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O Homem Certo - Capítulo 02

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em O Homem Certo

 


- Hum hum. Por quê? Você sentiu minha falta? – eu impliquei.


- Não muito, na verdade. A minha segunda escolha também era uma companhia agradável. Não me deixou muito tempo livre para pensar. Se é que você entende. – fez uma expressão que sugeria sacanagem.


- Há-há-há. Você não presta, George.


- Só me divirto. Afinal, a vida é curta. E você nem merecia um novo convite meu, depois de ter me deixado na mão sábado passado.


- Você jura que eu era mesmo a primeira escolha? – eu brinquei.


- Era mesmo.


- Ahãm, sei.


- Por que não? Você é ótima, Lizzy. E não enche meu saco depois com cobranças. Não se apega como as outras mulheres. Até penso que você é uma versão feminina de mim. Além disso, é muito gostosa. – e ele gargalhou.


- Hum... – eu franzi minha testa e emudeci.


- Tem certeza que quer mesmo sair para dançar? Não quer ir ao meu apartamento?


- Não.


- Você está estranha, Lizzy. Quando vai me contar o que aconteceu no sábado?


- Depois, lá dentro.


- Promete?


- Hum rum.


Entramos na casa noturna. Ainda estava pouco movimentada e a música soava baixa, apesar de ser bem agitada. Sentamos numa mesa central, com lugares disponíveis para quatro pessoas. E como ninguém mais chegaria, ocupei uma das cadeiras extras com minha bolsa e meu casaco.


- O que quer beber? – ele indagou, casual.


- Caipirinha.


- Uma para cada ou a gente divide?


- Uma para cada.


- Você quer encher a cara, não? – ele brincou.


- Hum rum. – eu concordei e sorri.


Após meia caipirinha e um pouco de papo furado, eu indaguei:


- George, se você desse de cara com uma paixão arrebatadora ou um amor a primeira vista, não sei bem, você fugiria ou mergulharia de cabeça?


- Que pergunta, Lizzy! É Lógico que eu fugiria! A vida está tão boa assim, para que complicar?


- Pois é! Foi o que eu fiz! Eu fugi. Devo ter parecido uma criança medrosa, mas eu me assustei e fugi. Só que ele me persegue tanto, George! Ele não sai da minha cabeça.


- Ele não sai da tua cabeça? E como foi que você permitiu que ele entrasse? – ele brincou.


- Não sei, não sei. – eu resmunguei e baixei meus olhos para o copo - A culpa foi tua, não devia ter me levado àquela festa.


- Rá! Eu disse que você estava estranha! Quem é ele?


- Advinha.


- Charles Bingley?


- Não.


- Tom Collins?


- Não!


E ele foi dizendo vários nomes, e eu sempre negando.


- Já sei! William Darcy! – ele exclamou.


- Hum rum. – eu assenti com um movimento de cabeça.


- Rá! Então você está ferrada! Ele não dá mole para ninguém. – ele estava achando engraçado.


- É... Mas a gente se beijou e...


- QUE? – ele agora gritou e várias pessoas viraram para nos olhar – Peraí, peraí, peraí. Um momento. – e ele se levantou de maneira dramática – Eu ouvi bem? – esfregou as orelhas, brincalhão – Você beijou o Darcy?


- Sim. – eu sorri meio sem graça.


- Não, não, não, não. Algo está errado nessa história. Você o amarrou e o beijou a força?


- Não né!


- Então você o ameaçou com um chicote?


- Há-há-há. Claro que não.


- Colocou um revolver na testa dele e ameaçou disparar caso ele não te beijasse?


- Claro que não! Pára George, não é legal rir das desgraças dos outros.


- Eu sei. Desculpa – ele então respirou fundo e voltou a se sentar. – Você beijou o Darcy... – ele revirou os olhos, tentando assimilar a informação – Poxa, Lizzy! Não podia escolher outro cara ao invés do meu chefe? – agora parecia chateado.


- Teu chefe? É sério? Eu achei que ele fosse teu amigo.


- Hum hum. É meu chefe. A gente não se dá. Aliás, ele não se dá com ninguém com exceção de Charles Bingley.


- Nossa, tô ferrada mesmo. – resignada, apoiei meus cotovelos sobre a mesa – Teu chefe... E ainda antipático... – e eu suspirei.


- Então. Como foi?


- A gente se beijou.


- Essa parte eu já entendi.- ele resmungou meio mau humorado.


- E ele me convidou para ir até a casa dele.


- Sério? – novamente seu rosto se contraiu com incredulidade. – E você não foi?


- Não.


- Por quê?


- Por que eu me assustei, George. Foi tão forte! Eu não estava preparada para aquilo e pensei que seria mais fácil se eu fugisse. Mas não está sendo nada fácil! Nada mesmo.


- E o que você pretende fazer?


- Não sei. Esperava que você me desse alguma sugestão.


- Eu? Você por acaso espera que eu te ajude a ficar com o meu chefe? – indagou perplexo.


- Hum rum. Você é meu amigo.


- Sou mais do que amigo. – ele cruzou os braços e resmungou.


- George! Não é hora para ter ciúmes. Você sabe como é difícil para mim me abrir com alguém.


- Eu sei. – ele grunhiu. – Mas você escolheu a pessoa errada para isso.


- Não. Não escolhi não. Você é legal. É meu amigo. E está sempre para frente e de bom humor. Você me diverte e me anima.


- Eu sou legal. – estufou o peito, meio convencido – Diz que eu sou gostoso também.


- Exibido. – e eu ri – Você é super gostoso, George. – belisquei a coxa dele.


- Abusada. – ele brincou – Se quiser pode beliscar o resto também. – ele propôs, meio cafajeste.


- Não.


- Não? – ele enrugou a testa e fez cara de cachorrinho pidão – Não me quer mais?


- Não, George. Não seria justo a gente ficar junto quando eu estou com outro homem na minha cabeça.


- Nunca mais?


- Não sei.


- Poxa, Lizzy... Você é tão gostosa. Não faz isso comigo.


- Mas sou descartável.


- Como assim?


- Você sempre me disse que as mulheres são descartáveis, George.


- São mesmo. – ele se inclinou para trás com as mãos sobre a cabeça e riu.


- Vamos dançar? – uma música irresistível começou a tocar.


- Peraí, não acabamos de conversar.


Então ele pediu outra caipirinha.


- George, você por acaso não está planejando me embebedar para me levar para cama, não é mesmo?


- Claro que não, Lizzy. Eu só abuso de mulheres sóbrias... - e eu fiz uma careta - ou de bêbadas afim de mim.


- Há-há-há. Maluco. – fiz uma pausa, pensativa – Ele pediu meu telefone.


- E não te ligou?


- Eu não dei.


- Por que não?


- Sei lá. Fiquei com medo. Mas disse a ele que se ele quisesse era só pedir para ti.


- Para mim? Há-há-há. Pode esquecer isso, Lizzy.


- Por quê?


- Você acha que ele iria se rebaixar, orgulhoso do jeito que é, e pedir teu telefone para um funcionário qualquer?


- Você não é um funcionário qualquer.


- Mas ele não sabe disso. – e ele sorriu.


- Hum... Pelo visto escolhi bem... Um homem orgulhoso e arrogante. Um desafio e tanto. – e eu suspirei.


- Lizzy! Pensei em uma coisa que seria interessante para mim.


- Hum? – ele me deixou intrigada.


- O Darcy é mesmo muito mal humorado, arrogante e esnobe e eu sempre pensei que o problema dele fosse falta de mulher. Melhor dizendo: falta de sexo! E agora eu cheguei a conclusão que você pode facilitar a minha vida.


- Hum?


- Por favor, Lizzy. – ele esticou os braços sobre a mesa e me sacudiu - Dê um trato nele! Faça o meu chefinho feliz! Pelo bem de todos os seus reles subordinados. Por favor?


- Você quer que eu vá contigo no teu trabalho e arranque as roupas do teu chefe no escritório dele? – eu debochei.


- Você faria isso por mim?


- Lógico! Com o maior prazer! – e eu sorri.


- Maluca.


- Maluco é você.


- Segunda-feira. Esteja lá às 10 horas da manhã. Tenho esse horário a tua disposição.


- Tá bom.


- Você vai mesmo?


- Hum rum. De manhã tenho uma reportagem fora do jornal. Vou a campo tirar umas fotografias. Ninguém perceberá se eu der uma escapadinha.


- E você terá coragem de entrar na sala dele?


- Você duvida?


- Lógico que não. Você é a maior cara de pau que eu conheço.


- Hum hum. Você é pior do que eu, George.


- Eu sei. Só estava esperando que você me elogiasse. – e ele riu.


E eu acabei meu segundo copo de caipirinha.


- Vamos dançar? – de novo eu propus.


- Vamos. – e ele caminhou pelas minhas costas até a pista de dança. Chegando lá me enlaçou pela cintura. Roçou o nariz no meu pescoço. – Lizzy... – ele murmurou ao meu ouvido – Já que você será a mulher do meu chefe e não estará mais ao meu alcance, será que pode me dar um último beijo?


- George! Eu não serei a mulher do teu chefe. – o repreendi.


- Será sim. Ele não resistira a ti Lizzy, nenhum homem resiste.


- Nem você? – eu me virei de frente para ele e indaguei, perspicaz.


- Hum hum. Um último beijo e eu faço o que você quiser. – ele brincou, fazendo uma reverência.


- Ok.


E eu o beijei. Que mal havia nisso? Já o havia beijado mais de mil vezes. Mas de alguma forma, não era mais a mesma coisa. Não era mais bom. Era estranho.

Depois de conhecer o homem certo, os homens errados não tinham mais a mesma graça.

Continua....