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O anjo de Pemberley - Capítulo 3

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

A Sra. Reynolds explicou as regras da casa para os empregados e a conduziu a um pequeno quarto que ocuparia.

 

- Esta ala é usada apenas pelas empregadas, os rapazes ficam no andar de cima. Você ficará sozinha neste quarto, há um banheiro coletivo duas portas adiante à esquerda. Fornecemos um par de uniformes. – e apontou para eles cuidadosamente dobrados sobre uma das camas. – não preciso dizer que deve usá-lo sempre limpo. Quando tiver arrumado sua bagagem e se trocado volte a minha sala que irei apresentá-la às pessoas com quem você irá trabalhar diretamente.

 

O quarto de Lizzy era bastante simples, mobiliado apenas com o necessário: duas camas de solteiro de ferro, lado a lado separadas por um criado mudo, um pequeno guarda-roupas e uma cômoda.

 

Dois conjuntos de uniforme estavam dobrados sobre uma das camas. Eram uniformes pretos comuns com detalhes em bordado inglês branco na gola e na manga curta, e um avental branco que tinha como ornamento um debruado em renda.

 

Logo que terminou de desfazer sua pequena mala, guardando seus pertences, Lizzy vestiu o uniforme, e se olhou no espelho que ficava na parte interna da porta do guarda-roupa.

 

“Estou irreconhecível, como disse a Sra. Reynolds, posso ficar cara a cara com Lord Darcy e duvido que ele me reconheça.” – Disse para si mesma, satisfeita ao ver sua nova imagem.

 

Logo que Lizzy se apresentou na sala da governanta, esta a levou a um dos salões da parte social da mansão onde dois jovens, um rapaz e uma moça trabalhavam. Ela foi apresentada a Mary e John, que seriam seus colegas de trabalho e lhe explicariam o serviço em detalhes.

 

John estava encarregado de passar o pesado aspirador profissional pelo chão e ajudar Mary e Lizzy nas tarefas mais pesadas. Às moças cabia a tarefa de retirar a poeira das mobílias e dos objetos de decoração.

 

- Mary, a família Darcy costuma vir muito a Pemberley? – Lizzy se apressou em perguntar assim que teve oportunidade.

 

- São apenas dois irmãos, Lord William Darcy e sua irmã, a Srta. Georgiana. Lord Darcy vem pelo menos uma vez por mês aqui, sempre em fins de semana, para tratar de negócios com o administrador das terras. Ele é um homem lindo, você vai ver, parece um galã de cinema. Quanto à irmã, raramente aparece por aqui, ela é bastante jovem e acho que prefere ficar em Londres a se enfiar neste lugar.

 

A notícia de que fatalmente iria se encontrar com Lord Darcy em Pemberley deixou um sentimento de apreensão em Lizzy, mas ela tentou se acalmar pensando:

 

Estou me preocupando à toa. É natural que ele venha aqui, afinal é o dono desta propriedade. Mas como falei para Charlotte, dificilmente nossos caminhos irão se cruzar numa mansão deste tamanho e se cruzarem  duvido que ele me reconheça. Depois, com um pouco de sorte, posso encontrar logo as informações sobre Lady Clementine que procuro e já terei deixado este emprego na próxima vinda dele.”

 

Lizzy estava na sua segunda semana de trabalho e não conseguira descobrir nada, mas tinha certeza de que oculta entre aquelas paredes estavam guardados os segredos sobre Lady Clementine.

 

Havia algo na atmosfera de Pemberley que a fascinava e encantava. Adorava observar cada detalhe dos salões luxuosos enquanto os limpava, tudo ali era de extremo bom gosto, as finas mobílias, os raros objetos de decoração e os valiosos quadros de renomados pintores, muitos deles retratando diferentes gerações de membros da família Darcy.

 

O quadro de Lady Clementine Darcy estava exposto no antigo salão de baile, agora transformado em galeria de quadros. Lizzy sempre que podia contemplava e admirava a dama retratada num belo traje de baile em fina renda francesa. Ela era uma autêntica “rosa inglesa”, alta, loira de profundos olhos azuis e rosto de feições delicadas.

 

Os dizeres gravados numa pequena placa de bronze na parte inferior da rica moldura dourada do quadro intrigavam Lizzy.

 

Minha amada Clementine, meu anjo. O anjo de Pemberley.

 

A declaração tão amorosa só poderia ter partido de Lord Arthur, o marido. Este fato só fazia aumentar a curiosidade de Lizzy a respeito da dama.

 

**********************

 

A biblioteca era sem dúvida o aposento mais trabalhoso a ser limpo, por causa das estantes de livros que cobriam suas quatro paredes, entretanto, era o lugar preferido de Lizzy, pois tinha certeza de que era ali que poderia encontrar algum documento que a pudesse interessar.

 

- Mary, já que você detesta limpar a biblioteca, se quiser deixe comigo o serviço daqui e vá limpando a sala de visitas.

 

Mary aceitou prontamente a sugestão de Lizzy que passou a trabalhar como queria, sozinha na biblioteca, assim ela se viu à vontade para prestar atenção às lombadas dos livros. E, não resistia à tentação de fazer algo proibido, abrir sorrateiramente as gavetas para verificar rapidamente seu conteúdo, porém suas buscas resultaram infrutíferas até aquele momento.

 

O primeiro encontro entre ela e Lord Darcy aconteceu nesta biblioteca.

 

Numa manhã, Lizzy estava nos degraus superiores de uma escada limpando as prateleiras mais altas quando ele entrou.

 

Depois de um breve “bom dia”, Lord Darcy se sentou numa das poltronas e começou a ler o jornal sem se importar com a presença de Lizzy.

 

A governanta a havia instruído que pela manhã, a limpeza dos cômodos estava liberada mesmo na presença dos patrões e ela só deveria sair se recebesse ordem para tal.

 

Lizzy continuou seu trabalho, mas após algum tempo decidiu que seria melhor ir embora e deixar a limpeza para outro dia quando estivesse sozinha. A presença de Lord Darcy a incomodava e a prudência lhe dizia que quanto menos ele a visse melhor para não correr o risco de acabar sendo reconhecida por ele.

 

Ela desceu os degraus com cuidado para evitar chamar a atenção sobre si, mas quando chegou ao último degrau, o pé escorregou, ela perdeu o equilíbrio e acabou caindo ao chão, sem conseguir segurar um grito durante a queda.

 

Lord Darcy veio imediatamente em seu socorro. Ajudou Lizzy a se levantar, segurando-a firmemente pelas axilas.

 

- A senhorita se machucou? – perguntou demonstrando preocupação no tom de voz.

 

- Não...  Creio que não me machuquei... Foi apenas o susto.

 

- Mova as diferentes partes de seu corpo para verificar se não está ferida.

 

Lizzy obedeceu à ordem instintivamente, movimentando suas pernas, braços e ombros.

 

- Estou bem, foi apenas o susto.

 

A proximidade física de Lord Darcy tinha o poder de deixar Lizzy inquieta. Ele emanava uma masculinidade perturbadora, uma atração sexual que ela jamais sentira ao lado de outro homem.

 

Isto não é hora de pensar nestas bobagens. Deve ser porque ele é um homem bonito.” – pensou Lizzy e corou ao sentir o olhar enigmático de Lord Darcy fixos em seu rosto. - “Meu Deus! Será que ele está me reconhecendo?

 

- Quando subir e descer escadas deve tomar cuidado, senhorita.

 

- Sim, senhor. Obrigada. Com licença.

 

Lizzy se apressou em sair da biblioteca. Queria colocar a maior distância possível entre ela e Lord Darcy, o olhar dele a incomodava, pois tinha a impressão de haver detectado nele, um brilho de reconhecimento ou de dúvida.

 

Não, não deve ter me reconhecido. Impossível! Deve ser o meu medo que me fez ver perigo onde não há.” – pensou Lizzy e para seu alívio não viu mais Lord Darcy durante aquele final de semana.

 

***********************

 

O tempo passou e Lizzy estava começando a desanimar, pois não havia encontrado absolutamente nada relacionado à Lady Clementine em parte alguma da mansão, a única coisa que parecia existir dela ali era o magnífico retrato exposto na galeria de quadros. Ela já estava pensando em desistir e ir embora, quando a Sra. Reynolds veio com a ordem de fazer a limpeza do sótão.

 

- O que está guardado lá? – perguntou Lizzy a Mary.

 

- Há de tudo, móveis antigos, quadros e todo o tipo de velharias que as pessoas não usam mais, mas que têm pena de jogar fora.

 

- Deve ser um horror limpar os objetos pequenos acumulados de pó.

 

- Felizmente estes foram embrulhados e guardados em baús e não vamos precisar limpá-los por dentro, apenas tirar a poeira de fora. A limpeza do sótão é feita duas vezes ao ano, então a poeira não é muita porque as janelas ficam todas fechadas. Imagine que há baús com objetos pertencentes a membros da família que viveram no século passado, não sei porque ficam guardando aquelas velharias, por mim vendia tudo para as lojas de antiguidades que pagam uma fortuna por elas.

 

- Como você sabe que guardam objetos tão antigos?

 

- Porque a Sra. Reynolds é muito organizada e etiquetou todos os baús relacionando seu conteúdo e o nome da pessoa a que pertenceram com a data em que ela viveu, pois assim fica mais fácil saber o que cada um contém.

 

Lizzy se entusiasmou com as informações de Mary, algo lhe dizia que finalmente encontraria, dentro de algum daqueles baús, o que tanto procurava.  Mas apesar de seu otimismo o desânimo tomou conta dela ao ver o sótão pela primeira vez, ele era bem grande e havia muitos baús encostados às paredes e empilhados por ordem de tamanho. Seguindo o procedimento habitual, John passou o pesado aspirador industrial pelo chão e deixou para Lizzy e Mary o trabalho de passar pano úmido para remover a poeira dos objetos.

 

Como Mary lhe havia dito, em cada baú havia realmente uma etiqueta discriminando o seu conteúdo. Enquanto tirava a poeira, Lizzy lia as identificações em busca daquilo que a interessava, um baú que contivesse os pertences de Lady Clementine. Ela já estava quase desanimando quando viu um pequeno baú no alto de uma pilha e nele sua etiqueta dizia: “Lady Clementine Darcy – 1888, objetos do toucador.”

 

Finalmente Lizzy encontrara o que tanto procurava, mas ela não tinha como abrir o baú na presença de Mary. Ao final da tarde as duas mulheres terminaram de remover a poeira objetos, mas ainda ficou faltando passar um pano por toda a superfície do sótão, tarefa que ficaria para o dia seguinte.

 

Lizzy aguardou ansiosamente a noite chegar e a casa inteira ficar silenciosa. Quando havia apenas empregados na mansão, às dez horas todos se recolhiam a seus quartos, pois o trabalho diário começaria cedo pela manhã. Ela esperou mais uma hora, andando de um lado para outro em seu pequeno quarto, para garantir que todos estivessem dormindo.

 

Às onze horas, saiu sorrateiramente sem acender nenhuma luz em seu caminho até o sótão. Nos locais mais escuros, acendia a lanterna que levava consigo na luz mais fraca e andou cautelosamente tomando todo cuidado para não fazer nenhum ruído que pudesse ser ouvido por alguém que ainda estivesse acordado.

 

Ao entrar no sótão, a escuridão do ambiente a assustou, mas Lizzy se encheu de coragem, não podia perder a oportunidade de encontrar alguma informação sobre Lady Clementine por causa de medo do escuro.

 

Acendeu a luz do sótão e foi direto para o pequeno baú que descobrira durante o dia, Lizzy abriu sua tampa e começou a examinar o seu conteúdo.

 

Lá estavam guardados os tais “objetos de toucador” que haviam pertencido a Lady Clementine, provavelmente recolhidos naquele baú após sua morte para remover sua passagem por aquela casa, tais como pentes, escovas de cabelo e um porta-perfume feito de fino cristal lapidado, leques, um lenço de cambraia bordada entremeada de fina renda amarelada pelo tempo e dois livros.

 

Lizzy pegou um dos volumes pensando se tratar de algum romance, pois estava encadernado em fina pelica e tinha belo desenho de rosas em dourado, num admirável trabalho de um artesão vitoriano, mas ao abri-lo viu que não se tratava de um romance, mas de um diário.

 

“Este diário pertence a Clementine Radford.”

 

Estava escrito numa caprichada caligrafia elegante e feminina. Lizzy acabava de encontrar um diário de Lady Clementine e havia dois volumes deles. Era a recompensa por todo o sacrifício que fizera até então.

 

Lizzy decidiu levá-los para ler com calma as informações preciosas que eles deveriam conter sobre o dia a dia e os pensamentos da dama. Fechou cuidadosamente o baú e retornou ao seu quarto sorrateiramente carregando junto ao peito os dois preciosos volumes.

 

Ao chegar a salvo de volta ao seu quarto, Lizzy respirou aliviada por ter obtido sucesso na sua empreitada, não queria nem pensar se alguém a descobrisse se esgueirando no meio da noite pelos corredores e escadas em direção ao sótão. Não teria nenhuma explicação razoável a dar e certamente sua vida estaria bastante encrencada.