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Flying Down to Rio

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Flying Down to Rio

Com agradecimentos penhorados a Helena, que apresentou o argumento a partir do qual a história foi desenvolvida.

 

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William Darcy estava habituado a viajar constantemente de avião, mas ainda assim sentia os efeitos do jet lag, após algumas horas saindo do Aeroporto de Heathrow para sobrevoar o Atlântico.   A mudança brusca de fuso horário provocava dor de cabeça e um insistente zumbido no ouvido esquerdo.   E também o deixava mais irritadiço e avesso a conversas do que o habitual e por isso ele preferia responder o estritamente necessário aos comentários em inglês sofrível do motorista do táxi que o conduzia.

 

-  Would you like a... city tour? – Ofereceu-lhe o jovem moreno com um sorriso cordial.

 

Não conhecia a cidade, mas certamente não cairia nas mãos do primeiro que o buscasse no aeroporto. Não era do tipo afeito a roteiros turísticos, preferindo no fundo a tranqüilidade britânica de sua Pemberley natal a qualquer tipo de viagem, mas conhecer o mundo tornara-se um agradável bônus de sua carreira como escritor bem-sucedido.

 

- ...Brazilian girls?

 

A voz grave do homem, agora com uma expressão marota em seu rosto, insistia em outra tradicional oferta para turistas diante do rosto impassível de Darcy.  Mas o inglês não queria nenhuma garota brasileira, muito menos alguma pela qual precisasse pagar algo.

Depois da paisagem irregular e por vezes decadente das proximidades do aeroporto e do Centro, agora trafegavam pelo Aterro do Flamengo e Darcy começou a entender porque a cidade era chamada de maravilhosa ao contemplar o Pão de Açúcar emoldurado pela Enseada de Botafogo.  O motorista aparentemente desistira de lhe prestar algum serviço adicional e passara a apresentar informações sobre a paisagem que viam a sua frente.

 

Ficaria hospedado na casa dos Bingley, que insistiram em buscá-lo imediatamente após sua aterrissagem no Rio, mas ele recusou gentilmente a oferta dada a distância de onde moravam para o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro.  Além do mais poderiam estar atarefados com outros hóspedes esperados para aqueles dias festivos.

 

O motorista estacionou o carro na entrada do endereço que lhe dera, situado em uma das ruas mais calmas do bairro de Copacabana, que apesar de ser um caleidoscópio populoso, ainda abrigava oásis de tranqüilidade como aquele, localizado no trecho do Leme.

 

Darcy não trazia muita bagagem e dispensou a ajuda do motorista para transportá-la, pedindo, entretanto que ele o aguardasse confirmar a presença de seus anfitriões em casa. A lufada de calor intenso que o atingiu ao sair do ar refrigerado do carro o fez ter saudades do inverno rigoroso que deixara para trás na Grã-Bretanha.

 

Duas vozes infantis balbuciaram respostas ao interfone e logo depois Jane respondeu, destrancando o porteiro eletrônico.  Além do dispositivo de segurança, o prédio tinha grades a sua volta e um porteiro convencional, informações que ele registrou como sintomas da insegurança infelizmente associada à cidade.  Mas onde alguém podia se sentir seguro em alguma metrópole hoje em dia, pensou lembrando-se das constantes suspeitas de atentados que paralisavam trens e suspendiam voos em Londres e no restante da Europa.

 

Charles veio recebê-lo no elevador e ao dar um abraço no amigo a emoção de revê-lo acabou com qualquer contrariedade que Darcy ainda pudesse sentir pela distância e cansaço.    Sempre fora seu melhor amigo e ele sentia sinceramente a sua ausência, Porém se alegrava em saber que Bingley estava feliz, não apenas em família, mas com o importante cargo diplomático que exercia no consulado britânico do Rio de Janeiro.

 

- Will!  Como estou feliz em vê-lo outra vez! – Charles disse ao amigo, com o  sorriso simpático que era sua marca registrada.

 

Depois que ele havia se casado, já haviam se encontrado outras vezes na Inglaterra onde fora apresentado à sua encantadora esposa, mas Darcy nunca viera ao Brasil antes.   Quando entraram, as vozes infantis que ele antes ouvira se acercaram dele: Martha, uma menina de quatro anos e cabelos ruivos como o pai e Matthew, um menino de dois, de cabelos castanhos como a mãe.

 

O apartamento era amplo, claro e bem mobiliado, apesar da relativa desordem peculiar a uma residência em que havia crianças pequenas.  Havia uma piscina espaçosa e cercada de plantas no segundo pavimento e ao longe se via o mar azul da Praia de Copacabana em que Darcy perdeu o seu olhar por algum tempo.

 

- Veio só? – Perguntou Charles. - E Georgiana?

 

- Passará o Ano Novo em Londres com o noivo, um corretor da City.   Vão se casar brevemente.

 

- Pelo visto será tio antes de ser pai...  - Charles sorriu conhecendo a predisposição do outro em não se comprometer em relacionamentos com o sexo oposto.  – Pois aviso desde já: Tome cuidado, as brasileiras são lindas...

 

E o olhar apaixonado de Charles dirigiu-se à esposa que brincava com os filhos próximos de onde estavam, explicando a Darcy por si só a razão de sua advertência.

 

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Ninguém mais se hospedaria na casa dos Bingley a não ser William Darcy, mas à noite os convidados começaram a chegar para a festa de reveillon.  Entre eles estavam os parentes de sua esposa, Jane, que Darcy achou especialmente barulhentos, com destaque para a sogra e as duas cunhadas caçulas que logo lançaram olhares lânguidos para o estrangeiro recém-chegado.   Isto obrigou Darcy a se mostrar frio e distante, de modo a não dar ilusões às moças de que ele lhes daria algo mais do que sua cortesia.   Logo elas o tacharam de antipático e orgulhoso e se voltaram para outras opções masculinas disponíveis na festa.

 

Todos estavam de branco, com exceção de algumas poucas que usavam dourado.   Era um costume nacional, segundo Bingley esclarecera, baseado em ritos africanos que ainda eram celebrados por alguns naquela época do ano em honra a uma suposta deusa do mar.  Isto também explicava o fato dos brasileiros tradicionalmente se reunirem à beira do mar, rios e outras fontes de água para passarem o réveillon, mesmo que a maioria não o fizesse por motivos religiosos.

 

O apartamento rapidamente encheu-se de convidados, cuja maioria era de brasileiros, com alguns ingleses do consulado misturados a eles.   Darcy não tinha facilidade de se entrosar com estranhos, ainda mais de um temperamento tão diferente do dele.   Os latinos eram muito expansivos e se tocavam o tempo todo, mesmo aqueles que mal se conheciam.   Vários deles que haviam acabado de ser apresentados a Darcy, tanto homens como mulheres, davam tapinhas em seu ombro como se fossem íntimos há anos. Talvez a cordialidade geral também fosse efeito do Pro Secco servido generosamente pelos garçons, que Darcy também bebericava, mais por falta do que fazer do que pelo prazer da bebida.

 

Mas logo seu olhar voltou-se para uma mulher que entrou sozinha com o olhar aparentemente procurando por conhecidos.   Não era de uma beleza regular, mas a pele bronzeada e os cabelos e olhos escuros, formavam um conjunto que atraiu Darcy instantaneamente, e ele tomou de uma flute de uma das bandejas que passava e decidiu recebê-la à porta, afinal estava hospedado na casa e também era seu papel ajudar os anfitriões a receber os convidados.

 

- Boa noite! – Disse ele em português carregado de sotaque.

 

- Boa noite! – Respondeu a moça em inglês fluente, mostrando que poderiam se comunicar na língua dele.

 

- Seja bem-vinda.  – Ele ofereceu-lhe a taça de espumante que ela aceitou curiosa em saber quem seria aquele convidado de Charles que ainda não conhecia. – Sou William Darcy, convidado dos Bingley, muito prazer. - Ele tomou de sua mão e beijou-a suavemente.

 

Então este era o melhor amigo do marido de sua irmã, de que tanto falavam. Elizabeth achou por bem não revelar seu parentesco com os anfitriões por enquanto.

 

- Igualmente, meu nome é Elizabeth.  – Ela retribuiu o cumprimento com o olhar, tomando um pouco do espumante.

 

Ela não disse o seu sobrenome, mas Darcy pensou que esse também devia ser um costume local.  Apesar de sua iniciativa em recebê-la, era visível que ele não se sentia muito à vontade no ambiente e Lizzy achou graça da falta de traquejo social dele. Entretanto considerou que o temperamento extrovertido e sociável dela não combinaria com o frio temperamento britânico dele, mesmo que ele fosse excepcionalmente atraente.

 

- Com licença, vou procurar os Bingley.

 

- Eu a acompanho. – Disse Darcy cortesmente seguindo a seu lado.

 

Driblaram alguns convidados a quem ela ia cumprimentando, enquanto também o apresentava em português até chegarem perto de Jane.

 

- Lizzy!  Está atrasada.

 

Elas se abraçaram e William imaginou se seriam íntimas ou não, já que todos ali pareciam se abraçar, mesmo sem se conhecer.

 

- William. – Disse Jane em inglês – Esta é Elizabeth Bennet, minha irmã.

 

Recusara a armadilha das mais novas, mas não conseguira escapar aos encantos da mais velha.

 

- Nos apresentamos ainda há pouco. – Ele respondeu um pouco constrangido, considerando se ela teria o mesmo temperamento das irmãs.

 

- Estava encerrando meu plantão e o trânsito estava praticamente paralisado.

 

Elizabeth era médica e as irmãs começaram a conversar rapidamente enquanto se moviam pela festa cumprimentando outros convidados. Darcy preferiu pedir licença e voltar a ficar solitário a um canto, continuando a bebericar.

 

O tempo correu e a meia-noite aproximou-se celeremente. Os donos da casa convocaram então os convidados para descerem e assistirem de perto à queima dos fogos de artifício.   Nas areias de Copacabana, em meio à multidão, se espalhavam ritmos e danças que pareceram extremamente exóticas a Darcy, que se surpreendeu ao ver a irmã de Jane e outras convidadas se juntarem em uma delas, fazendo movimentos coreográficos sensuais.  Ele percebeu que a desejava, mas não deveria cogitar de sexo casual com a irmã da mulher de seu melhor amigo.

 

Houve silêncio para a contagem regressiva pelos alto-falantes e os espumantes que haviam sido trazidos de casa foram estourados, inclusive Darcy que por acaso ou não, encharcou boa parte do conteúdo sobre Elizabeth, que sorrindo lhe disse:

 

- Molhou bastante minha blusa, Sr. Darcy.  Foi um acidente?

 

- Sinto muito.   Mas assim que puder tirá-la eu posso tentar dar um jeito.

 

Ele disse estas palavras sem se dar conta da sensualidade involuntária que traziam, mas seus olhos não deixavam dúvidas sobre a atração que sentia e ele se aproximou dela, oferecendo-lhe uma taça com o pouco que sobrara na garrafa.

 

- Feliz Ano Novo!

 

Talvez fosse o clima de festa, talvez fosse o efeito do espumante sobre ambos.

 

Mas os lábios dele se aproximaram dos dela, que resolveu ceder às sensações que surgiam em seu corpo ao ficarem tão perto assim e permitiu e correspondeu a um abraço e um beijo apaixonados, ambos esquecendo-se de que haviam acabado de se conhecer.

 

- Happy New Year! - Foi a vez dela desejar seus votos quando se separaram.

 

A sua volta todos ainda contemplavam os fogos de artifício que espocavam no horizonte, mas eles só tinham olhos um para o outro. Um novo amor acabava de começar...