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Biógrafos de Jane Austen seguem cheios de dúvidas

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em Artigos

Transcrição de matéria publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, página D7, do dia 8 de dezembro de 2009 de um artigo de Owen Bowcott do jornal britânico The Guardian, tradução de Terezinha Martino.

 

 

Novos dados levam a crer que autora de Orgulho e Preconceito tenha morrido com um linfoma, e não de problemas renais decorrentes do Mal de Addison

 

Em suas tramas sedutoramente cômicas, Jane Austen costumava ridicularizar os personagens que viviam preocupados com sua saúde. Portanto, a romancista ficaria perplexa – mas talvez achasse divertido – ao descobrir que, quase 200 anos após a sua morte a natureza exata da misteriosa doença que a acometeu no final acabou se tornando objeto de uma fascinação literária permanente.

 

Uma recente análise dos sintomas que ela apresentou, divulgada neste início de dezembro, sugeriu que a autora de Orgulho e Preconceito pode ter morrido prematuramente de tuberculose transmitida pelo gado. O que se afirma é que um exame da correspondência e das lembranças da sua família provam que ela não foi, como supunham médicos especialistas, vítima do mal de Addison (atrofia da glândula supra-renal).

 

 A vida privada de Jane Austen ainda intriga seus leitores modernos, enquanto médicos e biógrafos há mais de 40 anos discutem a causa precisa da sua morte, em 1817. Escrevendo na revista inglesa Medical Humanities, Katherine White, do grupo de autoajuda de doentes que sofrem do mal de Addison, ofereceu algumas evidências com o fim de liquidar com uma das mais amplamente aceitas teorias médicas sobre a morte de Jane Austen.

“Jane Austen morreu aos 41 anos, deixando seu sétimo romance, Sanditon, inacabado”, diz ela. “Embora Jane tenha sobrevivido a muitos dos seus pares na Inglaterra no período da Regência (quatro das suas cunhadas morreram por causa de complicações pós-parto), a causa da morte de Jane continua aberta a especulações póstumas.”

 

Na sua juventude e em grande parte da vida adulta, Jane Austen tinha uma constituição relativamente robusta. Ainda adolescente, escreveu seu primeiro romance cômico, satírico, Love and Friendship (Amor e Amizade), em que os protagonistas zombam constantemente da sua compassiva debilidade emocional.

 

Em maio de 1817, Jane foi a Winchester, Hampshire, sul da Inglaterra, em busca de auxílio médico, mas morreu na cidade dois meses depois. Como lembra um dos muitos websites literários dedicados à sua vida e obra, “Jane Austen morreu na madrugada de sexta-feira de 18 de julho de 1817, a cabeça recostada num travesseiro no regaço de Cassandra; sua irmã manteve-se de vigília ao seu lado durante toda a noite.”

 

Katherine White escreve que “em 1964, o médico Sir Zachary Cope propôs que o mal de Addison tuberculoso poderia explicar sua deterioração, que a deixava prostrada no leito, o seu tom da pele insólito, seus ataques de bílis, as dores reumáticas e a ausência de sinais mais específicos da doença”.

 

Por outro lado, em 1997, Claire Tomalin, que faz parte do grupo mais recente de biógrafos de Jane Austen, sugeriu que um linfoma se ajustaria mais aos sintomas reportados da romancista. Katherine White concorda que o diagnóstico do médico Zachary Cope pode estar correto mas observa que “muitas pessoas que sofrem do mal de Addison costumam ficar mentalmente confusas, sentem dores generalizadas, perdem peso e apetite. Nenhum desses sintomas aparecem nas cartas de Jane Austen”.