

 

Ela foi retirada em uma maca, acompanhada pelo esposo e pelo filhinho mais novo, e na ambulância Lizzy examinou-a. Após medir a dilatação, levantou os olhos preocupados para Darcy:

 

- Quanto tempo levará para chegarmos ao hospital?

 

- De vinte minutos à meia-hora até a Maternidade mais próxima.

 

- Não vai ser o suficiente... – respondeu Elizabeth com ansiedade. -   A criança está coroando!

 

- Tem certeza?  Quase sempre transcorrem horas desde o rompimento da bolsa e...

 

- Eu sei que ainda não tenho tanta experiência. – Elizabeth levantou-se para interrompê-lo e encará-lo com firmeza. – Mas pode estar certo de que sei o que estou dizendo!

 

Darcy sustentou seu olhar analisando que decisão tomaria. Na verdade dependia do acerto da avaliação dela. Se o prazo para chegarem ao hospital fosse insuficiente, seria melhor ficarem ali atendendo a parturiente enquanto outro transporte fosse deslocado.

 

Eram muito românticas as notícias de bombeiros e policiais auxiliando partos em que não havia tempo para chegarem a uma maternidade, mas os riscos eram muito grandes, especialmente quando havia alguma complicação.

 

- Doutora, ela vai ficar bem? – Indagou o marido preocupado ao ver a hesitação dos dois.

 

- Faremos o que é preciso. – respondeu-lhe  Lizzy decidida.  Aquele, Darcy descobriu depois, era o apelido dela.

 

Ele optou por confiar na informação profissional que ela lhe dava.  Mas intimamente, pelo bem da criança e da mãe,  pediu a Deus que ela estivesse certa.

 

Como o pai estava acompanhado do filho pequeno, Elizabeth explicou-lhe que precisariam fazer o parto ali mesmo, pois não havia tempo para chegarem a um hospital e pediu-lhe que saísse.  O homem mostrou-se ainda mais ansioso, mas despediu-se da esposa com um beijo e saiu com o menino, aguardando junto com o resto da equipe do lado de fora. Darcy, como chefe da equipe e com formação de paramédico achou melhor permanecer ao lado do enfermeiro que prestava apoio à médica.  Não era aconselhável, nem o espaço permitia que permanecesse mais ninguém no espaço restrito da UTI móvel.

 

O sotaque da mulher era muito mais carregado que o do marido, mas era possível entender que ela gritava de dor cada vez com mais intensidade, demonstrando que os intervalos das contrações agora eram menores. A doutora a orientava com palavras de encorajamento, que mesmo não sendo de todo compreendidas, pareciam animá-la a concentrar-se cada vez mais no esforço para que a criança nascesse.

 

O enfermeiro controlava o soro e auxiliava a médica como instrumentador e logo após mais um último forte impulso da mãe a cabecinha do bebê surgiu. A médica ajudou a sair, limpou e,  após cortar o cordão umbilical, colocou a criança junto da mãe.  Elizabeth e Darcy se olharam e nunca se sentiram tão próximos de alguém como se sentiram um do outro naquele momento.  Era o primeiro parto que ela fazia de verdade. Uma grande força os uniu naquela noite quando ele contemplou os olhos dela úmidos de emoção e surpreendeu a si próprio da mesma forma.

 

Quando a mãe saiu com o bebê para outra ambulância, conduzida em uma maca, o pai e o outro filho as acompanharam e a família foi aplaudida pelos membros da equipe que esperavam do lado de fora. Darcy cumprimentou  Elizabeth.

 

- Parabéns, Drª Bennet.  Acho que foi aprovada.

 

- Eu não sabia que estava sendo testada... – Ela respondeu, intimamente aliviada por tudo ter dado certo.

 

Retornaram ao quartel, e durante o resto da noite não houve mais nada excepcional.

A não ser o fato de que Darcy e Elizabeth conversaram durante o resto da madrugada como se fossem velhos amigos e um romance duradouro nasceu daquela noite de Natal.

Mais tarde Elizabeth também soube que a jovem mãe africana havia dado seu nome à menina que havia nascido.