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Corazon Partío - Capítulo I

Escrito por MorenA Ligado . Publicado em Corazon Partío - A verdade sobre Caroline

Caroline não era dada a gastar seu tempo com exaustivas leituras, mas falava mais de uma língua fluentemente, entendia o suficiente de música, dança e artes para palestrar com facilidade e executava peças clássicas e modernas ao piano com relativa facilidade.

Seu andar gracioso, como se flutuasse suspensa, povoava a imaginação dos homens por onde passava. Tamanhas qualidades aliadas a sua graça e formosura fariam a maioria das moças da sociedade se sentirem satisfeitas, mas Miss Bingley possuía encantos que iam muito além.

No entanto, Miss Caroline tratava seus admiradores apenas com educação, sem lhes dispensar maiores atenções, porque um único homem fazia Caroline dedicar seus melhores sorrisos, vestir os mais delicados vestidos, usar suas fragrâncias francesas prediletas e, principalmente, devanear sobre um futuro ao seu lado.

Tal homem era, assim como ela, inegavelmente belo, de porte altivo, pele branca, cabelos intensamente negros e profundos olhos azuis. Tratava-se de Fitzwilliam Darcy, o senhor de Pemberley, a maior e mais importante propriedade do Derbyshire, e melhor amigo de seu irmão, Mr. Bingley.

Os amigos se conheciam há muito tempo, e Caroline se encantara por Darcy desde a primeira vez que o viu. Tentara de todas as maneiras quebrar a frieza com que ele tratava a todos, e aos poucos o percebia mais flexível, embora negasse notar que as atenções despendidas a ela não se diferenciava do modo que ele tratava qualquer outra moça solteira. Tinha esperanças de que seria a opção mais segura, caso Darcy resolvesse se casar, e devido a isso chegou a recusar uma proposta que recebeu de outro rapaz.

Suas esperanças foram dizimadas após uma temporada no Hertfordshire, onde o irmão havia alugado um excelente casarão para a família. Mr. Darcy, que os havia acompanhado, encantou-se por uma moça da região, que, na opinião de Caroline era deselegante, ousada demais, e com uma família completamente sem modos. Não fosse o bastante seu irmão caiu de amores pela irmã mais velha de sua rival, obrigando Miss Bingley a suportar toda aquela aura de amor ao seu lado com visível desgosto.

Os meses de noivado dos amigos com as irmãs Bennet foram os mais fáceis de suportar, uma vez que Caroline estava freqüentando a season com sua irmã mais velha e seu esposo. Os vestidos, as festas e as danças ajudavam a tirar de sua cabeça, embora não totalmente, que o homem que ela amava ia se casar em pouco tempo, e não seria com ela. Rezava todas as noites para que Darcy se arrependesse daquele noivado, ou melhor, para que ele enxergasse o tipo de pessoas as quais estava prestes a se tornar parente.

Mas o dia do casamento chegou, e Caroline teve que ver com seus próprios olhos outra mulher ocupando o lugar que sempre sonhara, ao lado daquele homem no altar. As poucas lágrimas que derramara, porque conseguira segurar a grande maioria, foram vistas pelos convidados que ela tanto desprezava como emoção pelo casamento do irmão, que se realizava concomitantemente.

Os casais seguiram para a lua de mel e Caroline permaneceu com os Hurst, até que Charles e Jane voltassem da viagem. Louisa sabia das esperanças que sua irmã nutria por Mr. Darcy, mas a vida era daquela forma, ela já estava conformada com a sina das mulheres, que só podiam esperar que fossem escolhidas por algum homem decente e respeitável, e ela torcia para que o mesmo logo acontecesse com Caroline, nem que o noivo fosse como o seu marido, alguém que não lhe despertava grandes sentimentos. O pior era ficar sozinha, isso não poderia acontecer com sua irmã, tornar-se assunto de falatório por ser uma solteirona.

 

Nos momentos em que se as famílias se encontravam, Miss Bingley não perdeu as oportunidades de alfinetar a nova Mrs. Darcy, ressaltando suas qualidades diante da mulher que ousou invadir o seu caminho. Inicialmente, Elizabeth Darcy respondia a altura, mas as trocas de carinhos constantes entre ela e seu esposo e o sorriso de felicidade fixos em seus rostos durante todo o tempo fizeram com que Caroline perdesse a motivação para envenenar o casal.

Tanta alegria e felicidade, que era obrigada a presenciar devido à amizade de seu irmão e o parentesco com o novo casal, a machucava, embora ela sempre se mostrasse altiva e superior. Pensou em residir com sua irmã mais velha, Mrs. Hurst, mas a hipótese foi logo rejeitada por seu irmão, que acreditava ser o responsável por Caroline até que essa estivesse comprometida com um bom partido.

Quando soube da notícia que os Darcy esperavam o primeiro herdeiro sentira uma dor tão forte que pensou que não fosse suportar. Passou dias trancada no quarto, sob a desculpa de um resfriado, para que suas lágrimas e sua tristeza não viessem a público.

Elizabeth Darcy estava grávida, esperava um filho de Fitzwilliam, o filho que ela sempre sonhou dar para ele. Estava se sentindo tão perdida, tão desolada, tão infeliz que mesmo quando enfim saíra do quarto não conseguia disfarçar seu desânimo.

Pensando no bem estar da cunhada, Jane Bingley, com anuência do esposo abria a residência para as melhores famílias da região onde viviam – Peterbrough - para que Caroline estivesse sempre em evidência, e a chance de que ela também arranjasse um bom casamento fossem maiores. Mas a cunhada não ajudava. Permanecia séria e isolada a maior parte do tempo, sem mais se importar com os comentários que já começavam a circular pela sociedade.

Diziam que Miss Bingley estava daquela maneira por ter sido proibida pela família de casar-se com um rapaz sem posses por quem estava apaixonada. Já outros diziam que estivera noiva de um rico herdeiro irlandês, mas que este a havia trocado por uma prima de maior dote. Alguns ainda cogitavam a possibilidade da tristeza da moça ser devido ao casamento de Mr. Darcy, mas poucos realmente levavam tais boatos a sério devido a forma polida com que ela agora tratava o casal.

E Caroline agia exatamente dessa forma, era orgulhosa demais para admitir a Elizabeth que ainda se incomodava com a batalha perdida, mesmo que para isso sentisse seu coração sendo rasgado a cada frase que era obrigada a trocar com ela, e pior presenciar sua felicidade.

Como tentativa desesperada de tirar sua irmã daquela situação deplorável Charles e Jane decidiram realizar uma viagem pela Europa continental, talvez saindo de sua zona de conforto a irmã recuperasse sua antiga disposição.

- Eu não vou, Charles! Não adianta! Não darei um passo desta casa! - Caroline bradava próximo a lareira, impaciente frente à tamanha insistência.

- Você não tem escolha, Caroline. Eu e Jane planejamos esta viagem com todo esmero, seria falta de consideração sua recusar-se a partir conosco. – Charles parou de andar de um lado para o outro e aproximou-se da irmã enquanto Jane ouvia calada do delicado divã.

- Você não entende? Eu sou uma intrusa na vida de vocês! Já vivo nesta casa atrapalhando-os o tempo todo, e ainda querem que eu participe desta viagem? Você não pensa como eu me sinto mal em ter me tornado um estorvo?

- Não fale assim, minha irmã! – Jane foi forçada a se pronunciar. Não via Caroline desta forma – Você não nos atrapalha e nem é um estorvo em nossa vida. Esta viagem será boa para nós todos. Imagine o que será de mim sem você por perto na hora dos concertos e bailes? Como saberei se estarei bem vestida para os eventos?

- Você jamais me diria se eu os atrapalhasse, Jane.

- Está me acusando de faltar com a verdade? – Jane brincou roubando um sorriso fraco da cunhada.

- Você sabe que não. E sabe também que não precisa de mim para se arrumar.

- E para me acompanhar nas modistas francesas? Você sabe tão bem quanto eu o quanto esses passeios são tediosos para o seu irmão.

Jane começara a apelar, mesmo Caroline não dando mais tanta importância aos vestidos. Charles estava gostando do rumo da conversa, e decidira ficar calado. Deixaria as coisas na mão de Jane e torceria para dar certo.

- Não faltarão senhoras para fazer amizade nos vapores e nos trens, Jane.

- Mas nenhuma delas é como você. – Jane se aproximou e tocou a mão da cunhada – Por favor?

- Não serei uma boa companhia, você sabe disso.

- Por isso mesmo você precisa viajar. Ver novas paragens, conhecer novas pessoas, lhe prometo que voltará revigorada.

Caroline começava a cogitar a possibilidade. Sabia que não esqueceria Mr. Darcy por causa de paisagens, mas seria bom mudar de ares.

- E então? – um inseguro Charles resolveu indagar.

- Pensarei nisso. – Caroline respondeu e ele abriu um sorriso vencedor – Eu disse apenas que pensaria, Charles! – lembrou-o antes de fazer uma reverência e retirar-se da sala.

Sentou-se num dos bancos delicadamente desenhados do jardim para pensar, mas não demorou muito nesta tarefa. Levantou-se quase correndo e foi até seus aposentos solicitando à ama que preparasse sua bagagem para uma longa viagem pela Europa com sua família. Enquanto Mary se empenhava na tarefa Caroline escrevia uma carta para a irmã mais velha, em poucos dias se encontrariam em Londres quando eles fossem tomar o vapor, precisava informar Louisa sobre a viagem.

As semanas de preparação passaram rápido e logo estavam na residência dos Bingley de Londres, mas Caroline não contava com a presença dos Darcy na cidade, e teve de suportar a companhia de Fitzwilliam e Elizabeth para dois jantares, um baile e uma ópera. Esses encontros forçados minaram o ânimo de Caroline pela viagem e Louisa percebeu. Aproveitando a ausência de Jane que saíra com a irmã, Louisa pressionou Caroline na hora do chá.

- Não pense em desistir dessa viagem, minha irmã! Eu, se pudesse, iria com vocês.

- Você não entende, Louisa. Eu não imaginava encontrar Mr. Darcy aqui! Já não tenho mais vontade de nada.

- Já está na hora de você parar com esta melancolia, isso não leva a nada. Irá encontrar uma série de bons partidos nesta viagem, e tem que parecer linda e não com este semblante tristonho.

- Fingir felicidade é algo muito complexo, minha irmã. E eu não estou interessada nos bons partidos da viagem. Se eu fosse mais nova me encerraria num convento na Itália, isso sim!

- O que? Caroline Bingley num convento? Está louca, minha irmã? O que tem na cabeça? Você é nova, bonita e educada, precisa se casar e gerar descendentes para nossa família.

- Não penso em me casar se o homem que eu amo é casado com outra.

- Ama? Amor não existe, Caroline! – Louisa precisava ser dura com a irmã – O que existe são arranjos. Ninguém se casa por amor, amor são devaneios dos poetas e bêbados. Existem milhares de homens no mundo ainda mais ricos do que Mr. Darcy!

- Você não pode estar falando sério, minha irmã! Eu não estou preocupada com o dinheiro!

- Pois eu estou. Jamais falei tão sério em minha vida! Você sabe o que viram mulheres que não conseguem bons casamentos? Solteironas que passam a vida cuidando dos sobrinhos! Ou pior, tutoras e governantas! Sem falar nas mulheres da vida. Pare com esses sonhos infantis e acorde para a realidade, antes que você esteja velha demais e nenhum homem, com posses ou não, faça questão de desposá-la.

- Não são sonhos! São pesadelos! Não tem idéia do quanto eu sofro por saber que nunca serei feliz ao lado de um homem? Que nunca terei a atenção e o amor do homem que eu amo? Do quanto me dói vê-lo feliz ao lado daquela caipira?

- E por isso vai viver toda a vida sozinha? Você não é a primeira e nem a única a querer o que não pode ter. E ninguém morre por isso! Levante a cabeça e viva sua vida, independente de Mr. Darcy!

Antes que Caroline pudesse responder a criada entrou avisando da chegada de Mrs. Bingley e Mrs. Darcy. Ela só teve tempo de secar as lágrimas e fingir serenidade.