Imprimir

Sabor do Amor - Capítulo 7

Escrito por Fátima Ligado . Publicado em Sabor do Amor

Capítulo VII


Lizzy abriu os olhos, ainda anestesiada por tudo o que viveu no dia anterior, ainda podia sentir o gosto do beijo e o delicioso cheiro dele. Tudo parecia um sonho, a declaração, os momentos que ficaram juntos, não poderiam ter sido mais perfeitos.

Ainda se espreguiçava na cama quando Jane batendo na porta e entrando logo em seguida a tirou de seu torpor de felicidade.

- Lizzy eu não acredito que você ainda não está pronta! Anda, levante-se já, temos visitas.

- Visitas? – Perguntou surpresa, levantando-se rápido, na esperança de ser Darcy.

- Sim. O Sr. Braga está na sala com papai, eu vim chamá-la antes que mamãe enfarte.

- Diga que eu estou dormindo, melhor, diga que eu desapareci, sumi no vento. – Falou voltando para a cama.

- Está bem Lizzy, eu direi, mas já sabe quem virá aqui te buscar não é?

- Mas o que ele quer a essa hora?... Deus ele vai tomar café da manhã conosco?... Eu não tenho alternativa, desço em alguns minutos, é só o tempo de me arrumar.

Jane lançou um sorriso cúmplice para a irmã, não sabia o motivo que levava a irmã a tratar o Sr. Braga daquela forma, mas a apoiaria independente de qualquer coisa.

Depois de alguns minutos ela desceu as escadas encontrando seu pai, sua mãe, Jane e o Sr. Braga na sala, pareciam conversar animadamente sobre as ultimas notícias da capital. Ao vê-la se aproximar, o Sr. Braga foi até ela, tomando sua mão e beijando em seguida.

- Bom dia Srta. Elizabeth! Como é possível que fique mais bela a cada dia?

- Céus! Mas o Sr. Braga é realmente muito gentil não acha Lizzy? – A Sra. Albuquerque falou entusiasmada.

- Obrigada Sr. Braga. – Lizzy se limitou a falar puxando sua mão em seguida, mas por educação que por lisonjeio.

- Lizzy o Sr. Braga veio convidá-la para um passeio, não é maravilhoso?

- Sinto muito mamãe, mas terei que recusar o tão agradável convite, pois temos aula de literatura.

- Creio que não será o fim do mundo se você não assistir a aula hoje. Tenho certeza que o Sr. Darcy entenderá, afinal é um bom motivo. – insistiu a Sra. Albuquerque.

- Mamãe, eu não acho justo fazer isso, temos um compromisso assumido... Sr. Braga eu realmente sinto muito, mas não será possível. - Lizzy falou já se aborrecendo com a insistência da mãe.

- Claro que entendo srta. Elizabeth, não vamos discordar por isso não é mesmo?... Pelo que vejo as aulas de literatura devem ser realmente interessantes, apesar de não gostar muito de poemas, fiquei curioso para assistir a uma aula... Então me atrevo pedir para acompanhar as Senhoritas durante a aula, assim poderei desfrutar de sua companhia.

- Mas que idéia excelente Sr. Braga, é claro que pode ficar. Será um imenso prazer, não é meninas? – Perguntou a Sra. Albuquerque.

Lizzy foi pega de surpresa, ficou sem palavras e muito descontente, o que não conseguiu esconder, tinha em sua fisionomia a frustração de tal companhia. Jane conhecendo a irmã, e percebendo o clima constrangedor que estava por vir, respondeu rápido.

- Será um imenso prazer para nós Sr. Braga.

**************************************____****************************

Darcy sentia-se extremamente feliz aquela manhã, estava ansioso por rever Lizzy, precisava ao menos vê-la, pois sabia que seria complicado se encontrarem a sós. Ao passar pelo belo jardim, colheu uma rosa, aproximou-a do nariz e sentiu o delicioso cheiro que emanava dela, sorrindo colocou no bolso do paletó, assim que tivesse uma oportunidade presentearia sua amada.

Chegou pontualmente, foi encaminhado a grande e luxuosa sala de estar da casa. Sentia que não conseguiria não deixar transparecer a alegria de estar perto de Elizabeth, mas mesmo a contragosto precisava respeitar a decisão dela.

Ao vê-lo, o Sr. Albuquerque foi ao seu encontro, e o abraçou cordialmente, enquanto lhe agradecia pela ajuda do dia anterior. Pois com a ajuda de Darcy o foco da praga estava sendo controlado, após os agradecimentos entusiasmados do Sr. Albuquerque, Darcy respondeu completamente sem jeito.

- Imagine Sr. Albuquerque, apenas apliquei um pouco do meu conhecimento.

- Não seja modesto meu rapaz! Meu cafezal estaria empestado agora, se não fosse por sua ajuda.

- Então além de professor, o Senhor também entende de pragas? Mais como é versátil Sr. Darcy. –Jorge falou com ironia.

- Não sei posso considerar um elogio Sr. Braga... Mas, agradeço. - Darcy retribuiu a ironia, deixando-o constrangido e Lizzy feliz.

- Eu acho que seria melhor irmos assistir as famosas aulas de literatura. Não se incomoda se eu participar não é Sr. Darcy? Estou muito curioso...

- De maneira nenhuma Sr. Braga. Se as Senhoritas não se incomodarem, afinal eu sou apenas o professor.

- Então podemos ir, pois elas já me deram o seu consentimento.

Apesar de não ter gostado da idéia de tê-lo em sua aula, Darcy manteve a compostura e então seguiram para o escritório. A aula transcorreu tranqüila apesar dos olhares que o Sr. Braga lançava sobre Darcy. Lizzy tentava agir normalmente, apesar dos olhares trocados.

O poeta escolhido foi Casimiro de Abreu, Darcy falou um pouco sobre a vida do poeta e suas obras, por fim, como sempre fazia, declamou um poema do autor. Mas desta vez ao declamar o poema tinha uma paixão maior em sua voz, um brilho mais intenso em seu olhar, proferia cada palavra como se as degustasse. Tentou ao máximo se controlar e não declamar para Lizzy, sim apenas para ela.

[i] DESEJO
 
Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!
 
Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;
 
Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;
 
Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;

Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão![/i]


Quando terminou um forte barulho de aplauso ecoou por todo o cômodo, mas ao olhar de onde vinha o barulho, percebeu que o mesmo era falso, carregado de ironia. Encostado a janela Jorge Braga, que passara toda a aula em silêncio, batia palmas, pausadamente enquanto trazia grudado em seu rosto um sorriso cínico.

- Agora entendo o sucesso de suas aulas Sr. Darcy... É um perigo para as jovens inocentes que querem apenas aprender um pouco mais sobre “poemas”.

- O que está insinuando Sr. Braga? Confesso que não sei onde está querendo chegar.

- Como não Sr. Darcy?... Até que o Senhor me surpreendeu, nunca imaginei que tivesse tanto conhecimento, posso finalmente afirmar que o subestimei, é uma pena que nunca passará de um simples professor.

- Interrompo alguma coisa?

A voz animada de Carlos quebrou o clima tenso que havia se formado, para alívio de todos.

- Espero que a aula já tenha acabado. Pois vim roubar minha noiva para um passeio. - Carlos falou alheio ao que havia se passado.

- Já terminamos sim Carlos. - Darcy falou tentando manter-se calmo.

Passado o mal estar todos se dirigiram até a sala. Darcy se despediu de todos cordialmente, pois teria outra aula em outra fazenda. Quando foi se despedir de Lizzy, Darcy aproveitando que os outros conversavam mais afastados, sussurrou:

- Preciso vê-la. – falou enquanto lhe entregava discretamente a pequena rosa que colhera mais cedo.

- Amanhã, na cachoeira antes da aula.

Lizzy respondeu baixinho e tentando disfarçar o máximo possível. Após as despedidas ele partiu, em seguida foi à vez do Sr. Braga. Lizzy alegou cansaço e se recolheu antes do almoço. Restando apenas Jane e Carlos, que resolveram caminhar um pouco pelo jardim, aproveitando para ficarem sozinhos.

***************************____***************************************

Jorge aguardava o avô na sala logo após o jantar, pois sabia que o avô odiava que falassem durante o jantar, dizia que era falta de educação. Quando finalmente ele sentou em sua velha poltrona, Jorge tomou coragem para falar algo que desejava falar-lhe há muito tempo.

- Vovô, eu ouvi rumores que muitos fazendeiros andam tendo problemas financeiros, algo relacionado a uma possível crise do café.

- É verdade, muitos estão à beira da falência, posso afirmar.

- Entendo... Sinto pelo Sr. Albuquerque, pois sei que ele enfrenta uma crise financeira.

- Onde ouviu isso? – O Sr. Farias perguntou assustado.

- Desculpe vovô, mas ouvi sem querer a conversa de vocês outro dia.

- Jorge! Anda ouvindo minhas conversas?– Perguntou bravo.

- Em absoluto vovô!... Estava indo ao seu escritório lhe falar, e como não sabia que tinha visitas, acabei ouvindo sua conversa, mas juro que não foi intencional... Mas é tão grave assim o problema de Pinhal?

- Receio que sim. O Sr. Albuquerque, assim como outros corre o risco inclusive de perder a fazenda.

- Perder a fazenda?!

- A divida dele será executada em menos de três semanas.

- É realmente uma pena... Pois, estou muito interessado pela Srta. Elizabeth Albuquerque.

- Jorge! Mas esta notícia é magnífica. Apesar dos problemas do pai dela, eles são uma família de bom nome na região. Fico feliz que esteja criando juízo, depois do que aprontou na capital...Não gosto nem de pensar na sua irresponsabilidade.

- Mas vovô qual vantagem eu teria em tal união? Já que eles ficarão sem nada.

- Nisso você tem razão. É realmente uma pena meu neto, faria muito gosto por essa união.

- Naquele dia o Sr. Albuquerque falou que um empréstimo salvaria sua fazenda. O Senhor acha que isso é possível?

- Bem provável, ele poderia investir mais no cafezal e conseqüentemente produzir e vender mais. Mas por que tanto interesse?

- Vovô, faria algo se lhe pedisse?

- Sabe que sim, desde a morte de sua mãe, tudo o que quero e faço é para vê-lo feliz meu neto.

- Fico feliz ao saber disso... Então eu peço que...

Jorge tinha conseguido seu objetivo com seu avô, agora só faltava saber a resposta de Elizabeth, mas nisso estava confiante, pois tinha certeza que ela não lhe recusaria, nenhuma outra mulher resistia a ele, e não seria uma moça do interior que seria indiferente ao seu charme, beleza e nome.

*******************************_____**********************************

O vento forte daquela agradável manhã teimava em desalinhar os cabelos soltos de Lizzy, dando-lhe um tom de liberdade, como se ela e a natureza fossem um só. Pensava em sua vida, nos novos acontecimentos. Estava feliz, mas sabia que precisaria tomar uma decisão. Olhou para a pequena trilha que dava até a cachoeira e viu Darcy vindo em sua direção. Ele estava lindo, havia tirado o blazer, e sua camisa levemente aberta deixava a mostra o largo peito, dando-lhe uma sensualidade maior; os cabelos desalinhados pelo vento lhe deixavam ainda mais charmoso.

Darcy ficou observando como a luz do sol deixava os olhos de sua amada ainda mais vivos e brilhantes. Poderia se perder naquele sorriso iluminador. Foi caminhando até ela a passos lentos, e com os olhos azuis resplandecendo a felicidade do seu coração, começou a declamar...

[i] Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudeça
Quando ela fala.

Meu coração dolorido
As suas mágoas exala,
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.

Pudesse eu eternamente,
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala. [i]


Chegando próximo a ela, acariciou seu rosto, enquanto ela lhe sorria. Aproximando seu rosto, continuou...

[i] Minha alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala. [/i]

Seus lábios se uniram em um beijo apaixonado e cheio de saudade. Para ambos era difícil ficar separados. Sorrindo, Lizzy não conseguiu deixar de brincar.

- Lindo poema, mas o Senhor já me conquistou Sr. Darcy.

- Devemos agradecer ao poeta... Mas se a Senhorita não quer ouvir minhas declarações através de poemas, dê-me sua permissão para declamá-los a outras jovens.  – Ele falou fingindo indignação.

- Então quer dizer que não sou a única?! Sinceramente o Senhor me chocou agora Sr. Darcy... Temo que esteja em perigo. - Lizzy entrou na brincadeira.

- Eu até gostaria, mas meus olhos, meus lábios, meu corpo, meu coração e minha alma, estão presos a uma única mulher, uma única dona.

Lizzy ficou feliz com as palavras ditas por ele, mas não deixou de corar e baixar a cabeça. Darcy levantou o rosto dela em seguida a beijou mais uma vez, matando toda a saudade que sentiam um do outro...

Eles estavam sentados em uma grande pedra que ficava perto da queda d’água. Darcy encostado na pedra, Lizzy por sua vez, recostada no peito dele. Estavam curtindo aquele momento e apreciando aquele belo cenário. Enquanto Lizzy brincava com a água, Darcy acariciava seus cabelos. Ele estava feliz, mas precisava falar toda a angustia que invadia seu peito.

- Sabe que não poderemos manter isso por muito tempo, não sabe?

- Eu sei...

- Não me sinto bem Elizabeth, parece que sou um criminoso, além de colocá-la em uma situação embaraçosa.

- Sabe o que mais temo?... Perdermos isto, essa paz...

- Sabemos que não será fácil, mas será preciso. Meu amor é forte o suficiente para enfrentar tudo, juntos nós somos fortes... O Sr. Albuquerque é um homem sensato e bondoso, sinto que ele a ama, talvez, ele possa nos entender.

- Sei que meu pai não se oporá, ele gosta de você... Mas minha mãe...

- Eu adoraria se tivéssemos a benção de sua mãe, mas sei que isso não será nada fácil... Agora não tenho posses ou nome, mas acredite meu amor, tenho força para trabalhar duro. Tenho umas economias que meu pai começou a juntar para mim quando eu ainda era criança, e com trabalho consegui juntar mais...

Darcy gentilmente a fez virar para ele, segurando firme em sua nuca e olhando fixamente naqueles grandes olhos negros, continuou...

- Meu padrinho, o pai de Carlos, me prometeu um pequeno pedaço de terra quando eu resolvesse me casar, não é nada comparado a esta fazenda ou a dele, mas poderemos viver tranqüilos... Não posso te dar todo o conforto que você tem hoje em Pinhal, mas posso ao menos te dar um lar.

- Não importa onde eu esteja meu amor. O que realmente importa é estar ao seu lado... Só quero que me prometa uma coisa.

- O que você quiser meu amor.

- Promete que não vai rir?

- Prometo.

- Desde menina, eu sempre sonhei com uma casinha confortável, em uma pequena fazenda, cheio de árvores frutíferas ao redor. Ah! Ela tem que ser branca com detalhes em azul, e um balanço em baixo de uma grande árvore sombrosa.

Darcy riu da forma como os olhos brilharam ao falar. Lizzy fingindo está aborrecida, perguntou:

- Posso saber por que você está rindo? Prometeu que não iria rir de mim!

- Eu fiquei imaginando você na nossa casa, me esperando chegar do trabalho... Desculpe amor, só sonhei um pouco... Mas é essa casa, do jeito que você sempre sonhou, é essa casa que vamos viver o resto de nossas vidas... Eu juro.

Lizzy sorriu e mais uma vez ofereceu os seus lábios, Darcy a beijou, e assim ficaram por mais um tempo, até terem que se separarem mais uma vez...