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O anjo de Pemberley - Capítulo 5

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Nos dias que se seguiram Lizzy passava o dia inteiro trabalhando ansiosa, não via a hora de poder voltar ao seu quarto à noite e continuar  lendo o diário de lady Clementine e ficava até madrugada mergulhada em sua leitura. Fazia anotações com medo de esquecer algum detalhe que seria importante na hora que fosse redigir a matéria, mas estava achando esta tarefa quase desnecessária, pois tinha a impressão de que conseguiria se lembrar de toda a narrativa sem precisar recorrer a nenhum lembrete.

 

A estória de Lady Clementine era envolvente e apaixonante. Ela revelava ter atrás de sua fachada de frágil e romântica jovem vitoriana, uma personalidade forte que ousou desafiar a vontade paterna perseguindo o seu sonho de viver um grande amor.

 

Triste era a condição feminina naquela época, a mulher tinha que estar sempre sob a proteção de um homem, primeiro do pai e depois do marido, e quando casada seu papel principal era a de ser uma mera reprodutora de filhos e se fosse bela ser exibida com orgulho pelo marido como um troféu.

 

Lizzy agradeceu a Deus por estar vivendo num século em que as mulheres já haviam alcançado seu espaço no mercado de trabalho, fato essencial para sua libertação.

 

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A presença constante de Lord Arthur Darcy junto à família do conde significava para os rígidos códigos de conduta vitorianos que estava para ser anunciado algum compromisso entre Lord Darcy e a filha solteira da família. Este fato foi afastando os demais pretendentes e admiradores de Clementine, inclusive Walter Langley, para desespero dela.

 

Uma noite durante um baile, quando Clementine imaginava que tudo estava perdido para ela, pois até o número de convites para dançar havia diminuído e ela se via muitas vezes sentada junto às matronas apenas observando os casais que dançavam, eis que Walter a tirou para dançar.

 

- Estou ouvindo rumores de que a senhorita logo ficará noiva de Lord Darcy.

 

- São apenas rumores, não é verdade. Esta é a vontade de meu pai, mas está longe de ser a minha.

 

Walter a tirou mais tarde para uma segunda dança, foi quando discretamente depositou um bilhete em sua mão enquanto evoluíam ocultos em meio a uma multidão de pares no salão.

 

“Encontre-me amanhã às 7 horas no Hyde Park junto ao deck de barcos da Serpentine. Seu fiel admirador. Walter.”


Um encontro clandestino num horário em que o parque estaria deserto, pois os conhecidos ainda estariam dormindo exaustos pela atividade social da véspera.

 

Clementine não conseguiu pregar os olhos a noite inteira diante da excitação do encontro, com medo de dormir e perder a hora. Foi se encontrar com Walter, acompanhada de sua criada de quarto burlando a vigilância de seus pais que ainda dormiam.

 

 

Quando Clementine chegou ao parque, Walter já a aguardava caminhando de um lado para outro às margens do lago. Após as saudações iniciais, ele ficou intencionalmente segurando a mão da jovem que  beijou longamente causando arrepios em sua espinha.

 

- Obrigada por ter atendido ao meu pedido e desculpe os transtornos que posso ter lhe causado, mas precisava muito conversar com você em particular. Esta foi a única maneira que encontrei.

 

Walter conduziu a jovem a um recanto mais recluso do parque entre as árvores para terem um pouco mais de privacidade, embora ele estivesse deserto àquela hora da manhã.

 

A criada que acompanhava Clementine os seguiu, mas permaneceu discretamente a uma boa distância do casal, como sua patroa havia ordenado.

 

- Comentam em sociedade que Lord Arthur irá pedi-la em casamento. Isto é verdade Clementine? – Havia um tom de inquietação na voz de Walter que comoveu a jovem e encheu seu coração apaixonado de alegria.

 

- Temo que sim. Meu pai quer que ele seja seu genro a todo custo. O falecido pai de Lord Darcy foi um grande amigo de meu pai.

 

- Ele é imensamente rico, sua família poderosa. É um partido muito cobiçado, dizem que um dos melhores desta temporada, é natural que seu pai o queira por genro.

 

- Isto não tem a menor importância para mim porque não o amo. Aliás, eu o detesto.

 

- Quer dizer que posso ter esperanças? Estou desesperado! Quero que saiba, Clementine, que a amo muito e gostaria de ser correspondido. Meu grande sonho é torná-la minha esposa.

 

- Oh! Walter, eu também o amo. Você não sabe o quanto sua declaração me faz feliz, era tudo o que eu esperava ouvir.

 

O coração de Clementine batia acelerado dentro do peito, não poderia haver felicidade maior do que ser correspondida em seu afeto por este jovem bonito, alegre e charmoso, tão diferente do pretendente que seu pai queria obrigá-la a aceitar.

 

As árvores do Hyde Park testemunharam os primeiros beijos e juras de amor que os namorados trocaram.

 

 

Londres, 10 de maio de 1878

Hoje pela manhã me encontrei às escondidas com Walter no Hyde Park. Foi tão excitante sair de casa enquanto todos dormiam desafiando ser descoberta. Foi a primeira vez que fiz algo tão temerário na vida.

O sacrifício valeu a pena porque Walter declarou que me ama e eu também confessei o meu amor por ele. Troquei com ele meu primeiro beijo, foi uma sensação maravilhosa! Existe algo tão sublime como estar nos braços fortes do homem amado sentindo a carícia de seus lábios macios?

Combinamos que daqui para frente vamos fingir para a sociedade que nosso flerte terminou, agiremos como se fôssemos apenas bons amigos, mas continuaremos a nos ver às escondidas pelas manhãs no parque.

Walter prometeu que irá dançar comigo uma valsa nos bailes para mostrar a todos que continuamos amigos. Disse a ele que faço questão de dançar sempre com ele, pois não existe ninguém no mundo que dance como Walter. É emocionante! Estou parecendo uma das heroínas dos romances que leio.

Não corro perigo algum de ser reconhecida nestes encontros no parque porque ele está completamente deserto a estas horas da manhã. As raras pessoas que passam nem reparam em nós, são geralmente empregados das mansões que caminham apressados em direção ao trabalho.

Meu coração exulta de felicidade: estou amando e sou amada! Nada mais tem importância no mundo para mim.

 

 

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Algum tempo depois, quando Clementine descansava em seu quarto à tarde, sua criada entrou dizendo que seu pai a chamava na biblioteca.

 

Clementine temeu pelo pior: teria ele descoberto seus encontros secretos com Walter Langley no Hyde Park?

 

A expressão facial e o tom irritado da voz de seu pai revelavam o quanto estava zangado, mas felizmente o que Clementine temia não havia acontecido.

 

- Quero saber porque você está me desobedecendo e não está dispensando uma atenção especial a Lord Darcy?

 

- Meu pai sempre fui atenciosa com ele.

 

- Não se faça de tonta, você sabe muito bem a que tipo de atenção estou me referindo. Se você tivesse agido como mandei a estas horas Lord Darcy já teria pedido sua mão em casamento, mas ele está esbarrando na sua indiferença, pois da parte dele já percebi que ele gostou de você.

 

- Mas eu não simpatizo com ele, não consigo gostar do jeito dele... Acho que não daria certo eu me casar com ele.

 

- Lá vem você com estas bobagens de jovem romântica. Aprenderá a gostar dele quando estiver casada. Ponha uma coisa em sua cabeça de jovem tola, nos casamentos de nossa classe social o amor é o que menos conta, há interesses mais importantes a serem considerados.

 

- Se pelo menos ele não tivesse aquele defeito! – Clementine tentou argumentar na esperança de convencer o pai a desistir de seu projeto.

 

- Reconheço que aquele defeito na perna de Lord Darcy não é atraente, mas é apenas um detalhe insignificante. O que realmente importa é que ele é rico, sua família poderosa e influente. O que mais uma jovem pode querer num marido?

 

Clementine tinha vontade de continuar contestando, discutir as ordens paternas até convencê-lo a livrá-la deste fardo, mas lhe faltou coragem ao notar que os maxilares do pai tremiam, sinal de que estava ficando exaltado e ele era conhecido pela violência com que costumava tratar sua família e seus empregados quando contrariado, ela mesmo testemunhara várias vezes o pai espancando seus irmãos e alguns criados desobedientes.

 

A vida de Clementine continuou seguindo a trilha de festas e bailes da temporada, a presença constante de Lord Darcy e os encontros clandestinos com Walter no parque. Ela continuou descumprindo as ordens paternas porque simplesmente não conseguia demonstrar um fingido entusiasmo por Lord Darcy, seu comportamento para com ele era educado, porém frio.

 

Foi quando num de seus encontros matinais com Walter em meio a beijos e juras de amor eterno ele lhe fez uma proposta inesperada:

 

- Clementine, vamos fugir e nos casar. Será a única forma de ficarmos juntos para sempre.

 

- Fugir...? Casar...?

 

- Não tem coragem? Não me ama o suficiente para cometer uma loucura de amor por mim?

 

- Sabe que eu o amo, Walter, mas acho que não teria coragem de fugir contrariando meus pais e desafiando a sociedade.

 

- Estarei ao seu lado para lhe dar coragem e seria a maior prova de amor que você poderia me dar. Iremos para Gretna Green(*) e voltaremos casados.

 

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(*) Gretna Green é uma pequena cidade escocesa na fronteira com a Inglaterra, famosa por realizar casamentos sem trâmites burocráticos como as proclamas e em Gretna as mulheres menores de 21 anos não precisavam da autorização paterna para se casar, por isso ela era muito procurada por casais fujões na Regência e na era Vitoriana.

 

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- Walter, você não conhece meu pai, ele irá nos matar se cometermos esta loucura.

 

- Não acredito que ele fará isto. Afinal voltaremos casados e ele terá que nos dar sua benção e aceitar o fato consumado.

 

- Ele jamais nos dará sua benção. Você não conhece meu pai, ele é muito violento e rancoroso. Tenho muito medo das conseqüências que sofreremos.

 

- Meu amor, se eu pedir seu pai jamais dará o consentimento para nosso casamento, por isto não vejo outra forma de ficarmos juntos a não ser fugindo, temos que impor nossa vontade e esta será a única saída que vejo para nós. Se você não tiver coragem sabe que acabará se casando com Lord Darcy. É o que quer?

 

- Não, você sabe que não é isto que quero. Quero me casar com você.

 

- Vou lhe dar tempo para pensar na minha proposta. Se responder “não”, irei me afastar de você para sempre, pois não quero mais viver a tortura de saber que nunca poderá ser minha. Agora se tiver coragem para fugir comigo, vou preparar tudo e logo estaremos partindo para a Escócia de onde voltaremos casados. Pense com bastante carinho na minha proposta. Prometo fazê-la a mulher mais feliz do mundo, Clementine.

 

- Vou pensar, Walter.

 

Clementine voltou para casa cheia de dúvidas, pela primeira vez na vida tinha que tomar uma decisão realmente séria. Caso escolhesse fugir com Walter iria contrariar frontalmente a vontade paterna e as rígidas normas sociais sob as quais vivera até então. Ela amava Walter profundamente, confiava nele, mas tinha medo de enfrentar esta aventura temerária que ele lhe propunha.

 

Foi então que os acontecimentos se precipitaram.

 

 

Londres, 23 de maio de 1878.

Hoje aconteceu o que eu mais temia, Lord Darcy veio pedir minha mão em casamento. Foi à tarde durante o garden party (festa no jardim) na casa de Lady Darlington, fazia muito calor e eu estava descansando sozinha num canto do jardim e devo ter cochilado, pois quando abri os olhos ele estava parado em frente a mim.

Lord Darcy fez alguns comentários sobre a bela reunião e em seguida sem maiores preâmbulos foi direto ao assunto:

- Lady Clementine, a senhorita já deve ter notado a admiração que sinto por sua pessoa. Eu me sentirei honrado se aceitar meu pedido de casamento.

Confesso que este pedido tão abrupto me chocou, num primeiro impulso pensei em recusar dizendo-lhe honestamente que não poderia me casar com ele porque não o amava, mas temi as conseqüências da ira de meu pai quando viesse, a saber, de minha negativa.

Acabei dizendo “sim” e assim quando menos esperava, estava noiva de Lord Darcy. Ele se apressou em procurar meu pai para formalizar o pedido e o anúncio de nosso noivado foi feito durante o baile desta noite. Estou perdida!

Recebi de Lord Darcy um belíssimo anel de noivado feito de brilhantes e esmeraldas, uma valiosa jóia antiga, usada por várias gerações de noivas de sua família.

Não houve nenhuma declaração de amor porque não existe amor em nosso compromisso, é claramente um casamento de conveniência de ambas as partes.

Fiquei surpresa com as palavras de Lord Darcy quando colocou o anel em meu dedo:

- Obrigado Lady Clementine. Prometo que serei um esposo fiel e dedicado, meu desejo é fazê-la feliz. - disse baixinho para que apenas eu o ouvisse.

“ Feliz! Como poderei ser feliz ao lado de um homem que não amo!” - pensei.

 

 

Clementine, desesperada, mandou através de sua criada de quarto um bilhete marcando encontro com Walter.

 

O noivado com Lord Darcy a fizera tomar a decisão que ela vinha protelando. Ela iria desafiar sua família e a sociedade fugindo com Walter Langley. Iria se casar e viver com ele um grande amor, não faria como a maioria das jovens de sua classe social que amargavam as agruras de um casamento de conveniências. Era jovem, queria e merecia ter seu quinhão de felicidade.

 

Walter preparou a fuga de ambos para dali a três dias.

 

Clementine, com a ajuda de sua fiel criada de quarto, saiu sorrateiramente de casa de madrugada, enquanto a família inteira dormia, carregando apenas uma pequena valise com algumas roupas e objetos pessoais. Deixava para trás uma vida segura e protegida e foi ao encontro do namorado que lhe prometia amor e romance.

 

A carruagem que Walter alugara a aguardava numa travessa próxima a sua casa, após ajudá-la a se acomodar, Walter deu ordem ao cocheiro para que iniciasse a viagem enquanto abraçava o corpo trêmulo de sua namorada depositando beijos por todo o seu rosto frio.

 

- Estamos salvos, meu amor.

 

A longa jornada que os levaria a Gretna Green se iniciara. À medida que a carruagem ia se distanciando de Londres em direção ao norte, Clementine foi se acalmando e começou a encarar sua aventura com um pouco mais de otimismo, nada poderia dar errado agora que ela estava a caminho de realizar seu sonho ao lado do homem que amava.

 

Após viajarem o dia todo parando em estalagens à beira da estrada apenas para as refeições e a troca dos cavalos, o casal foi obrigado a pernoitar numa estalagem à beira da estrada, pois ainda faltavam muitos quilômetros até alcançarem a Escócia.

 

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Lizzy estava surpresa com a coragem de Lady Clementine, não esperara jamais que ela fosse desafiar a vontade de um pai severo e os rígidos padrões morais da Inglaterra vitoriana e fugir para se casar com o filho de um nobre arruinado.

 

Mas um fato aguçava a curiosidade de Lizzy fazendo-a romper a madrugada mergulhada na leitura do diário, algo deveria ter dado muito errado na estória desta fuga, pois Lady Clementine havia se casado afinal com Lord Darcy.