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O anjo de Pemberley - Capítulo 6

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Alguns dias depois, a Sra. Reynolds não escondia sua felicidade ao dar a seguinte ordem a Mary e Lizzy:

 

- Deixem o quarto da Sra. Georgiana impecavelmente limpo e arejado.  Ela virá passar o final de semana com o irmão, eles chegam ao final da tarde de sexta-feira.

 

A notícia não agradou Lizzy porque a presença de Lord Darcy em Pemberley lhe era sempre incômoda por causa do medo que sentia de ser reconhecida. E desta vez algo aconteceu que a deixou bastante apreensiva.

 

No sábado pela manhã, Lizzy trabalhava na galeria de quadros quando inesperadamente Georgiana Darcy apareceu e começou a puxar conversa com ela.

 

- Olá, você é Elizabeth, a nova empregada, não é? – diante da confirmação de Lizzy, Georgiana prosseguiu. – Queria conversar com você: a Sra. Reynolds me contou que você terminou a faculdade e está trabalhando aqui num emprego temporário para financiar sua viagem por várias regiões da Inglaterra, como experiência de vida.

 

- É verdade. – Lizzy estava surpresa por ter sido alvo dos comentários da governanta com a irmã de Lord Darcy.

 

- Acho isto tão legal! Deve ser uma experiência de vida incrível. Sabe que eu gostaria de fazer o mesmo quando terminar minha faculdade.

 

- Realmente é uma excelente experiência, Srta. Georgiana. A Inglaterra é um país muito lindo e tomando cuidados básicos é muito segura.

 

- Meu problema é que William não iria aprovar que eu fizesse uma aventura deste tipo.

 

Lizzy teve vontade de dizer que ela não precisava da autorização do irmão para isto, mas preferiu se calar, pois achou melhor não ser a causadora de nenhum tipo de polêmica entre os irmãos.

 

- Eu não faria nada que pudesse contrariar e magoar William porque ele é um irmão maravilhoso e tem muito cuidado comigo. Eu tinha apenas 9 anos quando perdemos nossos pais num acidente e desde então ele tem sido um pai para mim. A senhorita entende, não é?

 

- Claro que entendo. – Lizzy respondeu um pouco surpresa com o fato de que Lord Darcy pudesse ser um irmão dedicado e amoroso.

 

- Mas me diga: quais as regiões por onde já andou? – Georgiana perguntou curiosa.

 

A fim de mentir o menos possível, Lizzy citou algumas regiões inglesas que conhecia e tratou de mudar de assunto.

 

- Sabe que a senhorita se parece bastante com a dama deste quadro.

 

- Lady Clementine Darcy é minha tataravó. Todos comentam minha semelhança com ela, acho que é porque temos o mesmo tipo físico, somos altas e loiras, mas quem me dera ser tão bonita como ela.

 

Lizzy simpatizou imediatamente com Georgiana, era simples, simpática e afável, bem diferente do orgulhoso e arrogante irmão. Gostaria até de travar amizade com ela, mas diante das circunstâncias era melhor se manter distante.

 

- Ambas são bastante parecidas e pode acreditar a senhorita é tão bonita quanto ela.

 

- Obrigada. – Georgiana corou diante do elogio parecendo verdadeiramente encabulada e continuou a falar: – Sabia que ela teve uma estória de vida fascinante? Viveu um grande amor com o marido, uma estória muito romântica algo bastante raro nos casamentos da aristocracia.

 

Lizzy não resistiu e perguntou: - Como a senhorita soube disto?

 

- Nos documentos da família, temos várias cartas da correspondência que Lord Arthur e ela trocaram ao longo de suas vidas quando eram obrigados a ficar distantes um do outro.

 

Lizzy precisou se segurar para não demonstrar sua excitação diante desta informação fornecida por Georgiana Darcy.

 

Cartas! Cartas escritas pelo casal! Era tudo que ela precisava para complementar as informações que estava obtendo no diário de Lady Clementine.

 

- Georgie...? Aí está você. – era Lord Darcy que entrava na galeria vestido num elegante traje de montaria que destacava seu porte elegante e atlético.

 

- Will, vim aqui conversar com a Srta. Elizabeth. – Lizzy pensou neste instante que estava perdida, se Georgiana fizesse menção ao assunto que conversavam sobre Lady Clementine, Lord Darcy na mesma hora ligaria os fatos e a reconheceria. - Ela terminou a faculdade e está viajando pela Inglaterra para conhecer as peculiaridades das diversas regiões. Sabe que é algo que gostaria de fazer quando terminar a faculdade? Viajar e trabalhar para aprender como é a vida real.

 

Enquanto Georgiana falava, Lizzy sentiu os olhos de Lord Darcy fixos nela, e nesse momento quis que a terra se abrisse a seus pés e pudesse desaparecer para deixar de ser o foco daquele olhar observador.

“Meu Deus, agora ele vai me reconhecer! Por que não tive o bom senso de usar um nome falso?”

Entretanto para alívio de Lizzy, Lord Darcy voltou sua atenção à irmã e disse:

 

- Conversaremos sobre isto quando você terminar a faculdade, Georgie. Agora que tal irmos cavalgar?

 

- Claro, vamos sim. Eu estava esperando você terminar de conversar com o administrador. Até logo Srta. Elizabeth, foi um prazer conhecê-la.

 

- O prazer foi meu Srta. Georgiana. – respondeu Lizzy.

 

Lord Darcy se limitou a cumprimentar Lizzy com um breve menear da cabeça sem dizer nada e deixou a galeria acompanhada da irmã.

 

Lizzy sentia suas pernas fraquejarem e seu coração batendo num ritmo acelerado e ficou um longo tempo apoiada em um console próximo até conseguir se recompor.

 

Tenho quase certeza de que ele me reconheceu! Não tirou os olhos de mim enquanto esteve aqui e com certaza não era porque estava me achando atraente.”

 

Lizzy aguardou o dia inteiro pelo pior: ser chamada por Lord Darcy, ter sua verdadeira identidade desmascarada e ser demitida de Pemberley, isto se ele não mandasse chamar a polícia.

 

Ela não havia se preocupado em se apresentar com uma identidade falsa ao se candidatar ao emprego. Considerou que como uma simples empregada as possibilidades de se encontrar com Lord Darcy seriam mínimas e dele reconhecê-la ainda mais remotas, mas parecia que a sorte não estava a seu favor, justamente agora que encontrara o diário de Lady Clementine e ainda não conseguira terminar sua leitura.

 

Foi com um profundo suspiro de alívio que Lizzy soube que Lord Darcy e a irmã haviam ido embora de Pemberley na tarde de domingo, sem que ele houvesse dado nenhum sinal aparente de tê-la reconhecido.

 

“Preciso terminar logo de ler este diário e ir embora daqui. Está se tornando perigosa esta proximidade com Lord Darcy, ele pode acabar me reconhecendo e terei problemas sérios.”

 

**************************

 

 

Logo pela manhã a própria criada de quarto de Clementine que a ajudara a fugir, avisou Lady Windermoor do desaparecimento da filha. Mais tarde pressionada pelos patrões, esta mesma criada não conseguiu esconder por muito tempo o que sabia a respeito da fuga da jovem.

 

A casa dos condes se encontrava em polvorosa quando Lord Arthur apareceu em seu cabriolé para acompanhar Clementine a um passeio ao Hyde Park como havia sido combinado na véspera.

 

O conde desesperado foi incapaz de esconder a sua agitação e seu nervosismo diante dos acontecimentos e acabou revelando ao noivo a fuga da filha com Walter Langley. Lord Darcy foi o único que manteve a calma no tumulto e ponderou:

 

- Creio que se formos rapidamente atrás deles seremos capazes de alcançá-los antes que cheguem à Escócia e impedir que aconteça o pior, fiquei sabendo da péssima reputação deste rapaz.

 

O pai de Clementine concordou em ir ao encalço da filha, mas estava tão desnorteado com os acontecimentos que deixou por conta de Lord Arthur as providências necessárias para a viagem em perseguição ao casal fujão.

 

- Lord Windermoor, eu o acompanharei, pois o senhor está sem condições de empreender esta viagem sozinho.

 

O conde concordou porque reconhecia que não estava em condições físicas e psicológicas para ir resgatar sua filha sozinho.

 

Logo ao final daquela mesma manhã, o conde e Lord Darcy partiram. Embora o casal fugitivo tivesse a vantagem de estar algumas horas à frente, a carruagem de Lord Darcy era melhor equipada e logo estavam seguindo o rastro deixado pelos namorados e alcançaram ainda no início da madrugada a estalagem à beira da estrada onde haviam se hospedado para o pernoite.

 

Um dono do estabelecimento sonolento veio atender à porta e sendo um homem experiente reconheceu imediatamente pelas maneiras, trajes e pela carruagem que os dois homens que procuravam o jovem casal de hóspedes eram pessoas poderosas a quem não seria prudente contrariar. Assim sendo, confirmou a presença do casal em sua hospedaria após consultar o livro de hóspedes e os levou pelo labirinto de corredores ao quarto que ocupavam.

 

O pouco controle emocional que o conde possuía desapareceu ao ver que a filha ocupava o mesmo quarto que o namorado, sinal evidente de que havia se entregado a ele antes mesmo do casamento.

 

- Abra esta porta, Langley, e se prepare para morrer. – foram as palavras do conde ao bater com força à porta do quarto completamente fora de si.

 

O casal já devia ter despertado pela violência dos murros desferidos na porta e pela gritaria do conde, mas acovardados nenhum deles veio abrir a porta.

 

- Acalme-se, Lord Windermoor.  – disse Lord Darcy segurando-o firmemente para que parasse de desferir golpes na porta e no processo acabasse se ferindo.

 

- Maldição! Homem, o que está esperando? Vá buscar a cópia da chave deste quarto! – gritou o conde ao dono da pousada que se apressou em atender a ordem.

 

Nesta altura dos acontecimentos a maioria dos hóspedes havia sido despertada pelo tumulto e apareciam sonolentos na porta de seus quartos para se inteirar do que estava acontecendo.

 

O dono da estalagem não tardou a voltar com a cópia da chave do quarto que abriu com a mão trêmula, temeroso pela desgraça que estava na iminência de acontecer em seu estabelecimento.

 

O conde irrompeu no quarto do casal fujão aos gritos:

 

- Onde está você, Langley?  Prepare-se para morrer!

 

Lord Windermoor vociferava ao entrar, mas apenas encontrou a filha amedrontada em pé junto à parede próxima a cama. Ela olhava, como um animal acuado, para os três homens que entraram no quarto: seu pai, seguido logo atrás por seu noivo e o dono da estalagem.  Em estado de choque, ela não conseguiu responder à pergunta paterna apenas olhava para a janela escancarada por onde Walter acabara de fugir, deixando-a sozinha à mercê da fúria paterna.

 

- Desgraçado! Além de tudo é um covarde que não soube me enfrentar como homem. Mas você, sua vagabunda, irá pagar pelo que fez. – o conde avançou em direção à filha para descarregar sobre ela toda sua ira, no que foi impedido por Lord Arthur que o segurou dizendo com firmeza:

 

- Lord Windermoor, não vou permitir que encoste um dedo em sua filha.

 

- Eu vou matá-la. Você desgraçou nossa família! – vociferava o conde no auge de sua fúria.

 

- O senhor não irá cometer nenhuma violência contra ela, lembre-se que ela é minha noiva e está sob minha proteção.

 

- Depois da pouca vergonha, da indecência que testemunhou aqui, duvido que vá manter seu compromisso com ela.

 

- Este é um assunto que discutiremos depois.

 

A atitude firme de Lord Darcy era prova clara de que ele se encontrava no comando da situação e partiu dele a ordem que a jovem recebeu:

 

- Clementine, vou pedir que uma criada venha ajudá-la a se arrumar. Iremos embora assim que estiver pronta. – dizendo isto Lord Arthur deixou o quarto levando consigo o conde.

 

Enquanto aguardavam a jovem, Lord Darcy pediu ao dono da estalagem que providenciasse algum alimento para eles numa sala reservada.

 

- Lord Windermoor, imagino como deve estar se sentindo depois de tudo que presenciou agora pouco.

 

- Por que me impediu de matar minha filha, Darcy?

 

- Porque não é desta forma que se resolve este problema.

 

- E existe alguma outra forma decente de resolvê-lo?

 

- Raciocine comigo, se sua filha voltar a Londres sem estar casada sua reputação estará arruinada para sempre, pois a esta altura o boato de sua fuga com Walter Langley  já terá se espalhado pela cidade inteira.

 

- Sei muito bem disto, Darcy, não precisa me dizer.

 

- Ainda estou disposto a me casar com sua filha, se ela assim quiser.

 

O conde levou alguns segundos para compreender a proposta do rapaz.

 

- Por que esta fazendo isto, Darcy?

 

- Tenho minhas razões que prefiro não revelar. – Diante desta resposta o conde não insistiu em querer saber seriam estas razões, o importante era que este jovem tolo continuava querendo se casar com sua filha.

 

- Se Lady Clementine concordar, podemos nos casar amanhã mesmo, aproveitando que estamos a pouca distância de Gretna. Desta forma daremos um fim aos falatórios, confundindo os boatos sobre sua fuga com Walter Langley, muitos irão pensar que a fuga foi comigo e com o casamento a reputação de sua filha estará restaurada.

 

Logo que Clementine desceu de seu quarto foi conduzida à sala onde se encontravam seu pai e Lord Arthur.

 

- Darcy, peço que me dê alguns minutos para conversar a sós com minha filha. Tem minha palavra de que não encostarei um dedo sequer nela.

 

Assim que ficou a sós com Clementine, seu pai foi logo dizendo:

 

- Clementine, você é uma jovem de muita sorte. Quando pensei que tudo estava perdido, sua reputação irremediavelmente perdida e o seu noivado com Lord Arthur rompido, eis que ele acaba de me dizer que se você aceitar, ele mantém o compromisso e melhor ainda, para evitar escândalos maiores ele propôs se casar com você amanhã mesmo em Gretna.

 

- Casar comigo amanhã?

 

- É inacreditável, mas é isto mesmo. E eu não vou permitir que você jogue fora esta oportunidade de limpar o nosso nome e de pôr um fim aos falatórios que sua falta de juízo e vergonha causou. Vai dizer “sim” a Lord Darcy e iremos para Gretna realizar este casamento, entendeu? Antes que ele se arrependa da besteira que está fazendo.

 

A postura física agressiva e a determinação de Lord Windermoor não deixaram dúvida a Clementine de que não lhe restava alternativa senão aceitar a oferta de Lord Darcy. Ela não ousaria em sã consciência desafiar o pai neste momento em que ele aparentava estar segurando a duras penas a raiva que sentia por ela.

 

O destino lhe apresentava apenas duas escolhas: aceitar um casamento sem amor com Lord Arthur ou se tornar uma solteirona. Após este escândalo todas as chances de se casar estavam perdidas para ela, seu pai se encarregaria de tornar sua vida miserável e humilhante, pois ele jamais perdoaria o seu erro. Provavelmente, seria enviada para alguma propriedade remota da família, onde iria viver confinada e esquecida, banida da sociedade para sempre.

 

- Está bem meu pai, eu me casarei com Lord Darcy. – Clementine optou pelo casamento, considerando que ao escolher entre Lord Darcy e seu pai, o primeiro lhe parecia a alternativa menos ruim. Tinha esperanças de que ele, que aparentava ser um cavalheiro a tratasse com misericórdia que sabia seu pai não possuía.

 

- Muito bem, vejo que começou a raciocinar direito. Agora Darcy quer conversar com você. Veja lá a resposta que dará a ele. – Advertiu o conde antes de sair da sala.

 

Assim que seu pai saiu da saleta, Lord Darcy entrou e sem maiores preâmbulos foi dizendo naquele seu jeito seco:

 

- Clementine, seu pai deve ter lhe esclarecido a situação, acredito que será melhor para sua reputação que nós nos casemos logo.  Se voltarmos agora a Londres e nos casarmos daqui a algum tempo, as especulações e falatórios a respeito de sua fuga irão aumentar, tornando sua vida impossível na cidade. Se você concordar podemos nos casar hoje mesmo, aproveitando que estamos a pouca distância de Gretna, desta forma calaremos de uma vez por todas as fofocas.

 

- Lord Darcy, agradeço o que está fazendo por mim. Aceito a honra de ser sua esposa. Peço desculpas por tudo que aconteceu e prometo ser sempre uma esposa obediente e fiel. – Foi a resposta de Clementine, que não se preocupou em saber as razões que levavam o noivo a querer se casar com ela apesar de tudo que havia ocorrido. Cansada ela queria ver um fim naquela provação.

 

O dia começava a clarear quando a carruagem de Lord Darcy partiu em direção à Escócia.

 

O casamento foi realizado na pequena igreja de Gretna sem pompa alguma. Um pároco entediado oficiou a cerimônia, e não demonstrou estranheza com a presença do pai da noiva, acostumado que estava com as situações mais insólitas.

 

Lady Clementine não sentiu emoção alguma ao unir sua vida a um homem que não amava. Tinha a impressão de que seus sentimentos estavam entorpecidos ou mortos, depois dos seus sonhos terem sido desfeitos. Ela procurava não pensar em seu futuro, no horror que seria a sua vida ao lado deste homem taciturno e estranho. Uma vida sem amor e sem carinho, apenas cumprindo suas obrigações de esposa.

 

Assim que a cerimônia terminou os recém-casados e o conde deixaram a Escócia,  viajando para a propriedade do noivo no Derbyshire.

 

 

Old Oak Inn, 04 de  junho de 1878.

Hoje, contrariando todas as minhas previsões, eu me casei com Lord Arthur William Darcy, numa cerimônia simples em Gretna Green.

É estranho pensar que não sou mais Clementine Radford, nem Clementine Langley, como um dia esperei me chamar, mas Lady Clementine Darcy.

Estamos a caminho do Derbyshire para a propriedade de Lord Darcy, de lá meu pai retornará para Londres numa carruagem emprestada pelo genro.

Neste momento estou escrevendo do meu quarto na estalagem à margem da estrada onde passaremos a noite. Esta seria a minha noite de núpcias, mas para meu alívio Lord Arthur deu a entender que hoje não irá exigir de mim meus deveres de esposa. Logo após o jantar na sala privativa de nossos aposentos, ele disse: “Vá descansar Clementine, procure dormir porque amanhã ainda teremos outro dia cansativo de viagem. Tenha uma boa noite.” E se retirou para seu quarto.

A viagem de Gretna até aqui foi longa e penosa. Lord Arthur, meu pai e eu ficamos o tempo todo em silêncio, cada qual mergulhado em seus pensamentos. Senti muitas vezes os olhos azuis enigmáticos de meu marido (como é estranho pensar que ele é meu marido!) fixos sobre mim.

Não consigo imaginar como será minha vida de casada ao lado deste homem, pois ele é para mim uma verdadeira incógnita.

Não entendo porque me defendeu da fúria de meu pai quando me encontrou no quarto que eu dividia com Walter. Se não fosse sua intervenção firme, certamente meu pai teria me matado ali mesmo. E, entendo menos ainda porque se casou comigo. Ele teria toda a razão naquele momento de desfazer nosso noivado e nunca mais desejar sequer me ver.

Apesar deste problema na perna, não lhe faltavam pretendentes. Eu mesma vi muitas jovens flertando com ele durante as festas da temporada. Tenho que reconhecer que ele é um belo homem, alto e elegante, seu rosto tem feições harmoniosas e bem masculinas.

Meu sonho de amor e felicidade teve uma vida tão curta e está destruído para sempre!

O que me machuca é o fato de ter descoberto que Walter Langley não era o herói romântico que idealizei. Ele foi um covarde que me abandonou sem me proteger e defender contra a fúria de meu pai, fugindo pela janela do quarto, deixando-me sozinha entregue a minha própria sorte. Ele me decepcionou completamente, pois não agiu nem como cavalheiro, nem ao menos como homem!

Lord Darcy tem me tratado com a mesma deferência, provando ver um verdadeiro cavalheiro. Mas continua como sempre taciturno e sombrio, falando apenas o necessário para que seu silêncio não pareça grosseria e respondendo às perguntas que lhe são feitas com economia de palavras.

Embora seja grata por tudo que ele me fez, sinto que jamais virei a amar este homem. Ele é totalmente o avesso do marido que idealizei para mim, romântico e amoroso. Aliás, acho que após a decepção que sofri com Walter, sinto que jamais voltarei a amar alguém.