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O anjo de Pemberley - Capítulo 2

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

A negativa de Lord Darcy em conceder permissão para que Lizzy pesquisasse documentos de sua antepassada em poder da família, só fez aumentar sua curiosidade a respeito da estória de vida da dama. Em nenhum momento passou pela cabeça de Lizzy  desistir de seu projeto, se havia alguém obstinado este alguém era Elizabeth Bennet.

 

Vou encontrar uma solução para o problema criado pela negativa de Lord Darcy. Não vou jogar fora horas de pesquisa que já  fiz nos jornais da época. Vou investigar a vida e a morte de Lady Darcy através de outras fontes disponíveis e publicar a matéria. Lord Darcy não pode me impedir de procurar em arquivos da polícia e em bibliotecas e publicar minha matéria com informações conseguidas desta forma.”


Após esgotar suas pesquisas nas bibliotecas públicas de Londres, Lizzy foi até os arquivos da Scotland Yard, mas obteve pouco sucesso, não havia nada sobre Lady Clementine Darcy em seus arquivos. Conversando com um bibliotecário da famosa polícia britânica, este sugeriu que ela fosse procurar nos arquivos da polícia do local onde a dama morrera.

 

Lizzy sabia que o vilarejo mais próximo de Pemberley era Lambton, e por coincidência sua tia Gardiner, casada com o irmão mais velho de sua mãe, havia vivido quando jovem e solteira ali. Lizzy foi pedir informações a ela.

 

- Lizzy, acho que você deverá ir a Matlock se quiser consultar os arquivos policiais da região, em Lambton há apenas um pequeno posto policial, não acredito que eles mantenham arquivos desta natureza, ainda mais de fatos tão antigos. – disse-lhe a tia.

 

- Vou consultar pela internet se a polícia de Matlock me dará permissão de consultar seus arquivos, mas em todo o caso vou dar uma passada em Lambton, gostaria de conhecer Pemberley. A senhora sabe se ela está aberta à visitação pública como tantas mansões e palácios ingleses?

 

- No tempo que lá vivi não estava e acho pouco provável que a família Darcy tenha aberto a propriedade para visitação pública. Consulte a internet para saber, assim não perderá teu tempo indo a Lambton.

 

- Irei de qualquer jeito a Lambton, pois quero ver Pemberley nem que seja de longe. Quem sabe com um pouco de sorte eu consiga visitá-la.

 

- Eu estive em Pemberley uma única vez. É um verdadeiro museu com luxuosos salões finamente decorados com móveis e objetos de época, quadros valiosos e um impressionante afresco no hall de entrada, mas o que ela tem de mais belo são os jardins e os parques que a circundam, uma verdadeira obra de arte da natureza e dos jardineiros ingleses que o criaram e que parece está conservado até os dias de hoje.

 

- Como a senhora conseguiu visitar Pemberley?

 

- Foi através de Cindy, uma colega de escola, ela é sobrinha da Sra. Reynolds, governanta de Pemberley, depois de muita insistência ela conseguiu que a tia nos mostrasse a mansão na ausência dos donos.

 

- Será que se a senhora pedisse, esta sua amiga Cindy não faria o favor de me apresentar à tia? Aí eu mesmo poderia pedir a esta governanta que me mostrasse Pemberley.

 

- Cindy não mora mais em Lambton. Casou-se e se mudou para Liverpool há muitos anos. A Sra. Reynolds continua sendo a governanta de Pemberley, mas duvido que ela abra uma exceção a você, ou a quem quer que seja.

 

- Em todo o caso vou até Lambton, que fica perto de Matlock. Quem sabe se num golpe de sorte eu não consiga conhecer Pemberley.

 

******************************

Quando Lizzy chegou à pequena e encantadora Lambton, uma pequena vila cujas casas centenárias eram feitas de pedra semelhante a tantas outras vilas inglesas, ela estava mais do que nunca determinada a conhecer Pemberley, a mansão em que vivera e morrera Lady Clementine Darcy.

 

Lizzy se hospedou na única pousada existente no vilarejo e não perdeu tempo em perguntar à sua simpática e falante proprietária sobre Pemberley.

 

- A senhora poderia me informar se ela está aberta a visitação pública?

 

- Infelizmente não está. É uma pena que Lord Darcy não abra a mansão para o público, sabe que seria uma ótima fonte de renda para nosso vilarejo, minha pousada e o pub estariam sempre lotados e daria até a oportunidade de se abrirem novos estabelecimentos.

 

- A senhora sabe por que ele não abre Pemberley para visitação pública?

 

- Certamente porque não precisa de dinheiro e quer preservar sua privacidade.

 

- Tenho muita vontade de conhecer Pemberley. A senhora não sabe se há alguma maneira de eu fazer uma visita à mansão na ausência da família?

 

- Impossível, a governanta Sra. Reynolds, que trabalha lá há mais de 40 anos,  não permite visitantes de jeito nenhum sem a permissão de Lord Darcy, ela é muito leal à família.

 

“Parece que Lord Darcy está sempre atrapalhando meus planos!” – pensou Lizzy. - A senhora já ouviu falar sobre Lady Clementine Darcy?

 

- Sim, esta é uma estória antiga que todo mundo conhece aqui. Sabe como é em lugar pequeno, há falta de notícias e quando acontece uma tragédia assim ninguém esquece. A estória foi passando de geração a geração e entrou para a história de Lambton. A pobre mulher foi encontrada morta nos jardins de Pemberley, dizem que foi por causas naturais, mas ainda hoje correm rumores que ela possa ter sido assassinada. Ninguém em Lambton esqueceu esta estória, pois Lady Clementine era uma mulher muito querida, era conhecida como “o anjo de Pemberley” porque ajudava muito os pobres da região, dizem que enfrentava até o rigor do inverno para levar auxílio aos necessitados. Quem iria querer matar uma mulher assim, não é verdade?

 

 

********************

Lizzy estava bastante desanimada diante da impossibilidade de conhecer Pemberley e já fazia planos de deixar Lambton no dia seguinte. Ela foi almoçar no velho pub, o único lugar que fornecia refeições aos poucos visitantes do vilarejo.  Enquanto aguardava a chegada de seu pedido, um mural de recados pregado numa das paredes do estabelecimento chamou sua atenção. Curiosa, ela foi dar uma olhada para saber quais os tipos de anúncios que as gentes do povoado colocavam ali. Havia um pouco de tudo, desde oferta de empregos, venda de animais e instrumentos agrícolas usados, o cartão de uma costureira, mas um pequeno anúncio chamou a atenção de Lizzy.

 

“Procura-se empregada para serviços de limpeza. Tratar com Sra. Reynolds em Pemberley, marcando entrevista pelo telefone (e o nº. do mesmo)”

Imediatamente ocorreu a Lizzy que esta seria uma oportunidade única para conhecer a mansão ou pelo menos dar uma olhada em partes dela, já que sabia que era uma propriedade imensa segundo relatos da tia.

 

Logo após o almoço, ela telefonou para o número indicado no recado e marcou uma entrevista com a governanta para aquela mesma tarde. Lizzy solucionou o problema da distância entre a mansão e Lambton pedindo emprestada a bicicleta de um rapaz que trabalhava na pousada.

 

Após se identificar junto ao vigia que veio atendê-la à entrada nos imensos portões de ferro batido, Lizzy sentiu uma estranha emoção ao adentrar a propriedade e seguir a longa alameda ladeada em ambos os lados por carvalhos centenários cujos galhos formavam um imenso túnel que sombreava seu caminho. Subitamente, Pemberley surgiu em seu campo de visão.  A mansão se erguia majestosa, não ficava a dever em tamanho e suntuosidade a nenhum dos inúmeros castelos e palácios britânicos.

 

 

Lizzy se dirigiu à parte de trás da mansão, na sua entrada de serviço, onde um empregado já a aguardava certamente alertado pelo vigia.

 

- Srta. Bennet, me acompanhe que a Sra. Reynolds a está aguardando.

 

A governanta era uma senhora idosa já perto dos setenta anos, porém aparentava ter ainda bastante vitalidade. Após os cumprimentos iniciais, ela foi dizendo:

 

- Você não é de Lambton, pois conheço todo mundo de lá. Como veio parar aqui?

 

- Terminei meus estudos este ano e resolvi viajar pela Inglaterra,para conhecer as peculiaridades de cada região.  Como tenho pouco dinheiro vou arrumando serviços temporários para poder viajar.

 

- Então você não irá permanecer muito tempo no emprego.

 

- Ficarei por dois, três meses no máximo.

 

- Vou ser franca com você. Estou procurando uma pessoa que tenha a intenção de ficar por um bom tempo no serviço e não alguém que procura um emprego temporário.

 

- Entendo...

 

- Mas hoje e dia tenho muita dificuldade em arrumar empregados. Pouca gente quer trabalhar aqui. Reconheço que há muitos inconvenientes: a mansão é grande demais, por isso nunca falta serviço. Depois, os jovens não gostam de morar neste local isolado, eles preferem trabalhar nas fábricas ou no comércio das cidades grandes. Bem, se ninguém mais se apresentar darei o emprego a você. Gostei do seu jeito e admiro jovens que saem para conhecer o mundo e não tem medo de trabalho.

 

- Vou deixar o número de meu celular caso a senhora queira me contratar.

 

Lizzy saiu por onde entrara pela área de serviço da mansão, tendo apenas uma visão rápida de seus belos jardins.

 

************************

 

Após sua curta visita a Pemberley, Lizzy estava mais do que nunca determinada a descobrir toda a verdade sobre a vida e morte de Lady Clementine.

 

Como havia planejado anteriormente, Lizzy foi ao departamento de polícia de Matlock.  Após se identificar como jornalista, obteve permissão para pesquisar os documentos que constituíam o inquérito policial sobre a morte da dama.

 

Passou uma tarde inteira debruçada sobre papéis amarelados, tentando decifrar o resultado final das investigações policiais, entretanto, as informações obtidas foram decepcionantes, pouco acrescentaram sobre a vida de Lady Clementine, apenas que falecera aos 35 anos e indicavam a causa da morte como natural, a dama teria sofrido um infarto enquanto passeava nos jardins de sua residência.

 

A primeira reação de Lizzy foi suspeitar da conclusão policial, talvez com os métodos de investigação incipientes da época, os policiais houvessem optado por encerrar o caso com esta conclusão simplista, pois não conseguiram desvendar a verdadeira causa da morte.

 

Não restou alternativa à Lizzy, senão tirar cópias da documentação que a interessava e retornar para casa bastante decepcionada com os resultados da viagem que poucas informações haviam acrescentado às suas pesquisas.

 

Lizzy havia chegado a Londres há poucos dias e estava avaliando se continuaria suas investigações sobre Lady Clementine, ou, se desistiria do caso.  Já pesquisara todas as fontes disponíveis e ainda não encontrara material suficiente para escrever sua matéria, quando recebeu o telefonema da Sra. Reynolds perguntando se ela ainda estava interessada no emprego em Pemberley.

 

A proposta da governanta de Pemberley encheu Lizzy de novo ânimo e ela não hesitou em responder que sim, aceitando o emprego imediatamente. Talvez lá onde Lady Darcy havia vivido, ela encontrasse a chave do mistério que cercava sua morte: quem sabe cartas... um diário.

 

Quando Lizzy contou a Charlotte sobre o emprego em Pemberley, esta deixou claro o quanto a ideia de Lizzy se disfarçar de empregada e ir procurar documentos a desagradava.

 

- Um emprego em Pemberley? Como você conseguiu isto?

 

- Foi em Lambton, aquele vilarejo que fica perto de Pemberley. Fiquei sabendo por acaso que estavam procurando uma empregada para trabalhar na mansão. Fui até lá e me candidatei ao emprego e por incrível que pareça eu o consegui: vou conhecer o lugar onde viveu e morreu Lady Clementine Darcy. E agora mais do que nunca estou determinada a conhecer a fundo a estória desta mulher.

 

- Espera lá, isto é loucura Lizzy! Não concordo que você vá disfarçada de empregada doméstica em Pemberley para conseguir obter informações sobre Lady Clementine.

 

- Tentei obter autorização do proprietário para fazer a pesquisa pelos meios normais, mas ele não autorizou. Então, surgiu esta oportunidade de entrar na mansão e descobrir o que aconteceu com Lady Clementine. Por que não vou aproveitar?

 

- Um meio desonesto! Sabe que poderá acabar sendo presa! Se Lord Darcy não te deu permissão, você estará cometendo um crime entrando na casa usando de meios falsos.

 

- Não precisa se preocupar porque serei bastante cuidadosa, ninguém irá suspeitar de mim. Sei disfarçar muito bem minha condição. Não vou furtar nada, apenas quero descobrir e ler algum documento que me ajude a entender melhor o que aconteceu.

 

- Lizzy, pelo amor de Deus, seja razoável, abandone esta ideia maluca, ainda vai arrumar confusão para você e para a revista. Há tantos outros assuntos que você poderá escolher para uma matéria, sem que precise infringir a lei.

 

- Não vou infringir lei alguma, não é crime trabalhar como empregada numa casa e se eu descobrir algum documento que me interesse vou ler, fazer anotações e deixar o documento no lugar onde o encontrei. Não vou furtar nada. Não vejo onde estarei infringindo a lei.

 

- Mas entrará na casa sob falsa identidade, se fazendo passar por quem não é. Desista desta idéia maluca! Por que não escreve sobre outra personagem? Escolha a vida de outra mulher que viveu na Era Vitoriana, já que gosta deste período e, por favor, que não tenha um descendente poderoso e ilustre como Lord Darcy.

 

- Deixe de ser medrosa Charlotte, não irá me acontecer nada de ruim. E se eu for descoberta assumirei sozinha a responsabilidade pelo meu ato, não irei incriminar a revista, pode ficar tranquila.

 

- Como você é teimosa, Lizzy! Imagine o que acontecerá se Lord Darcy a descobre em Pemberley, vasculhando documentos que ele não te autorizou a pesquisar? Ele mandará prendê-la.

 

- Ele nunca irá descobrir que estou lá.

 

- Eu não teria esta certeza. Ele, certamente, deve aparecer por lá, afinal Pemberley é uma de suas residências.

 

- Deve ir de vez em quando, mas não vou ter contato com ele, vou ser uma simples empregada encarregada de tirar o pó dos móveis. Qual o contato que terei com o grande Lord Darcy?

 

- Você poderá cruzar com ele pelos corredores e ele te reconhecer.

 

- Duvido que vá se lembrar de mim, me viu apenas uma vez e mal olhou na minha cara. Depois vou me disfarçar, prender meus cabelos num coque e usar óculos ao invés de lentes de contato.

 

- Mesmo assim estou achando esta sua aventura muito arriscada. Tenha o bom senso de desistir, Lizzy. Depois você pensou qual será a vantagem de obter informações desta maneira clandestina? Nunca poderá escrever sobre elas. Não, Lizzy, desista desta loucura e trate de arranjar outro assunto menos complicado para sua próxima matéria.

 

- Não vou desistir Charlotte, ando obcecada pela estória de vida de Lady Darcy. Quero saber em detalhes o que aconteceu com ela, acho estranho os jornais da época terem noticiado sua morte, mas não terem dado sequência às informações.

 

- Mas se você mesma disse que o inquérito policial concluiu que ela morreu de infarto, os jornais se desinteressaram pelo assunto.

 

- Terá sido mesmo por infarto?  Eu tenho cá minhas dúvidas. Fico imaginando se as autoridades policiais não tenham sido pressionadas pela família Darcy a encerrar o inquérito para que algum segredo escandaloso não viesse à tona. Preciso descobrir a verdade.

 

- Esta hipótese pode ser fruto de sua imaginação. Não posso impedi-la de ir, mas acho uma loucura o que vai fazer. Então aqui vai meu conselho: tome muito cuidado, pois você poderá acabar sendo presa e eu não gostaria de ter que visitá-la na prisão.

 

- Fique tranqüila, Charlotte. Nada de mal irá me acontecer. Você não precisará me levar chocolates na prisão. Apenas me deseje boa sorte para que eu encontre as informações que estou procurando.

 

Lizzy informou suas irmãs Jane e Mary, que dividiam com ela o apartamento onde moravam em Londres, que iria passar um tempo pesquisando uma matéria no Derbyshire.  Elas não estranharam o fato porque já estavam acostumadas a estas viagens que faziam parte do trabalho da irmã.