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Sabor do Amor - Capítulo 2

Escrito por Fátima Ligado . Publicado em Sabor do Amor

Capítulo II

 

Fazia uma bela manhã na fazenda. Elizabeth se arrumou com capricho, pois queria causar boa impressão ao Sr. Braga, mas apenas para lhe mostrar que as moças do interior eram tão belas quanto as da capital. Desceu para tomar café e encontrou apenas Jane a mesa.

- Bom dia, Jane! Onde estão papai e mamãe?

- Papai saiu muito cedo e mamãe foi visitar a Sra. Adelaide. E aí, animada para o passeio com o Sr. Braga?

- Jane, pode parar, será apenas um passeio.

- Confesse Lizzy! Você gostou dele.

- Eu não tenho o que confessar. O Sr. Braga é bonito, educado e tem uma conversa agradável, mas achei-o muito esnobe.

- Ele foi criado na Capital, o que esperava? Já pensou onde vai levá-lo?

- Estive pensando em ficarmos pela fazenda mesmo. Jane, por favor, venha comigo.

- Não posso Lizzy. Papai me pediu antes de sair que recebesse o professor de literatura, pois ele só voltará à noite. Tenho certeza que vocês irão se divertir... Acho que ele acabou de chegar.

- Tem certeza que não pode ir em meu lugar? Por favor, irmãzinha.

- Lizzy! Eu estou noiva do Sr. Matias, esqueceu?

- No que tem muita sorte, minha querida irmã. Ao menos tem alguém gentil e agradável para conversar... E não precisa passar pelo enorme sacrifício que eu passarei agora. Vamos comigo!

- Já te disse que terei que receber o Sr. Darcy esta manhã.

- Eu queria estar em casa para receber o professor de literatura, que certamente deve ser um velho careca, barrigudo, com grandes óculos na ponta do nariz. – falou rindo.

- Lizzy! – Jane também ria.

- Melhor assim, ao menos é uma garantia de que será muito culto e inteligente. Acho que prefiro o velho ao cansativo e superficial do Sr. Braga.

- Lizzy, cale-se. Ele já está na sala e pode nos ouvir! E o professor não deve ser velho, pois foi criado com o Sr. Matias, esqueceu?– Repreendeu Jane.

Elas correram em direção à sala para recebê-lo. Após os cumprimentos, eles se despediram de Jane e saíram. Elizabeth se dirigiu até uma charrete; vendo isso, Jorge não escondeu sua surpresa.

- Desculpe, mas vamos de charrete?

- Vamos sim. Algum problema, Sr. Braga?

- Confesso que fiquei um tanto surpreso, é meio provinciano, eu diria.

- Bem, Sr. Braga, acho que não deve criar grandes ilusões, se ainda não se deu conta está no interior. E, se quiser desistir do passeio, não me oporei e nem ficarei ofendida.

- De maneira nenhuma, Srta. Albuquerque; jamais cometeria uma desfeita dessas. Além do mais, a sua companhia recompensa a simplicidade.

Elizabeth esboçou um sorriso aguado, e, quando Jorge se virou para ajudá-la, ela revirou os olhos e deu um longo suspiro, pois pensou em quão longa seria aquela manhã.

Já instalados na charrete, Elizabeth, percebendo que ele não pegara as rédeas, tomou-as em suas mãos e então seguiram. O passeio foi restrito a apenas a fazenda do pai de Elizabeth, pois não era apropriado que eles se afastassem muito por estarem sozinhos.

Após andarem por quase toda a fazenda, Elizabeth, parou um pouco no cafezal, a pedido de Jorge. Eles desceram e começaram a caminhar em meio àquele mar de café. Mal conseguiram andar direito, pois, à medida que passavam pelos muitos trabalhadores que estavam colhendo café, eram interceptados, pois todos queriam cumprimentar Elizabeth, que sempre com sua amabilidade e carisma respondia a todos com alegria e cordialidade. Jorge ficou apenas observando, e, quando já estavam afastados de todos, ele resolveu externar seu espanto por tal cena.

- Vejo que por aqui é comum essa aproximação dos Senhores com os criados. Um estranho hábito, por sinal.

- Acho bom o senhor se acostumar com nosso “estranho hábito”.

- A Senhorita parece que tem muita intimidade e aproximação com os trabalhadores do seu pai, ou estou enganado?

- Está correto, Sr. Braga. Meu pai sempre nos ensinou que nossa situação financeira não nos faz diferentes dos demais.

- Oh! Realmente muito “diferente” a criação que vosso pai lhes deu.

- Sinto que o senhor reprova a nossa criação. – Falou desafiadora.

- De forma alguma, senhorita, mas devo confessar que não é convencional e não me agrada.

- Meu pai sempre nos diz uma frase que gosto muito, Sr. Braga. Ele fala: O que seria da perfeição se não fugíssemos do convencional?

- Sábias palavras do Senhor seu pai, Srta. Albuquerque. Só penso que, com filhas tão lindas, ele deveria ter mais cuidado, não acha? Geralmente as pessoas condenam as mulheres que pensam, ou das que fogem do convencional, como a senhorita bem disse.

- O senhor, presumo, seria uma dessas pessoas.

- Se fosse não estaria aqui, tendo essa conversa proveitosa... Aliás, Srta. Albuquerque, tenho uma grande atração por inteligência.

Jorge falou isso enquanto se aproximava perigosamente de Elizabeth, que, prevendo o que ele estava prestes a fazer, se afastou bruscamente. E, virando-lhe as costas, tratou logo de escapar daquela situação.

- Devemos ir, Sr. Braga, já está ficando muito quente e sinto-me cansada.

- Sim... Claro. – Jorge falou com um cínico sorriso nos lábios.

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Jane estava na sala bordando quando uma criada anunciou a chegada do professor de literatura, o Sr. William Darcy. Ela se arrumou e pediu para que o deixassem entrar. Ao vê-lo entrar, Jane ficou surpresa, mas como toda a educação e autocontrole que lhe eram característicos, ela sorriu e gentilmente o cumprimentou.

- Bom dia, Sr. Darcy!

- Bom dia!

- Sou Jane Albuquerque. Eu gostaria de lhe pedir desculpas pela ausência do meu pai, mas negócios urgentes o impediram de estar aqui hoje. Tratarei com o senhor no lugar dele. Tem alguma objeção em relação a isso?

- Em absoluto, senhorita.

- Ótimo.

Eles ficaram por alguns minutos tratando sobre as aulas, e ficou acertado que elas aconteceriam quatro vezes por semana, numa hora diária no período da manhã durante dois meses, pois como o casamento de Jane estava marcado para dali a dois meses e meio, ela queria assistir a todas as aulas.

Depois de acertado isso e os valores a serem pagos, Jane ofereceu um café, o que foi aceito de imediato. Enquanto saboreavam o delicioso café dos Albuquerque, eles travaram uma agradável conversa.

-... Então, Sr. Darcy, o Senhor meu noivo o tem como um bom amigo.

- Sim, Carlos é um homem de grandes qualidades, e uma delas certamente é saber estimar e preservar suas amizades. Conhecemos-nos desde garotos... Bem, agora, com sua licença, devo partir.

- Ah! Então estamos acertados. Amanhã nós estaremos aguardando sua vinda para nossa primeira aula.

- Certamente, senhorita.

- Pena que minha irmã Elizabeth não tenha chegado a tempo de seu passeio para conhecê-lo.

- É realmente uma pena, mas creio que não faltarão oportunidades. Tenha um bom dia, Srta. Albuquerque.

- Igualmente, Sr. Darcy.

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Elizabeth aceitou a mão estendida do Sr. Braga a contragosto, desceu rapidamente e seguiu em direção a casa na esperança de ele ir embora. Ainda estavam longe da entrada principal, mais precisamente no inicio do longo jardim. Elizabeth ficou surpresa quando ele se ofereceu para acompanhá-la; ela seguiu um pouco mais à frente que ele.

Ela estava tão aborrecida! Tanto pelo passeio chato quanto pelo fato de pensar na possibilidade de ter que ficar mais tempo na companhia dele, que não observou uma pequena pedra a sua frente e tropeçou; seu corpo pendeu para frente e já estava prestes a cair no chão quando foi amparada por um homem.

Elevou os olhos e então se deparou com um par de olhos azuis intensos, que mais pareciam dois lagos cristalinos. Baixou mais um pouco seus olhos e então o analisou por completo. Ele era lindo, cabelos castanhos lisos, que lhe caiam sobre a face, olhos azuis, boca levemente rosada e convidativa e um rosto másculo. Foram alguns segundos, porém, tempo suficiente para que um estranho magnetismo a envolvesse. Acordou de seus pensamentos ao ouvir a voz do Sr. Braga.

- A senhorita está bem?

- Estou bem, Sr. Braga, foi apenas um susto.

- Muito obrigado, cavalheiro, já pode soltá-la.

- Claro... – Darcy falou sem jeito ao perceber que ainda a segurava, então ele a soltou. – Está tudo bem com a senhorita?

- Sim, estou bem. Obrigada! – Falou olhando fixamente naqueles olhos azuis.

- Bem... Acho que agora o senhor já pode ir muito obrigado. Vamos entrar para que a senhorita possa se recompor desse terrível incidente.

O Sr. Braga pegou Elizabeth nos braços, apesar dos seus protestos, e seguiu em direção a casa.

Darcy apenas observou aquela cena e partiu em seguida, ainda hipnotizado pela beleza daquela mulher. Aqueles grandes olhos negros o encantaram, e o seu cheiro? Ah! Aquele delicioso cheiro que emanava de seus cabelos e da sua pele! Um pensamento o fez parar de pensar nela: - Darcy, não seja ridículo. Certamente ela está comprometida com aquele homem. Pensando isso, seguiu seu caminho.

Jane se assustou ao ver o Sr. Braga entrar carregando Elizabeth nos braços. Ele a colocou sentada em um sofá enquanto pedia para que Jane providenciasse um copo com água para ajudá-la a se acalmar. Jane, de imediato, pediu para que trouxessem água enquanto tentava descobrir o que havia acontecido com sua irmã.

- Por Deus, o que houve?

- Não foi nada, minha irmã. Eu apenas tropecei em uma pedra, mas estou perfeitamente bem. – Tranqüilizou sua irmã.

- Por sorte não se machucou, Srta. Elizabeth.

- Mas eu estou bem agora, Sr. Braga Já pode ir. – Elizabeth falou, enquanto recebia um olhar reprovador de Jane.

- Sr. Braga, agradecemos sua atenção, tenho certeza que foi uma sorte minha irmã tê-lo ao seu lado para ajudá-la. Não é, Lizzy?

- Certamente... Sr. Braga, não precisa abrir mão de seus compromissos por minha causa. Agradeço muito pelo passeio e por sua ajuda, mas preciso descansar e já estou bem melhor, como pode ver. – Forçou um sorriso.

- Bem, se é assim, a deixarei descansar. Mas quero que se recupere logo, para que possamos repetir o nosso tão agradável passeio.

Elizabeth sorriu da maneira recomendada e então Jane o acompanhou até a porta. Quando voltou, encontrou Elizabeth com o olhar perdido, como se estivesse com seu pensamento longe.

- Lizzy!

- Jane! Assustou-me.

- No que estava pensando?

- Em nada. Ele já foi?

- Já.

- Ainda bem. Minha irmã, se antes eu não tinha uma boa opinião do Sr. Braga, depois deste passeio só posso afirmar que minha opinião não mudou em nada, apenas se confirmou.

- Não acredito que tenha sido tão ruim assim, Lizzy.

- Não foi ruim Jane, foi insuportável!

- Nossa, nem consigo imaginar como um homem de tão boa aparência e educado possa ser tão desagradável.

- Um belo de um esnobe, isso sim. Acha que é melhor que os outros por ter dinheiro. Sabes que não gosto de pessoas assim.

- Vamos deixar o Sr. Braga para lá. Quero te falar sobre o Sr. Darcy.

- Quem? – Perguntou impaciente.

- Lizzy! O Sr. Darcy, o professor de Literatura.

- Jane querida, eu estou muito cansada, preciso me refrescar um pouco. Depois você me conta está bem? Vou subir e descansar.

Elizabeth deu um beijo no rosto de Jane e subiu para o seu quarto. Entrou, tirou suas roupas e começou a se refrescar com um pano úmido. Vestiu algo mais confortável, deitou em sua cama e ficou relembrando a manhã enfadonha que teve, dando um longo suspiro de insatisfação.

Abraçou o travesseiro ao lembrar-se daquele belo desconhecido, um sorriso começou a brotar em seus lábios. Quem poderia ser aquele homem? Ele não se vestia de forma elegante, estava até vestido de maneira simples. Pensou: Se ele estava na fazenda deve ter vindo falar com algum dos empregados. Lembrou dos olhos azuis, poderia mergulhar intensamente naqueles olhos; aqueles lábios rosados... Sentiu que estava ficando louca. Certamente nunca mais o veria em sua vida, tentou afastá-lo de seus pensamentos, mas foi em vão. Contrariada, resolveu não lutar contra isso, pois era apenas uma boa lembrança. Vencida pelo cansaço, virou para o lado e dormiu profundamente.