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O anjo de Pemberley - Capítulo 4

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Foi com reverência e emoção que Lizzy leu a primeira página do diário de Lady Clementine Darcy.

 

Londres, 12 de março de 1878.

Cheguei ontem a Londres para minha apresentação à rainha e à sociedade que acontecerá daqui a um mês, no dia 12 de abril.

Comprei este lindo diário numa papelaria da Bond Street, quando fui às compras com minha mãe hoje à tarde, quis iniciar um novo diário para escrever sobre esta nova etapa de minha vida.

Confesso que estou ansiosa por tudo que esta temporada está reservando para mim.

Quero frequentar a sociedade, conhecer muitas pessoas, e encontrar o meu príncipe encantado, o homem que será o grande amor de minha vida: um jovem cavalheiro elegante, bonito e espirituoso. Vamos nos casar, ter muitos filhos e viver uma vida de sonhos para todo sempre.

Só não quero me casar como a maioria das jovens da aristocracia através de um casamento arranjado pelos pais visando interesses das famílias.

 

Parecia que as lacunas deixadas pelas poucas informações que Lizzy havia obtido através da leitura dos jornais sobre a vida de Lady Clementine iriam ser preenchidas à medida que ela lesse o diário que revelaria em detalhes a rotina e os sentimentos da jovem vitoriana. Quem era. Como vivera. A quem amara. E o que acontecera com ela.

 

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 Inglaterra 1878


 

Lady Clementine Radford era a filha caçula dos cinco filhos dos Condes de Windermoor: três rapazes e duas moças.

 

Ela havia sido criada na propriedade rural da família no Lincolnshire, desfrutando uma infância e adolescência de privilégios, cercada de luxo e conforto, mas com pouca atenção e carinho dos pais que haviam entregue a educação dos filhos aos empregados e passavam a maior parte do tempo em Londres ocupados com seus próprios afazeres. A mãe era uma das figuras de proa da alta sociedade e o pai sempre mergulhado na política, nos negócios e nos lazeres próprios dos cavalheiros da época.

 

Lady Clementine e a irmã mais velha foram educadas por uma rigorosa preceptora, que lhes ensinou a ler e a escrever, a falar francês e alemão, idiomas em voga na época, a desenhar e pintar, bordar, enfim as prendas comuns às jovens aristocratas. Quanto aos seus três irmãos, foram educados por um tutor até atingirem a idade de serem mandados para um internato e daí direto para a universidade.

 

Quando completou 18 anos, ela foi levada a Londres para ser apresentada à corte e à rainha. Esta apresentação ocorria durante a temporada, a famosa [i]Season[/i] londrina, que ia de abril, com a abertura do Parlamento, até o final de junho, quando se iniciavam as férias de verão que as famílias nobres costumavam passar em suas propriedades no campo.

 

A temporada apelidada como “mercado de casamento”, era a oportunidade que os pais tinham de apresentar à sociedade suas filhas em idade casadoura, a fim de que elas pudessem arrumar marido.

 

Um bom casamento representava a única opção para as jovens da época, pois as profissões femininas eram escassas e reservadas apenas às mulheres pobres.

 

Como sempre ocorre, as jovens mais belas e as mais ricas alcançavam rapidamente o objetivo e se casavam com os melhores partidos. As feias ou aquelas com pequeno dote tinham que amargar outras temporadas até conseguirem encontrar um par ou por fim se conformar com a condição de solteironas, vivendo de favor na casa de algum parente, geralmente um irmão quando os pais faleciam.

 

Londres na temporada se transformava num frenesi de festas de todas as espécies patrocinadas pelas famílias aristocráticas que abriam suas ricas mansões para bailes, jantares e reuniões de todo tipo. Havia concertos das grandes orquestras européias e companhia de óperas e balé que se apresentavam nos seus principais teatros. Mesmo durante o dia a agitação era grande com os aristocratas passeando a pé, de cabriolé ou a cavalo pelo Hyde Park, participando de “picnics” em Greenwich e promovendo festas nos jardins à tarde quando o tempo permitia.

 

Toda esta maratona social tinha por objetivo divertir a aristocracia ociosa e dar a oportunidade de ver e ser visto.

 

 

Londres, 12 de abril de 1878

Hoje é o grande dia de minha vida.

A apresentação à rainha aconteceu pela manhã. Foi a etapa mais temida por causa do rígido protocolo real, mas felizmente correu tudo bem. Embora eu tremesse inteira por dentro não cometi nenhuma gafe na presença de sua majestade, respondi corretamente às perguntas que ela me fez e fiz minha reverência de maneira correta e graciosa, segundo minha madrinha que me acompanhou.

A noite haverá um grande baile aqui em casa quando meus pais me apresentarão à sociedade.

Meu pai acabou de me chamar para uma conversa na biblioteca. Ele queria saber como havia sido minha apresentação à rainha e depois me comunicou algo que eu temia:

- Clementine, convidei para o baile desta noite uma pessoa especial, filho de um grande amigo, Lord Arthur William Darcy, a quem quero que você dê atenção especial.  Ele é um homem sério que veio participar desta temporada com a intenção de encontrar uma esposa. Não preciso dizer que ficaria muito feliz se você fosse a escolhida. Lord Darcy possui todos os requisitos que uma jovem possa desejar num marido: é muito rico, bem apessoado e pertence a uma das mais importantes famílias do reino.

Concordei com a ordem dada por meu pai como todos nós sempre fazíamos. Ele podia se tornar bastante truculento quando contrariado. Não tive sequer coragem de perguntar a idade deste cavalheiro, mas tenho a impressão de que ele é um aristocrata velho, autoritário e arrogante como meu pai, em nada parecido com o príncipe de meus sonhos.

Parece que toda a alegre expectativa que eu sentia por este baile terminou depois desta conversa. Sinto que, como para a maioria das jovens, meu destino está traçado, e assim vou ter que me submeter a um casamento arranjado por meu pai. 

 



O baile oferecido pelos Condes de Windermoor foi um dos grandes acontecimentos sociais daquela temporada.

 

A iluminação de centenas de velas dava à residência nobre um ar romântico e sofisticado para receber os convidados escolhidos entre as melhores famílias que participavam da temporada londrina.

 

Clementine, como era esperado, foi o centro da festa e brilhou com sua beleza e graça. Ela era uma jovem alta com as feições do rosto delicadas, olhos azuis profundos numa pele branca sem manchas, emolduradas por lindos cabelos dourados, uma autêntica “rosa inglesa”.

 

A maioria dos rapazes solteiros estavam ávidos em lhe prestar homenagem e ganhar sua atenção. A fama de sua beleza já havia corrido a cidade e ela estava sendo considerada a mais bela debutante daquele ano. Somava-se a isto o fato dela pertencer a uma família rica e influente e principalmente ao belo dote que levaria com o casamento.

 

Lord Arthur Darcy foi apresentado a Clementine por seu pai na fila de cumprimentos formada no hall de entrada da residência dos Windermoor.

 

Foi um choque ao vê-lo se aproximar mancando da perna direita apoiado numa elegante e fina bengala com cabo de prata lavrada. Apesar disto, ele era um homem imponente, bonito e elegante, mas era velho como Clementine imaginara, aparentava ter passando dos trinta, e parecia muito sério e reservado para o seu gosto.

 

”Pode ser que ele tenha sofrido algum acidente e esteja mancando temporariamente.” – pensou Clementine enquanto o cumprimentava formalmente.

 

Clementine só não conseguiu esquecer completamente Lord Darcy no decorrer do baile porque se sentiu observada por ele durante todo o tempo. Ele permaneceu sentado num canto do salão e parecia que não a perdia de vista mesmo quando estava conversando com as inúmeras pessoas que faziam questão de ir cumprimentá-lo.

 

 

Londres, 13 de abril de 1878

Meu baile foi um sucesso absoluto.

Nossa casa parecia pequena diante da quantidade de convidados que circulavam por todos os salões, foi uma festa linda.

Cheguei ao final da noite com as pernas e os pés doloridos de tanto dançar.

Conheci inúmeros rapazes, alguns muito lindos, mas nenhum me impressionou tanto como Walter Langley, ele é sem dúvida, o homem mais bonito e charmoso que já conheci. Percebi pelos seus olhares que me achou bonita, e dançou comigo as duas valsas permitidas pelas regras sociais, mas tenho a impressão que se pudesse ele teria dançado  a noite inteira comigo. Ele dança divinamente, me senti como se estivesse flutuando nas nuvens enquanto rodopiava no salão em seus braços ao som de uma linda valsa.

Ah! Fui apresentada por meu pai a Lord Darcy. Não acreditei quando o vi se aproximando usando uma bengala porque manca de uma perna. Embora ele não seja o velho caquético que eu temia, já deve ter passado dos trinta, portanto é velho, embora seja um homem bonito, alto, cabelos castanhos, olhos azuis e traços do rosto finos. Mas ele me pareceu ser um homem parecido com meu pai, e como é a maioria dos aristocratas ingleses: frio, orgulhoso e arrogante.

Fiquei sabendo por minha irmã durante o baile que este defeito na perna de Lord Darcy é algo permanente decorrente de um tiro que levou no joelho durante uma caçada quando era jovem.

Não é possível que meu pai queira que eu me case com um aleijado!

 

 

A temporada social começara para Clementine com sua ciranda infindável de festas e atividades e ela ainda não sabia que estes dois homens, Lord Arthur William Darcy e Walter Langley, iriam marcar sua vida de uma maneira profunda.

 

Clementine não atendeu ao pedido paterno e preferiu incentivar a corte que Walter Langley começou a lhe fazer. Ele era tudo o que seu coração romântico sempre sonhara: jovial, atraente, e bem humorado. A atração era recíproca. E ele não perdia a oportunidade de estar ao seu lado e cortejá-la.

 

Lord Arthur Darcy também costumava estar presente a maioria dos eventos a que Clementine comparecia, e sua presença taciturna e reservada a irritava. Ele raramente lhe dirigia a palavra, apenas costumava cumprimentá-la, mas seu olhar parecia persegui-la por todas as partes deixando-a pouco à vontade.

 

”Meu pai pode me matar, mas jamais me casarei com Lord Darcy, sinto repulsa por ele. Não poderia nunca ser sua esposa.” – pensava Clementine toda vez que se lembrava da intenção do pai em casá-la com ele.

 

Não tardaram a circular rumores sobre um provável namoro e consequente compromisso entre Lady Clementine e Walter Langley. Ela foi imediatamente advertida por sua mãe.

 

- Clementine, eu não estou vendo com bons olhos este seu flerte com Walter Langley. As pessoas já estão começando a comentar, saiba que estes namoricos tolos podem comprometer sua reputação.

 

- Minha mãe, não estou fazendo nada de errado.

 

- Não sei se você está sabendo que Walter Langley, apesar de sua fina estampa, está longe de ser um bom partido.

 

- Mas o pai dele é um barão...

 

- ...Que dilapidou a fortuna da família nas mesas de jogo e o que é pior deixou de honrar estas dívidas ficando por isto muito mal visto na sociedade. Os filhos agora buscam através de casamentos vantajosos reaverem a posição e a fortuna da família que foram perdidos.

 

- Minha mãe, eu não creio que Walter esteja me cortejando apenas tendo em vista meu dote, tenho certeza de que ele sente afeição por mim.

 

- Filha, você é muito jovem e ingênua. O que um jovem como este poderá lhe oferecer? Nada, apenas uma vida de privações. Siga meu conselho: esqueça Walter Langley e comece a dar atenção a Lord Darcy, já percebi que ele não tira os olhos de você.

 

- Mamãe, não sinto atração nenhuma por ele, para começar eu o acho muito velho para mim...

 

- Ele tem 33 anos, não é velho, vocês têm apenas uma diferença de 15 anos. O que não é muito para um casal.

 

- ... E aquele defeito na perna.... Ele nem pode dançar e a senhora sabe o quanto gosto de dançar...  Também não gosto do seu jeito sério e calado, enfim nada nele me agrada.

 

- Para o seu próprio bem é melhor começar a aceitá-lo e gostar dele, pois seu pai está determinado a casá-la com ele. E você sabe que todos nós sempre acabamos fazendo o que ele quer. Siga o exemplo de sua irmã que está muito bem casada com o homem que seu pai escolheu.

 

Após esta advertência materna, Clementine notou que a convite de seu pai, Lord Arthur Darcy passou a acompanhar a família a todos os eventos sociais a que compareciam e era constantemente convidado para jantar com a família. Estes fatos só fizeram aumentar o antagonismo de Clementine contra ele. Ela o tratava com cortesia e atenção, como mandavam as regras da boa educação, mas começou a odiá-lo em silêncio.

 

Apesar da declarada oposição dos pais contra Walter e da presença constante de Lord Arthur, Clementine sempre conseguia burlar a vigilância sobre si e encontrava uma maneira de conversar com Walter e principalmente dançar e flertar com ele durante os bailes. A vida parecia-lhe perfeita quando rodopiava pelos salões em seus braços e em sua ingenuidade acreditava que nada poderia dar errado em sua vida.

 

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Lizzy foi obrigada a interromper a leitura do diário vencida pelo cansaço, seus olhos se recusavam a continuar abertos e ela foi derrotada por um sono pesado e sem sonhos, sendo despertada poucas horas depois pelo som insistente do despertador. Começava um novo dia de trabalho em Pemberley.