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O anjo de Pemberley - Capítulo 1

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Sinopse da fic:

Contarei nesta fic a estória de duas mulheres: Lady Clementine Darcy e Elizabeth Bennet. Elas viveram em épocas diferentes na Inglaterra: Lady Clementine, na era vitoriana e Elizabeth, nos dias atuais. As estórias de suas vidas se entrelaçam de forma inesperada e surpreendente, mostrando a força transformadora que o amor teve em suas vidas.



Elizabeth Bennet caminhava aflita e apressada pelas ruas da City, bairro londrino que concentram em seus edifícios de arquitetura moderna de concreto e vidro, as sedes das grandes empresas e corporações britânicas e internacionais.

 

A pressa e aflição de Lizzy eram devidos ao fato de estar 10 minutos atrasada para o encontro que tinha agendado para às 16 horas com o Lord William Darcy.

 

”Tomara que Lord Darcy também esteja atrasado em seus compromissos e não se dê conta do meu atraso. Ou, então, que ele seja um sujeito compreensivo, me desculpe e me receba sem criar caso.”

 

Naquele dia tudo parecia estar dando errado para Lizzy, a discussão que tivera com Charlotte Lucas a impedira de sair no horário pretendido e para aumentar o atraso ela acabara tomando a linha errada do intrincado metrô londrino.

 

Charlotte era sua amiga particular e editora chefe da revista mensal “Mulheres”, para a qual Lizzy trabalhava desde que se formara em Jornalismo há três anos, como jornalista independente ou freelancer.

 

Lizzy se sentia mais livre nesta forma de trabalho, ela vendia seus artigos sem ter vínculo empregatício com o jornal ou a revista. Tinha liberdade de escolher seu próprio empregador, seus horários e até as matérias que queria escrever sem ter que lidar com a hierarquia muitas vezes burocrática das redações. O aspecto negativo era que não tinha a segurança de um salário mensal, recebia apenas por matéria vendida, mas esperava ter um dia prestígio suficiente para ter uma situação financeira confortável, como muito de seus colegas independentes.

 

Tudo começou quando Lizzy escrevia uma matéria sobre as cinco mulheres vítimas de Jack, o estripador, o famoso facínora que aterrorizou Londres, em plena Era Vitoriana, durante os três meses, que duraram seus ataques, no ano de 1888.

 

Um dia, quando realizava suas pesquisas sobre o famoso assassino serial na biblioteca pública, Lizzy leu por acaso uma pequena nota num velho jornal da época, que chamou sua atenção e que ela não conseguiu mais esquecer.

 

Morreu em Pemberley Lady Clementine Darcy.

As autoridades policiais do Derbyshire estão investigando as circunstâncias da morte de Lady Darcy, encontrada morta nos jardins da rica propriedade de sua família.

Conhecida como “o anjo de Pemberley”, por suas obras assistenciais às famílias necessitadas da região, Lady Clementine Darcy era esposa de Lord Arthur William Darcy e filha dos condes de Windermoor.

 

A notícia despertou a curiosidade de Lizzy, que começou a procurar nos jornais da época por mais notícias que esclarecessem a causa da morte da dama, mas elas se revelaram escassas ou quase nulas.

 

“Quem teria sido Lady Clementine Darcy? O que teria acontecido a ela? Qual teria sido a causa de sua morte? Teria sido assassinada ou apenas vítima de alguma doença?” – Lizzy se fazia estas perguntas à medida que não conseguia, através da pesquisas nos velhos jornais, descobrir nada a respeito do que poderia ter ocorrido. –“Teria a morte de Lady Clementine ficado sem solução ou será que a família Darcy escondeu o caso com medo de que alguma estória sórdida viesse à tona?"


A escassez de informações aguçava o espírito investigativo de Lizzy que decidiu que este seria o tema de sua próxima matéria.

 

A matéria sobre Jack foi publicada e obteve ótima repercussão. Lizzy, então, disse a Charlotte que já tinha escolhido o tema da próxima matéria que pretendia vender para a revista: ela iria investigar e escrever sobre a vida de Lady Clementine Darcy. Entretanto, após ler uma sinopse que Lizzy fizera para ela, Charlotte, como amiga e editora-chefe, aconselhou-a a desistir do tema.

 

- Lizzy, você sabe que estas famílias aristocráticas e poderosas não gostam que venham à tona fatos que geram publicidade escandalosa envolvendo seus membros, preferem que eles permaneçam escondidos em baixo de seus belos tapetes persas.

 

- Mas esta mulher viveu há mais de 100 anos, na Inglaterra Vitoriana. Não acredito que seus descendentes iriam se importar com a publicação de uma estória que aconteceu há tanto tempo, afinal todos os personagens nela envolvidos estão mortos.

 

- Apesar do tempo que passou, mexer com este tipo de assunto é o mesmo que se mexer num vespeiro. Você sabe por que esta mulher foi morta? Na sinopse você mesma diz que provavelmente se tratou de um crime passional, logo deve haver muitos segredos familiares escondidos nesta estória que poderão ser ressuscitados.

 

- Também tive esta impressão e por isto me interessei em investigar o caso. Acho que dará uma excelente matéria que irá interessar nossas leitoras, as mulheres sempre gostam de ler sobre uma boa estória de amor que terminou tragicamente.

 

- E quem garante que foi uma estória de amor?

 

- Aposto o que você quiser que foi uma estória de amor infeliz e não correspondido.

 

- Desista Lizzy. Algo me diz que teremos problemas com a família Darcy. Escolha outro tema, menos problemático e polêmico.

 

Lizzy, entretanto, não estava disposta a abandonar a estória de vida de Lady Clementine, havia algo nela que a fascinava e a impelia a querer apurar toda a verdade.

- Charlotte, há mais de uma semana que marquei esta entrevista com Lord Darcy. Se ele me der autorização para consultar documentos que devem estar em poder da família sobre sua antepassada, será o sinal verde para eu poder publicar a estória.

 

- Não posso impedi-la de procurar o grande homem, mas prepare-se para ouvir um não. E diante da negativa dele, você terá que desistir da matéria, pois te faltarão informações para escrevê-la.

**********************

Quando, por fim, Lizzy chegou ao hall de entrada do moderno prédio onde estava instalada a Corporação Darcy, a infalível Lei de Murphy ("se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará") não deixou de dar o ar de sua graça. Havia uma pequena fila no guichê de identificação no saguão de entrada atrasando-a ainda mais. Finalmente, quando alcançou o escritório da presidência no último andar estava quase 15 minutos atrasada para o encontro com Lord Darcy.

 

Lizzy se dirigiu à recepcionista uniformizada sentada a uma mesa logo na entrada do luxuoso escritório:

 

- Senhorita, sou Elizabeth Bennet, tenho uma entrevista agendada com Lord Darcy, às 16 horas. Estou atrasada porque tive uma série de contratempos, mas espero que ele me receba mesmo assim.

 

- Por favor, aguarde um instante. Vou verificar com a secretária se ele ainda poderá recebê-la.

 

Não tardou para que a jovem voltasse dizendo:

 

- Srta. Bennet, Lord Darcy a aguardou no horário agendado, agora ele não dispõe de mais nenhum horário para atendê-la hoje. A senhorita terá que agendar um novo horário.

 

- Por favor, preciso falar com ele urgente. Será uma conversa rápida, não levará mais do que 10, 15 minutos. Não é possível que ele não possa dispor apenas deste tempo para mim.

 

- A senhorita terá que falar diretamente com a secretária dele. Aguarde um instante, vou ver se ela poderá recebê-la. – a recepcionista desta vez falou com a secretária pelo interfone.

 

Falar com o primeiro ministro certamente deve ser mais fácil!” –  pensou Lizzy com ironia.

 

Alguns minutos depois, a secretária de Lord Darcy veio à recepção falar com Lizzy. Era uma senhora de meia idade, elegantemente trajada e muito educada. Lizzy explicou novamente a ela o motivo de seu atraso e arrematou dizendo:

 

- Se a senhora conseguir que ele me receba ainda hoje por 10 minutos ficaria muito agradecida.

 

- Srta. Bennet, Lord Darcy a aguardou no horário agendado. Ele é muito rigoroso com o cumprimento de horários, pois é uma pessoa muito ocupada. Dificilmente, ele poderá atendê-la hoje.

 

- Reconheço que cheguei atrasada, mas foi por motivos alheios a minha vontade. Não costumo chegar atrasada aos meus compromissos.

 

- Não prometo, mas vou ver o que posso fazer. Vou falar com Lord Darcy assim que puder e vamos ver se ele ainda poderá atendê-la hoje. – disse a secretária que pareceu ser uma mulher razoável, e apesar de seu ar profissional aparentava ser bondosa.

 

Lizzy agradeceu e ficou aguardando na luxuosa sala de espera. Após meia hora a secretária voltou dizendo:

 

- Falei com Lord Darcy e ele disse que só poderá atendê-la no final do expediente se a senhorita puder aguardar, caso contrário deverá agendar um novo horário.

 

- Vou aguardar. – respondeu Lizzy determinada a não sair dali sem ter falado com o homem.

 

“Esqueci de perguntar qual é o horário do final de expediente dele. Deve ser lá pelas 5 a 6 horas, mas conquanto que ele me atenda hoje não me importo de esperar.”

 

O tempo passou. Uma hora. Uma hora e meia. Havia se passado duas horas quando a secretária se aproximou de Lizzy e disse num tom de quem pede desculpas:

 

- Senhorita Bennet, infelizmente Lord Darcy não poderá mais atendê-la hoje. Ele tem um compromisso logo mais à noite e está saindo apressadamente.

 

- Mas, então, porque ele me fez esperar este tempo todo. O que tenho a falar com ele não levará mais do que dez minutos, gastar este tempo comigo não irá atrapalhar o compromisso dele.

 

Lizzy estava desacorçoada, havia esperado 2 horas para nada. Neste instante a porta do escritório de Lord Darcy se abriu e um homem alto e elegante que só poderia ser o próprio em carne e osso saiu e após dar um “até amanhã” para a secretária foi atravessando a sala a caminho do hall dos elevadores.

 

Lizzy agiu por impulso e  saiu correndo atrás do homem.

 

- Lord Darcy, por favor, Lord Darcy, poderia me conceder 10 minutos de sua atenção. – ele parou abruptamente e olhou Lizzy com um franzir de sobrancelhas, sinal claro de seu desagrado pela forma como estava sendo abordado.

 

- Jovem, estou atrasado para um compromisso que terei esta noite. Se quiser falar comigo, agende com minha secretária um horário.

 

- O que tenho a dizer é algo urgente e muito importante para mim e não tomará quase nada de seu tempo.

 

- Se é algo urgente e importante para a senhorita, por que não chegou no horário marcado para falar comigo? Tenho tolerância zero para com as pessoas que não são pontuais.

 

- Lord Darcy, reconheço que errei ao chegar atrasada à nossa entrevista, mas tive uma série de contratempos que me atrasaram, cheguei até a tomar a linha errada do metrô por engano para vir para cá, quando me dei conta tive que fazer o caminho de volta, enfim o senhor não deve estar entendendo o que estou falando porque nunca deve ter tomado um metrô em toda a sua vida.

 

- Srta...?

 

- Bennet. Elizabeth Bennet.

 

- Srta. Bennet, não estou interessado em seus problemas pessoais e dispenso também seus julgamentos sobre minha pessoa.

 

- Só estava tentando explicar a razão de meu atraso. Quero que saiba que costumo comparecer a meus compromissos pontualmente.

 

O gesto de franzir as sobrancelhas demonstrava o desagrado e impaciência de Lord Darcy diante deste último aparte de Lizzy, mas esta não se importou e continuou:

 

- Sou uma jornalista independente e gostaria...

 

- Se a senhorita deseja me entrevistar, vou avisando que não costumo dar entrevistas sobre minha vida particular. Se for sobre negócios da corporação agende novo horário.

 

- Não, não quero entrevistá-lo sobre sua vida particular, nem sobre negócios. Quero falar com o senhor sobre algo totalmente diferente, apenas quero pedir sua autorização para pesquisar documentos que podem estar em poder de sua família sobre Lady Clementine Darcy, sua antepassada que foi encontrada morta nos jardins de Pemberley.

 

- Srta. Bennet, vamos encurtar esta conversa para não tomarmos ainda mais o meu tempo e o seu. Minha resposta ao seu pedido é não.

 

- Mas...

 

- Peço a senhorita a gentileza de não insistir. Este é um assunto privado de nossa família que fazemos questão absoluta de que permaneça privado, não temos interesse algum que ele se torne público. Nossa conversa está encerrada. Passar bem.

 

Lord Darcy fez uma ligeira mesura com a cabeça à guisa de cumprimento e se dirigiu a passos largos em direção ao hall dos elevadores, deixando Elizabeth completamente sem ação.

 

Que homem insuportável! Orgulhoso, arrogante e antipático, mas ele é bem mais novo do que eu imaginava e tenho que admitir que é um homem muito bonito.”