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O Homem Certo - Capítulo 05

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em O Homem Certo

 

Os dias passam e eu não consigo parar de pensar nela. E ela não vem. De certo não quer me ver.


Tenho tentado encontrá-la nos lugares mais estranhos e inusitados. Supermercados próximos a casa dela. Até numa cafeteria eu fui para ver se ela aparecia. Fiquei mais de uma hora lá. Rodei de carro tantas vezes ao redor do prédio dela. Tudo em vão. Nunca a vejo. 


Como forjar um encontro casual? Como não parecer desesperado e louco por ela? Deve haver um jeito de eu simular um encontro. De qualquer forma, não darei o braço a torcer. Ela disse que não quer um relacionamento. Até posso imaginá-la rindo da minha cara com aquele ar petulante, dizendo: “Eu disse que você não poderia viver sem mim.” Não. Não darei a ela esse gostinho.


Muitas mulheres passaram pela minha vida. Mas nenhuma deixou uma marca tão intensa. Ela é provocante, sexy, gostosa, atrevida, desinibida e adoravelmente e ao mesmo tempo irritantemente cara de pau.


Respirei fundo e olhei para a janela. Tinha um relatório para analisar. Mas minha mente estava bem longe daqui. Como a lembrança de apenas uma única noite poderia me perseguir tanto? Eu só queria um pouco de paz.


Dei ordens expressas a Isadora, minha secretária, que se Elizabeth voltasse ela poderia entrar sem aviso. Acabei denunciando meus sentimentos e vi a incredulidade estampada na face de Isadora. Sim. O chefe dela também tem sentimentos. Também é um homem capaz de amar. E por que não? Não preciso ser forte o tempo todo.


Venho tentado mudar. Tentado me esforçar. Para que se um dia nos reencontrarmos ela consiga ver em mim um homem melhorado. Não quero que todo mundo me ache arrogante e esnobe e a recrimine por ficar comigo. Quero que ela sinta orgulho de mim. Que ande de mãos dadas comigo pelas ruas exibindo aquele sorriso convencido e aquele nariz empinado que ela tem.


Como pode uma mulher revirar dessa maneira a cabeça de um homem? Fazer com que ele queira mudar seu comportamento e seu estilo de vida por causa dela? Fazer com que ele perceba que a vida sem ela é vazia e insignificante?


Droga. Eu faria tudo para tê-la pelo menos por mais uma noite. Imagina então pela vida inteira...


Ela disse que estava apaixonada por mim. Que diabos! Se ela tivesse apaixonada por mim estaríamos juntos agora. E eu a faria feliz. A levaria para a serra, ascenderia uma lareira e a aqueceria em meus braços. Ou se ela preferisse o calor, a levaria para uma praia. De preferência uma praia deserta e a enlouqueceria em plena areia. Não. É mentira. Devo corrigir: ela me enlouqueceria em plena areia.


E o gosto dela... Está gravado, memorizado e nítido na minha cabeça. Gostosa, fogosa. Ai, meu Deus! Devo estar ficando louco...


Coloquei as minhas mãos sobre a cabeça e baixei o meu rosto. O Relatório. Devo terminá-lo. É tão difícil...


- Sr. Darcy? – a voz da Isadora tirou-me dos meus devaneios.


- Hum?


- Desculpe eu entrar assim, mas eu bati na porta e você não ouviu... – ela murmurou constrangida, evitando meu olhar. Ela tinha medo de mim. Sim. Eu costumava ser arrogante e estúpido.


- Sim? – respondi e forcei um leve sorriso. Eu tinha que melhorar e tentar ser simpático. Quem sabe assim a Elizabeth me quisesse?


A Isadora se atrapalhou um pouco, eu percebi. Ela não estava acostumava a me ver sorrindo. Eu devia ser mesmo um monstro. Por isso Elizabeth me descartara.


Como pude acreditar um dia que ela não era adequada a mim quando na verdade ela era muito para mim?


- O Sr. Wickham está esperando pelos relatórios. Já estão pronto? Posso levá-los?

- Wickham? – ele era amigo de Elizabeth e eu não gostava dele. Parecia muito cínico, pois estava sempre exageradamente sorridente. Transbordava bom humor, seduzia e conquistava os outros com excessiva facilidade. E todos gostavam dele. Inclusive a minha Lizzy. Ele era o meu oposto. A minha antítese. Ele era o cara que eu gostaria de ser se eu fosse capaz de mudar. Talvez se eu fosse como ele, ela me daria outra chance... – Wickham? – eu repeti. Uma idéia me iluminou.


- Sim, Sr. Darcy... – ela respondeu levemente confusa. Pegou a caneta Bic que havia no bolso do terninho da empresa azul marinho e coçou a orelha esquerda.


- Já estou terminando. Pode deixar que assim que eles estiverem prontos eu mesmo os levarei.


- O Sr. levará? – ela balbuciou boquiaberta. – Tipo pessoalmente?


- Sim, Isadora. Agora pode me dar licença? – a presença dela estava começando a me perturbar. Sua expressão só me lembrava do meu antigo eu meio carrasco.


- Cla-claro. – e ela andou de marcha ré, como se estivesse com medo de se virar e levar nas costas uma flechada de algum arco e flecha que eu ocultava. Nossa! Eu devia ser terrível mesmo.


Reuni meu resto de neurônios inteligentes e não afetados pela paixão arrebatadora que eu sentia por aquela mulher e em poucos minutos finalizei a correção do relatório.


- Pronto. – passei pela mesa da Isadora e entreguei um dinheiro a ela. – Compre um chocolate para a gente na loja da frente. Você anda muito estressada.


- Hã??? – dessa vez ela demorou a fechar a boca e eu tive que rir. Foi engraçado.


Chegando próximo à sala de Wickham, eu logo ouvi que ele falava ao telefone. Não que eu planejasse escutar ou algo do gênero. Espionar não fazia parte do meu estilo. Mas a porta estava entreaberta e eu não pude evitar.  


- Lizzy! Não faz assim comigo...


E eu estanquei. Essa conversa eu tinha que ouvir.  Era mais forte do que eu. E eu me escorei na parede ao lado da porta aberta. Não podia haver duas Lizzy. Isso só queria dizer que ele falava com a minha Lizzy!


Meu coração se agitou. Nervoso. Há meses que eu não tinha notícias dela. Embora ela não saísse da minha cabeça. E eu precisava de qualquer coisa. Qualquer informaçãozinha me bastaria.


Como eu desejava ouvir o som da voz dela. Como eu desejava arrancar aquele telefone das mãos do George e falar com ela no lugar dele.


- Eu não posso mesmo te encontrar? Nem a minha amizade você quer mais? Hum.... Sei... Noite só de mulheres. Sei... Sei, Lizzy. Sei bem como funciona isso. Não precisa arranjar desculpa, se você não quer mais nada comigo.


Nossa! Ela e o George tinham um caso? Ah não! Tudo bem, tudo bem. Pelo visto ela não quer mais nada com ele. Não me importo. Ela será só minha um dia. Pelo menos eu espero que seja.


- Tá bom. Já entendi. Você, Jane e Lídia vão hoje ao Abbey Road e você não quer homem por perto. Entendi sim. Tá bom. Não! Eu não entendo, não. Mas eu respeito, tá?


E eu não ouvi mais nada. Sai correndo dali e quase derrubei os relatórios pelo caminho.


- Isadora, entregue os relatórios você mesma. – atirei-os sobre a mesa dela - E não diga que eu fui até a sala dele, está bem? E aproveite e compre os chocolates!


Entrei em minha sala feito um raio. Eufórico. Entusiasmado. Meu encontro casual finalmente se concretizaria. Eu sabia para onde ela iria. Eu a veria novamente.


Peguei o telefone e disquei o número do meu melhor amigo.


- Charles! Nós vamos ao Abbey Road hoje. (...) Não me importo que você tenha um compromisso: desmarque! (...) Não existe nenhum compromisso que não possa ser desmarcado. (...) Entenda bem, meu amigo: é um caso de vida ou morte. E eu nunca te pedi uma coisa dessas, você sabe disso, embora você já tenha me arrastado para mil e um lugares contra a minha vontade (...) Sim. Eu admito. Ela estará lá. Pelo menos eu acho... (...) Ah, você vai? Ótimo! (...) Não. Eu não faço a mínima idéia onde fique esse tal de Abbey Road ou que seja isso. Só sei que é para lá que nós vamos. (...) Até de noite então.


- Chegamos tarde, Charles. Por que você demorou tanto? – eu resmunguei tentando encontrar uma vaga disponível no estacionamento lotado.


- Eu te falei que eu tinha um compromisso, Darcy. Foi o mais cedo que eu consegui me livrar.


- Tudo bem, tudo bem – eu suspirei – Desculpa, cara. Eu tô nervoso.


- Eu sei. – ele me olhou e riu. – Essa mulher te virou mesmo a cabeça. Se a minha irmã sonha com isso. – ele debochou.


- Eu nunca quis nada com Caroline.


- Eu sei. Mas ela não sabe. Acho que o consolo dela é acreditar que você é gay.


- Rá! É sério?


- Sim. Ela nunca te viu com mulher nenhuma. Quando te vir com a Elizabeth creio que sofrerá um infarto.


- Quando me vir com Elizabeth... – eu resmunguei – Se isso acontecer um dia...


- Tem certeza que ela estará aqui? – ele mudou de assunto. – Ei! Ali tem uma vaga.


E eu finalmente consegui estacionar.


- Espero que sim. Eu realmente espero que ela esteja.


Entramos no bar lotado. Uma banda tocava músicas conhecidas. A banda couver da casa em que o próprio dono do bar tocava de vez em quando entre os integrantes. Ambiente agradável. Um público mais selecionado. Algumas pessoas de idade. Interessante.


Corri meus olhos por todas as mesas e nem sinal dela. Droga! Não era possível.


- Tem um segundo andar. – Charles percebeu meu desânimo e apontou para um mezanino.


- Ah. Vamos subir então. – a esperança voltou ao meu rosto.


E nos últimos degraus eu a avistei. Ela conversava empolgada com uma loira bonita de traços delicados e uma morena baixinha aparentemente mais nova. E devido às semelhanças, as três só podiam ser irmãs.


Mas a Lizzy era a que mais chamava atenção. A mais bela entre todas as mulheres presentes. Com seus olhos reluzentes de um castanho intenso. Olhos que transmitiam todo seu fogo, sua alegria, sua vivacidade. Capazes de hipnotizar um homem e deixá-lo de quatro. Tal como ela fizera comigo.


- Charles? – eu logo constatei que ele estava vidrado. Parecia enfeitiçado. Ele olhava fixo para a loira que acompanhava a minha Lizzy.


Segui firme em direção a ela. Com Charles ao meu lado. Até que a loira viu Charles. Estranho. Ela sorriu para ele como se já o conhecesse. Será?


- É ela, Darcy. – ele me cutucou.


- Hum?  - eu arqueei as sobrancelhas, intrigado.


- A Jane! A mulher de quem eu sempre te falei! Aquela que fez faculdade dois anos depois de mim! Por quem eu sempre fui apaixonado e com quem eu nunca tive a oportunidade de conversar!


- Ah! – e ele parecia tão entusiasmado. Que ironia do destino: justo ele que não queria vir...


No mesmo instante a Elizabeth parou de falar e reparou na expressão da irmã. Automaticamente, seu rosto curioso se voltou para a mesma direção do de Jane e seus olhos encontraram os meus. Automaticamente, o sorriso do seu rosto esmoreceu.


Os traços de seu rosto endureceram. Sem expressão. Suas bochechas ficaram pálidas. E ela estancou. Como se estivesse congelada. Como se tivesse visto um fantasma. Seus braços ficaram rígidos apoiados sobre a mesa. Ela ficou imóvel a minha espera.


Não recuei. Continuei o meu trajeto agora acompanhado por aqueles olhos castanhos desconfiados. Fixos no meu rosto. Olhos determinados e valentes. Engoli em seco e prossegui. Não voltaria atrás.


Ela era demais! Linda. Apetitosa. Fogosa. Sexy. E eu a queria. E não só isso: eu a teria e estava disposto a tudo para conquistá-la.


Quando eu enfim cheguei e parei em sua frente, ela me surpreendeu. Mas eu digo e ressalto: ela realmente me surpreendeu! Não da mesma forma com que ela sempre me surpreendia, mas de uma maneira completamente inusitada: pela primeira vez eu percebi indícios de medo em seu rosto. A minha Lizzy, ousada, forte e incrivelmente cara de pau temia a mim!? Como pode uma insensatez dessas? E ela fechou os olhos como se estivesse assustada!?


- Lizzy? – eu segurei o seu queixo e não obtive resposta. Era uma pedra de Lizzy. Encolhida. Medrosa. – Abre os olhos, Lizzy.


- Não. – sua voz soou firme e teimosa, apesar de tudo.


Então eu lembrei. Lembrei do que ela fez comigo um dia. Decidido, a enlacei pela cintura. Nenhuma resistência. Ótimo. Controlei-me para não rir ao repetir as palavras já usadas por ela:


- Covarde! Olhe para mim e negue que me quer. – grudei minha boca naquela pele macia e depositei um beijo em sua bochecha. Ela se encolheu um pouco, mas não se mexeu mais do que isso. Apertei meus braços ao redor de sua cintura.


– Abra os olhos, Lizzy. – repeti com segurança. Nenhuma resposta.


Então resolvi alterar meu tom. Tinha que jogar pesado mesmo. E eu sussurrei da forma mais sensual que eu consegui, enquanto meus lábios roçaram os dela:


- Abre os olhos, meu amor. – um braço meu acariciava os seus cabelos, enquanto a minha boca pressionava seus lábios semi-imóveis e entreabertos. Aos poucos, ela se entregava. Aos poucos, ela correspondia. Ela não era tão forte quanto acreditava.


- Amor... – ela repetiu. Não entendi bem o sentindo daquilo e também não tive tempo de pensar. Por que depois disso, seus braços enlaçaram meu pescoço com vigor. Sua boca sedenta se abriu aceitando a minha. Sua língua energeticamente se enroscou à minha.


- Por que demorou tanto? – seus olhos estavam úmidos ao finalmente encarar os meus.

- Você disse que não queria... – contrai minhas sobrancelhas, intrigado. Mais uma vez, ela me surpreendia.


- Eu não queria, Will. Mas infelizmente há coisas que fogem do meu controle. – e ela sorriu com aquela adorada expressão cara de pau.


- Você disse que não namora. – acariciei seu rosto.


- Eu não namoro mesmo. – ela afirmou, sem desmanchar o sorriso.


- Então aceita ser minha noiva? – eu propus. Eu tinha que arriscar. Eu a queria de qualquer maneira.


- Noiva? – ela fez uma careta e resmungou – Não sei se quero casar.


- Eu não estou te pedindo em casamento, só em noivado.


- Rá! Então eu posso ser uma eterna noiva? – ela indagou divertida.


- Pode ser o que você quiser, Lizzy. Desde que esteja comigo.


- Tudo bem – ela respondeu debochada - Eu aceito.


- Aceita o quê? – ela me confundia. Como sempre.


- Ser qualquer coisa para ficar contigo.


- Ótimo. – e meus lábios novamente se uniram aos dela.

 

 

 

 

 

.....  Fim ....