Imprimir

Sabor do Amor - Capítulo 16

Escrito por Fátima Ligado . Publicado em Sabor do Amor

Capítulo XVI


Três dias haviam se passado desde que Darcy começara a recobrar a consciência, nos dois primeiros dias, ele ainda estava confuso e imerso em seu trauma, falava coisas desconexas, e tinha seu corpo tomado pela febre, que graças aos esforços do Dr. Otávio e sua esposa Alexandra, diminuía a olhos vistos.

Já era o fim da tarde, os últimos raios de sol se esvaiam no horizonte. Alexandra tinha ido ao quarto para medir a temperatura do paciente, e para sua grande surpresa, ele lentamente abriu os olhos...

Darcy sentia sua garganta queimar, como se o fogo a consumisse, cada movimento de sua respiração era como se seus pulmões estivessem sendo dilacerados. Sentia um grande peso sobre seu ombro esquerdo, e seus olhos tomados pela escuridão.

A imagem de Lizzy assustada e desesperada chamando seu nome se misturava com a clara lembrança das duas vezes que se entregaram a paixão, aqueles olhos negros que tanto o inebriavam, brilhando em contraste com sua face completamente ruborizada. Ele precisa voltar, precisava voltar por ela, por Elizabeth. De repente um fio de luz intenso surgiu em meio à escuridão e ele decidiu se agarrar com toda a sua força em direção àquela luz...

Com muito esforço, foi abrindo seus olhos devagar, a claridade machucava devido a tanto tempo na escuridão. Com os olhos entreabertos e com dificuldade conseguiu avistar uma mulher ao seu lado, tentou lembrar do seu rosto, mas sua mente estava confusa, nada fazia sentido agora. Aquela estranha o olhava com uma alegria em seu olhar, na verdade, mas parecia alívio e com um grande sorriso nos lábios perguntou com sua voz macia:

- Sente-se bem? Consegue me ouvir, me entender?

Darcy ficou assustado e confuso, não conseguia encontrar as palavras. Com olhos em constantes movimentos estudou o confortável quarto que se encontrava, mas tudo era muito confuso. Buscou em sua mente algo que o fizesse lembrar de por que estava ali, então às imagens surgiram como um carrossel, as confissões de Lizzy sobre a farsa de seu casamento, a entrega e paixão que se seguiu, a chegada inesperada do Sr. Braga, a luta, o tapa, o rosto vermelho de Elizabeth diante de seu noivo... O tiro... Um grito de desespero subiu por sua garganta...

- Não! Lizzy!   

Alexandra se assustou com aquela reação e em um impulso já estava ao lado dele, abraçando-o de forma confortadora na tentativa de acalmar a agitação do paciente.

- Fique calmo... Está tudo bem agora... Você está seguro conosco... Por favor, acalme-se...

A voz consoladora e aveludada de Alexandra teve um efeito positivo sobre Darcy, ele sentiu que poderia confiar nela, que ele estava seguro. Sua respiração aos poucos foi ficando uniforme, as batidas aceleradas de seu coração foram voltando ao compasso normal. Até que finalmente ele conseguiu se acalmar, a mulher pareceu perceber que agora estava tudo bem, pois ela o soltou e com seu sorriso largo e acolhedor falou em um tom de voz mais baixo e cuidadoso que antes.

- Fique calmo agora... Eu vou chamar meu esposo que é médico e está cuidando de você, prometo que voltarei logo, mas você tem que me prometer que ficará calmo está bem?

Darcy assentiu com a cabeça, pois apesar da paz que sentia tudo ainda era muito confuso e as palavras pareciam lhe faltar. Acompanhou com olhos receosos a saída daquela mulher do quarto, então deixou a dor e tristeza de suas lembranças saírem através de lágrimas que banhavam seu rosto debilitado...

********************************_____*********************************

Carlos jogou seu corpo cansado em uma poltrona que ficava próxima à janela da grande sala de sua casa, Richard entrou logo em seguida, o desanimo e tristeza eram visíveis em seus rostos esgotados. Georgiana e Jane ao perceberem a chegada dos dois foram até a sala e diante da expressão vazia e cansada deles, entenderam que não tiveram sucesso em sua busca.

Jane se aproximou do esposo e com toda a tranqüilidade a amabilidade que lhe eram característicos, perguntou com calma:

- Então Carlos, alguma notícia do Sr. Darcy?

- Nada, absolutamente nada Jane, parece que ele sumiu e pior sem deixar rastro. – [i] Respondeu com pesar dando um longo suspiro de impotência em seguida. [/i]

- Acho que deveríamos falar com as autoridades da região Sr. Matias. Meu primo deve ser encontrado, não podemos mais esperar. - [i] Richard falou com uma pontada de desespero em sua voz. [/i]

- Concordo com o Sr. Darcy meu irmão. Já estamos procurando por três dias, e não há nenhum sinal de onde ele pode estar, ou do que pode ter acontecido. – [i] Georgiana reiterou. [/i]

- Eu sei disso, a ultima pista que tivemos me deu esperanças, mas não encontramos nada... [i] – Falou derrotado. [/i] - Vocês têm toda a razão, hoje mesmo vamos até a delegacia e daremos queixa do desaparecimento dele.

*********************************____*********************************

Darcy observava com atenção o cuidado e carinho que aquele casal cuidava de seus ferimentos. O Dr. Otávio agora terminava de examiná-lo, e quando finalmente acabou sorriu abertamente enquanto dava as boas novas.

- O pior já passou meu jovem, você ficará bem agora... Como se sente?

- Estou bem eu acho... Meu ombro dói um pouco e quando respiro também.

- Isso é perfeitamente normal. A dor do ombro foi devido ao tiro que levou, deve agradecer que não atingiu seu coração. E quanto à dor nos pulmões e garganta foi devido à quantidade de água que você engoliu quando foi ferido... Em alguns dias esse desconforto diminuirá, o que importa agora é que você acordou e logo se recuperará.

- Eu nem sei como agradecer tudo o que vocês fizeram por mim, salvaram minha vida, serei eternamente grato.

- Não se preocupe com isso agora. Você tem que descansar e se recuperar o mais rápido possível.

- Doutor?

- Sim?

- Alguém sabe que estou em sua casa? Que sobrevivi?

- Não... Quando o encontramos no rio, nossa primeira reação foi salvar sua vida. Depois quando cuidávamos de você vi que alguns capangas o procuravam, então eu e minha esposa preferimos não contar a ninguém que você estava conosco, pois não sabíamos quem o estava procurando, mas desconfiávamos que se tratasse da mesma pessoa que o havia ferido.

- Aquele desgraçado!

- Não fale sobe isso agora... Não fará bem.

- Quanto tempo eu fiquei desacordado?

- Mais de uma semana, quase oito dias.

- Lizzy! – [i] Darcy falou de uma vez, após algum tempo meditando sobre o tempo que passou desacordado. [/i]

- Ela deve ser muito importante para você, chamou por ela durante dias.

- Onde ela está? Vocês a encontraram também?

- Ela estava contigo quando levastes o tiro? Ela foi ferida?

- Não... Quer dizer, ele não a machucaria... Preciso ter notícias dela, saber o que aconteceu. – [i] A agitação começava a dominá-lo outra vez. [/i]
 
- Sinceramente, não conheço tal moça, mas se você quiser posso ir até a cidade ou onde ela mora.

- Dr. Otávio, sei que já trouxe muitos problemas e inconveniências para sua família, mas me faria um favor?

- Claro Sr. Darcy, o que quiser.   

- Preciso que procure alguém para mim, é a única pessoa em que posso confiar no momento...

- Diga-me de quem se trata e irei agora mesmo.

*****************************************_______**********************

Carlos e Richard caminhavam pela rua principal da cidade frustrados. As notícias que obtiveram na delegacia não eram boas, o delegado Silvestre havia partido para a Capital a fim de resolver assuntos urgentes, e ficaria fora por dois dias. Já estavam voltando para o carro, quando foram abordados por um homem robusto, cabelos desalinhados e aspecto desleixado...

João Demétrio era herdeiro de uma das grandes fazendas cafeeiras da região. Herdou uma grande quantia, mas perdera tudo no jogo e com mulheres, agora vivia de pequenos golpes de sorte, quando por diversas vezes, ganhava dinheiro ou documentos importantes de jogadores compulsivos e sem sorte alguma.

- Bom dia, Cavalheiros! – [i] Cumprimentou-os com sua risada grotesca. [/i]

- Como vai, Demétrio? – [i] Carlos retribuiu o cumprimento, Richard apenas sorriu. [/i]

- Oh! Estou bem, não tão bem como o senhor, mas vou indo... Sr. Matias, já estava mesmo a sua procura, tenho algo comigo que temo ser de seu interesse.

- Perdoe-me Demétrio, mas não vejo nada que tenha que possa me interessar. – [i] Carlos falou decididamente, mas de forma educada, pois conhecia a péssima fama daquele homem. [/i]

- É realmente uma pena que pense desta forma Sr. Matias... Mas pensei que os títulos das dívidas de seu agora sogro, fossem te interessar... [i] Uma pontada de cinismo pôde ser sentida em suas palavras. [/i]

- Como disse? – [i] Carlos perguntou surpreso. [/i]

- Sr. Matias, eu poderia facilmente ganhar muito dinheiro com esses títulos se oferecesse a outra pessoa, mas... Bem a educação que minha pobre mãe me deu, me fez procurá-lo antes de qualquer outra pessoa, ah! Estou disposto a negociar, é claro.

Carlos foi pego completamente de surpresa, todas aquelas informações eram demasiadamente confusas, mas percebeu que não se tratava de um blefe de Demétrio, então decidiu convidá-lo para uma bebida, enquanto averiguava melhor a situação.

Já no pequeno estabelecimento, em um lugar reservado. Carlos pôde ver os títulos, então uma grande surpresa o encobriu, o montante da dívida era de um valor alto, então presumiu que a situação de seu sogro era devastadora, ele estava prestes a perder tudo... Pediu para que Demétrio revelasse como teve acesso àqueles títulos e diante da narrativa do homem, começou a juntar as peças deste quebra-cabeça em sua mente. Era com isso que o Sr. Braga conseguira seu noivado com Elizabeth Albuquerque, as suspeitas se formando em sua cabeça, ficaram mais claras diante de tudo o que ouvia atentamente.

Aproveitando um momento em que Demétrio foi ao banheiro, Carlos passou a explicar rapidamente tudo a Richard, que estava completamente alheio a tudo que estava ouvindo...

- Então, o que pretendes fazer Carlos? – [i] Richard perguntou. [/i]

- Não sei Richard, a soma dos títulos possui um valor alto e no momento não disponho desta quantia... Estou de mãos atadas.

- Então pelo que entendi, estas dívidas causaram todo o sofrimento de meu primo e desta Srta. Elizabeth.

- Presumo que sim... Oh! Pobre Darcy achou que foi rejeitado, será que ele descobriu tudo? Será que esse foi o motivo de seu desaparecimento?... Claro, o verme do Sr. Braga deve está envolvido com o sumiço do meu amigo. [i] – Uma onda de fúria estampou os belos olhos verdes de Carlos. [/i]

- Acalme-se Carlos, não podemos nos precipitar não é?... Faremos o seguinte, vamos comprar estes títulos deste homem...

- Mas Richard, é um valor alto e eu...

- Não se preocupe com isto Carlos... Não agora, mas até amanhã posso providenciar este valor.

- Mas como? E por que você faria isso?

- Carlos conhece os motivos que me trouxeram aqui, e sabes muito bem que posso pagar esta dívida, além disso, sei que meu primo está vivo, posso sentir, e sei que de alguma forma isso o ajudará futuramente. –[i] Diante do silêncio abismado de Carlos, ele continuou. [/i]

- Em seguida vamos investigar esse tal Sr. Braga e descobrirmos se ele está envolvido no desaparecimento do meu primo, está bem? Confie em mim, tudo dará certo.

Carlos emocionado consentiu com a cabeça no exato momento que Demétrio voltava para a mesa. A negociação foi mais fácil do que eles pensaram, Demétrio estava desesperado, com dívidas urgentes a serem pagas, então ficou acertado que no dia seguinte pela manhã o pagamento em troca das dívidas seria efetuado.

Depois de tudo acertado, Carlos e Richard se dirigiam ao carro, pois iriam à casa do Sr. Braga investigar sobre o paradeiro de Darcy. Richard já estava dentro do veículo, Carlos se preparava para entrar, quando alguém tocou seu braço gentilmente, enquanto falava com calma.

- Sr. Matias, permita me apresentar... Sou o Dr. Otávio Matias e trago notícias importantes de alguém que o senhor conhece...

*************************************______***************************

Jorge Braga caminhava a passos lentos até o escritório do avô, de certa forma ele já sabia a resposta para o seu pedido, mas estava tão desesperado que tinha que tentar até o fim... Abriu a porta devagar e com dificuldade sentou na cadeira que ficava de frente a velha mesa. Olhando de maneira desconfiada para seu avô, perguntou:

- Então vovô, vai me dar o dinheiro?

- Você não pode está falando sério Jorge. Acaso acha que eu ando rasgando dinheiro por aí? – [i] O homem esbravejou. [i]

- Vovô pelo amor de Deus, é uma emergência, eu preciso deste dinheiro.

- Jorge, eu já financiei muitas de suas loucuras e o que tive em troca? Só decepções. Sabe sua avó tinha razão eu o estraguei com meus mimos, e olha no que você se transformou?

- O senhor sabe que logo recuperarei essa quantia quando me casar com a Srta. Albuquerque, e lhe devolverei tudo, eu prometo.

- Você acredita mesmo no que aquele louco do seu amigo lhe disse sobre Pinhal? Não seja ridículo Jorge, ninguém nunca conseguiu provar esse absurdo.

- Eu tenho certeza que é verdade, tenho os estudos que comprovam a existência de ouro naquelas terras... Vovô, por favor, empreste-me o dinheiro...

- Tem idéia do valor absurdo que está me pedindo?... Você é um inconseqüente e insano meu neto. E não adianta mais pedir, a minha resposta é definitiva, não vou lhe dar este dinheiro, a situação do banco não é bom devido à crise do café, e do meu patrimônio não tiro nem mais um centavo para acobertar suas maluquices e estamos entendidos...
 
- Mas, vovô...

- Saia do meu escritório agora Jorge! 

O forte grito do Sr. Farias fez com que o Sr. Braga entendesse que a decisão estava tomada, e ele não voltaria atrás... Saiu do escritório do avô desesperado, estava perdido, tudo... Mas ele precisava se controlar, seus planos estavam caminhando apesar deste grande problema. Seu casamento estava próximo e quando colocasse as mãos em Pinhal, todos os seus problemas estariam resolvidos, tudo o que precisava fazer agora, era enganar Elizabeth até depois da cerimônia.

*******************************________*******************************

Otávio conduziu Carlos até o grande quarto do andar superior da propriedade. A cada passo que ele dava uma onda de alívio o invadia... Finalmente quando a porta foi aberta, e ele viu seu amigo sentado em uma poltrona com seu ombro enfaixado e aparência debilitada, caminhou mais rápido até se colocar diante dele.

- Darcy meu irmão... Graças aos céus por você está bem. – [i] Falou visivelmente emocionado. [/i]

- Estou muito feliz por vê-lo Carlos... Achei que tudo havia acabado para mim, mas graças a esta família, estou aqui, vivo.

- O que aconteceu Darcy? Quem o feriu? Estávamos tão aflitos sem notícias... Por que não me avisaram antes?...

- Eu sei que tem muitas perguntas Sr. Matias, mas acho que o Sr. Darcy não pode se esforçar muito, seu estado ainda requer alguns cuidados. – [i] Alertou o Dr. Otávio. [/i]

- Eu contarei tudo meu amigo, apenas me ouça com atenção...

- Eu os deixarei a sós, mas, por favor, Sr. Darcy, sem excessos.

Dizendo isso, o Dr. Otávio se retirou, e quando os dois estavam sozinhos, com calma, Darcy passou a relatar tudo o que havia acontecido, desde o dia em que descobriu a chantagem do Sr. Braga, até aquele dia.

Carlos ouvia tudo atentamente e novamente a onda de fúria cintilou seus olhos. Darcy também perguntou sobre Lizzy, o que havia acontecido com ela, e quando foi informado que o casamento se realizaria em menos de quinze dias, sentiu uma grande dor em seu peito. Ele precisava sair daquela cama e não permitir que aquele casamento se realizasse, foi interrompido de seus pensamentos por Carlos.

- Então Darcy, o que pretende fazer?... Temos que denunciar aquele calhorda imediatamente.

- Eu sei disso Carlos, mas ele ainda possui as dívidas do Sr. Albuquerque e se interferirmos agora, todo o esforço e sofrimento de Elizabeth terão sido em vão.

- Quanto a isso, eu tenho uma boa notícia em meio a tanta tragédia.

Diante da expressão curiosa do amigo, ele passou a contar todo o ocorrido naquela manhã, a conversa com João Demétrio, a compra dos títulos, tudo. Darcy não conseguiu esconder sua perplexidade.

- Mas Carlos de onde virá tanto dinheiro?... Mesmo você que tem uma boa situação, jamais conseguiria levantar tal valor até amanhã pela manhã, isso é loucura!

- Darcy o dinheiro não será problema... –[i] Carlos hesitou um pouco, então prosseguiu. [/i] Tem alguém lá fora que quer muito te conhecer, posso trazê-lo aqui para que ele mesmo te explique tudo?

- Cla... Claro... 

Carlos saiu do quarto, voltando em seguida acompanhado por um homem. Darcy o observou e então constatou que realmente não o conhecia, e por seus traços e aparência, não era brasileiro. Viu um pouco de si mesmo naquele estranho, mas isso era uma loucura.

Richard se aproximou devagar do primo, e com seu sorriso largo e gentil, o cumprimentou.

- Como vai meu primo? Sou Richard Darcy...

- Mas como?- [i] Darcy perguntou perplexo. [/i]

- É uma longa história, e se você puder me ouvir, ficarei feliz em te contar.

Darcy estava confuso, durante toda sua vida nunca soube que possuía família, muito menos um primo e ainda por cima estrangeiro, buscando se refazer do susto inicial, atentamente passou a ouvir com interesse o relato daquele que se dizia seu primo.

Richard passou a contar toda a história...

[i] Seu pai e o pai de Darcy eram os únicos filhos de uma tradicional e rica família da Inglaterra. Os Darcys eram a elite da época, a família mais respeitada e admirada. Sua propriedade de campo, Pemberley, era fascinante e chamava atenção de todos, por seu tamanho e lucro.

Após a morte da Sra. Darcy, mãe dos meninos, na época com dezesseis (o pai de Richard) e vinte anos (o pai de Darcy), sofreram muito, assim como seu pai. A família que foi sinônimo de união e felicidade, carregaram seu luto por muitos meses, mas antes de completar dois anos da morte de sua esposa, o pai dos rapazes decidiu se casar novamente, o que causou um grande espanto na sociedade, porém, os mais afetados foram seus filhos.

Charles, o mais jovem tinha a doçura da mãe e mesmo contrariado, aceitou a decisão do pai, já o mais velho era genioso como seu pai, e isso foi causa de muitas brigas e ofensas. Em uma destas brigas, o filho mais velho deixou claro para o pai que se este se casasse novamente, ele sairia de casa e sumiria no mundo, pois jamais aceitaria outra mulher ocupando o lugar de sua mãe. O pai deles ignorou o aviso, então, meses depois, após a cerimônia de casamento o herdeiro dos Darcys, foi embora, não deixando paradeiro e nunca mais deu notícias... [/i]

- Darcy, você está bem? – [i] Carlos perguntou preocupado diante da expressão do amigo. [/i]

- Eu estou bem, eu acho... É que confesso que estou muito surpreso com tudo isso, meu pai nunca me contou nada.

- eu imaginei que você não soubesse de nada meu primo... Mas ao contrário do meu tio, meu pai sempre o procurou apesar dos protestos de nosso avô que não queria ter notícias do filho desaparecido.

- Deus! É tudo muito confuso... [i] – Darcy conseguiu falar. [/i]

- Eu sei... Durante anos meu pai se dedicou em busca de pistas que o levasse ao paradeiro de seu pai... Quando finalmente tivemos uma pista concreta de que ele havia vindo ao Brasil para trabalhar nos cafezais deste país, uma terrível doença acometeu meu pai, e então ele não pôde vir procurá-lo... [i] Richard falou com pesar na voz. [/i] 

- Eu sinto muito...

- Tudo bem primo... Depois da morte dele, eu e minha irmã éramos tão crianças, mas como eu sempre acompanhei a angustia de meu pai, resolvi que quando crescesse iria realizar sua ultima vontade, por isso estou aqui contigo...

- Ultima vontade? – [i] Darcy perguntou confuso. [/i]

- Sim. Meu pai sempre deixou a metade de toda a herança da família a quem era de direito, ao seu pai, mas como infelizmente eu não o encontrei com vida, tudo passará para você, o único herdeiro de meu tio.

- Mas...

- É isso mesmo meu amigo. Você agora é um homem muito rico. – [i] Carlos falou com seu largo sorriso, divertindo-se com a cara de susto do amigo. [/i]

Neste momento a porta do quarto foi aberta, e o Dr. Otávio entrou seguindo por sua esposa, Alexandra, com uma bandeja de remédios.

- Senhores, eu acho que o Sr. Darcy teve muitas emoções por hoje e devemos deixá-lo descansar um pouco. Ele ainda não está fora de perigo, apesar de sua grande melhora.

- Mas Dr. Não posso levá-lo para casa? – [i] Carlos quis saber. [/i]

- Remover o Sr. Darcy agora, só complicaria mais seu estado debilitado.

- Carlos? – [i] Darcy chamou decidido. – [/i] Se esta tão amável família permitir, quero permanecer aqui por alguns dias mais, pois não quero que ninguém saiba que estou vivo.

- O que? Acaso ficou maluco Darcy?

- Carlos confie em mim, não posso deixar que aquele canalha do Sr. Braga pague tão facilmente tudo o que me fez e para minha Lizzy também... Tenho um plano e precisarei da ajuda de todos aqui...

Todos o olharam curiosos e receosos também, mas diante da firmeza de sua voz e do seu olhar, sabiam que ninguém poderia persuadi-lo naquele momento. Então nada mais puderam fazer a não ser ouvi-lo...

********************************___**********************************
Os dias se passaram, Darcy se recuperava lentamente, o ferimento ainda corria sérios riscos de infeccionar, então por precaução todo o esforço foi evitado. Carlos e Richard o visitavam constantemente, apesar de serem contra o plano dele, o achavam arriscado, mas estavam do seu lado em qualquer que fosse a ocasião.

Fazia uma manhã ensolarada, e nas primeiras horas da manhã Carlos, atendendo ao chamado inesperado de seu amigo, já estava na casa do Dr. Otávio.

- Carlos que bom que você chegou, já estava aflito.

- Desculpe Darcy, mas está cada vez mais difícil esconder de Jane o que está acontecendo... Darcy se não fosse por nossa amizade, juro que não conseguiria guardar este segredo dela.

- Entendo e agradeço seu sacrifício meu irmão, eu prometo que isso logo acabará... Notícias da Capital?

- Ainda não, quer dizer, nada concreto, mas ele teve uma boa pista ontem e está muito animado, logo teremos boas notícias.

- Assim espero Carlos... Quero que ele pague na mesma moeda.

- Darcy, esqueça isso, não há nenhuma razão meu amigo... Agora você é mais rico que qualquer um nesta região, é tudo tão simples de resolver, me ouça.

- Não posso Carlos... Não é por mim e você bem sabe, jamais esquecerei o rosto desesperado e sofrido dela, jamais...

- Por falar nisso, você sabe que amanhã é...

- É eu sei... – [i] Darcy disse apertando as mãos em seus punhos. [/i] – Por isso te chamei tão cedo, chegou à hora meu amigo, amanhã colocarei meu plano em ação.

- Mas Darcy, amanhã é o dia do...

- Não há dia melhor meu amigo, quero vê-lo humilhado e pagando por todos os seus pecados... E como ela está Carlos? – [i] Perguntou com a voz chorosa e olhos suplicantes. [/i]

- Como você acha que ela está? Sofrendo muito meu amigo, ela acha que você está morto!

- É eu sei, mas ela precisava não saber que estou vivo, se não meu plano não funcionaria Carlos... Preciso que você me faça um grande favor. Quero que você deixe este bilhete no quarto dela, em algum lugar que seja bem visível.

- Darcy, tem idéia do que está me pedindo?

- Eu sei, e mais uma vez me desculpo por isso, mas você é a única pessoa que tem livre acesso a casa grande, por favor, eu imploro.

- É claro que eu vou te ajudar Darcy. O que é mais essa loucura diante de tantas que venho fazendo por você meu irmão?

- Obrigado Carlos, jamais poderei pagar a você tudo o que tem feito por mim.

- Imagine nada que um irmão não faria.

- É... Um irmão.

O abraço que se seguiu foi emocionado e verdadeiro. A relação entre eles ia além da amizade, era uma relação de irmãos, que se amavam e se admiravam.

*******************************____***********************************

Lizzy acordou mais indisposta que o normal, com muito custo conseguia disfarças os enjôos típicos do começo da gravidez, e a sua silhueta dava mais trabalho, mas ela tinha que ser forte afinal no dia seguinte tudo acabaria, estaria casada e no conforto de sua nova casa não mais precisaria esconder a barriga, ao menos até que a noticia de sua gravidez pudesse ser divulgada.

Decidiu descer principalmente depois que fora avisada da visita de seu cunhado e como seus pais não estavam se viu obrigada a descer. A conversa de Carlos era sempre muito agradável. Mais uma vez ele explicou que o inicio de gravidez de Jane estava meio conturbado, com fortes enjôos e pequenos sangramentos, mais uma vez justificando a falta de visitas dela a sua família.

Após alguns minutos de conversa, aproveitando que Lizzy foi até a cozinha, Carlos subiu rapidamente até seu quarto e colocou o bilhete em sua penteadeira, de forma que ela visse de imediato. Respirou aliviado quando ao voltar ela ainda estava na cozinha... Após a volta de Lizzy para a sala, Carlos ficou apenas alguns minutos então partiu.

Lizzy se sentia cansada e acima de tudo triste, nada poderia ser feito, seu triste destino estava traçado e agora nada mais restava, a não ser enfrentar tudo de cabeça erguida. Resolveu subir para seu quarto, decidiu que aquele seria seu ultimo choro, precisava reagir, por seu filho, pelo fruto do seu amor com Darcy, e tinha a certeza que onde ele estivesse, estava infeliz de vê-la sofrendo daquele jeito.

Ao entrar em seu quarto dirigiu-se até a pequena penteadeira, e de frente ao grande espelho esperou as lágrimas caírem, enquanto via sua imagem refletida, observou um papel dobrado embaixo de seu porta-jóias. Completamente curiosa, começou a abrir o papel e ao ver a letra sentiu seu sangue congelar, seu coração passou a bater em um ritmo descompassado, precisou de muito esforço para se acalmar, controlando sua respiração e o tremor de suas mãos, começou a ler em voz alta:

[b] Não Chores [/b]

[i] Por que choras
Ouço sim
Mata minha angustia
Não chore não
Estou aqui
Teu chorar toca minha alma
Faz-me triste também
Fere meu coração
Minha alma
Já não consigo respirar
Se não puder te ajudar
Minha alma esta minada
Meu gosto doce é amargo
Viva e sorria
Sou teu coração
Estarei sempre ai [/i]

[b]Marcos Pestana[/b]