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O anjo de Pemberley - Capítulo 7

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

 

 

O silêncio reinou no interior da carruagem de Lord Darcy na maior parte da viagem de Gretna para o Derbyshire, o que a tornou ainda mais demorada e monótona. Apenas o conde, satisfeito e aliviado com o desfecho que o episódio da fuga da filha tomara, procurava puxar assunto com o novo genro que respondia de maneira polida, porém breve, voltando a ficar calado e perdido em seus pensamentos sempre que podia.

 

Clementine, vencida pelo cansaço dos últimos dias, procurou aproveitar o silêncio reinante e  tirava pequenas sonecas no desconforto da carruagem que sacolejava a maior parte do tempo devido às estradas esburacadas.

 

Chegaram finalmente à propriedade de Lord Darcy ao entardecer após um dia inteiro de viagem.

 

A primeira visão de Pemberley surpreendeu Clementine.  Embora ela estivesse acostumada com a rica mansão de seus pais no Lincolnshire, a beleza e suntuosidade daquela que seria sua nova morada superaram em muito suas expectativas.

 

Agora entendo o empenho de meu pai para que eu me casasse com Lord Darcy, a fortuna dele é enorme, muito maior do que eu esperava, mas toda esta riqueza não significa que ele me fará feliz.

 

Os viajantes, que não estavam sendo esperados, foram recepcionados apenas pelo mordomo e pela governanta, Sra. Mitchell, que após as apresentações ficou encarregada por Lord Darcy de apresentar a mansão a sua nova patroa. 

Clementine admirou os amplos salões finamente mobiliados e decorados com objetos de arte vindos de todas as partes do mundo, com as paredes cobertas com belos quadros de artistas renomados, mas o que mais a encantou foram as vistas que se tinham das janelas dos jardins floridos e bosques que se estendiam por onde a vista podia alcançar e que neste período do ano se apresentavam em toda a sua pujança em todos os matizes de verde.

 

 

A Sra. Mitchell deixou para mostrar por último aqueles que seriam os aposentos particulares de Lady Clementine, que as criadas arrumavam às pressas. Eles consistiam no quarto propriamente dito e de uma saleta anexa que se comunicavam internamente com o quarto de Lord Darcy.

 

- Este quarto pertenceu à falecida mãe de Lord Darcy, espero que seja de seu agrado.

 

- Claro que sim, é um quarto lindo!

 

- Vou mandar Dorothy subir, ela será sua criada de quarto, se não a agradar é só me avisar que designarei outra.

 

A governanta se retirou e Clementine começou a examinar em detalhes o rico mobiliário, a imensa cama de dossel com reposteiro em fino veludo adamascado em tom bordô. Não demorou a criada de quarto se apresentar para ajudar a nova patroa com o banho.

 

Clementine só foi reencontrar Lord Darcy à hora do jantar, que foi servido na magnífica sala de jantar formal da mansão. Ela permaneceu a maior parte do tempo calada deixando a conversação a cargo de Lord Darcy e seu pai.

 

- Clementine, amanhã pela manhã irei embora para Londres. Darcy se prontificou a me emprestar uma de suas carruagens.

 

- Está certo meu pai.

 

- Como partirei muito cedo me despeço de você aqui mesmo.

 

Embora tivesse pouca ligação afetiva com o pai, Clementine sentiu seu coração apertado diante da notícia, parecia que a simples presença paterna naquela casa significava que o elo que ela tinha com sua família ainda não fora rompido. Ela temia ficar finalmente a sós naquela mansão de dimensões palacianas com aquele marido desconhecido pelo qual não nutria nenhum sentimento de afeto.

 

O pai num gesto inusitado de carinho beijou-lhe a testa e Clementine disse:

 

- Meu pai, mande lembranças a mamãe e meus irmãos.

 

Logo que subiu ao seu quarto, sua criada de quarto veio ajudá-la a se preparar para dormir. Após trocar o vestido que usara para o jantar por uma camisola, desfez seu elaborado penteado, deixando os longos cabelos loiros soltos e escovados.

 

Embora não houvesse acontecido a tradicional e esclarecedora conversa com sua mãe sobre a noite de núpcias, Clementine sabia o que se passava nesta noite entre um marido e uma mulher na privacidade do quarto do casal. Sua irmã mais velha, que se casara há dois anos, lhe contara tudo em detalhes.

 

Clementine pensava no que seria ter que suportar as intimidades do casamento com um homem que não amava quando se assustou ao ouvir uma batida na porta que ligava seu quarto ao do marido. Sem esperar resposta Lord Darcy entrou, vestido formalmente com as mesmas roupas do jantar. Ao ver Clementine se levantar da poltrona em que estava sentada como se fosse impulsionada por um mola, ele fez um gesto com a mão e disse:

 

- Continue sentada Clementine. Precisamos conversar.

 

A simples presença de Lord Darcy em seu quarto estando ela vestida em suas roupas de dormir era algo intimidante e constrangedor para Clementine que o considerava um completo estranho.

 

- Clementine, quero ter uma conversa franca com você acerca de nosso casamento. Sei muito bem as razões que a levaram a se casar comigo não tenho a ilusão de que sente alguma afeição por mim, mas espero que com o tempo possamos desenvolver uma amizade, o que tornará a nossa vida em comum agradável.

 

- O senhor tem minha palavra de que vou me esforçar para ser uma boa esposa, Lord Darcy.

 

- Ótimo. Quero que me diga para quando aguarda suas regras menstruais?

 

Clementine corou diante da questão de caráter tão íntimo e formulada de maneira tão abrupta. Lord Darcy percebendo o constrangimento dela acrescentou a guisa de explicação:

 

- Estou fazendo esta pergunta por que preciso ter certeza de que não está grávida.

 

- Daqui a cerca de uma semana, mas eu não estou grávida. Eu ainda...

 

- Entenda que é uma precaução que preciso tomar porque seria inadmissível que o filho de outro homem viesse a se tornar o herdeiro dos Darcy.

 

- Caso eu esteja grávida: o que o senhor fará?

 

- A possibilidade de você estar grávida é bastante remota, mas não impossível. Se estiver, teremos que dar o filho de Walter Langley para adoção, assim que nascer. Faremos tudo com discrição, diremos a todos que a criança nasceu morta, arranjarei uma boa família para ela e eu a ampararei financeiramente, infelizmente terá que ser desta forma.

 

Após estas palavras, Lord Darcy se levantou da poltrona em que estava sentado em frente à esposa, fez uma ligeira mesura desejando-lhe uma boa noite. Clementine seguiu com os olhos sua figura imponente que deixou o quarto mancando apoiado na bengala.

 

Aquela que seria sua noite de núpcias, Clementine passou sozinha em seu luxuoso quarto, Ela não estava lamentando este fato, muito pelo contrário. Preferia adiar o quanto fosse possível o cumprimento de seus deveres de esposa.

 

Pemberley, 5 de junho de 1878.

Minha noite de núpcias foi novamente adiada para o meu alívio.

Lord Darcy quer ter certeza de que não estou grávida, gerando um filho de Walter Langley, tentei dizer a ele que ainda sou virgem, pois apesar de toda a aparência não me entreguei a Walter, mas ele não me deixou sequer falar.

Será que Lord Darcy não pensou na possibilidade de eu estar grávida quando se propôs casar comigo? Ele deve ter agido no impulso do momento movido apenas pelo cavalheirismo e agora deve estar amargamente arrependido.

Quando Walter e eu chegamos à estalagem, já era tarde da noite e havia apenas um quarto disponível, relutei em aceitar dividi-lo com ele, mas não havia outra opção, pois o cocheiro e seu ajudante se recusaram a prosseguir viagem à noite por causa do perigo dos assaltos nas estradas.

Deixei claro a Walter que só me entregaria a ele após nosso casamento em Gretna, sempre sonhei me casar virgem e felizmente ele soube respeitar minha vontade, acabou se acomodando numa poltrona enquanto eu ocupei a cama. Logo fomos despertados pelas batidas furiosas na porta por meu pai.

Fiquei chocada com o destino que Lord Darcy iria dar ao meu filho caso estivesse grávida, mas compreendo as razões dele, o filho de outro homem não poderia ser o herdeiro de sua fortuna e do ilustre nome de sua família.

 

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Lord Darcy não teve que esperar muito tempo para ter a prova de que sua esposa não esperava o filho de outro homem e que ela estava apta a cumprir suas obrigações de gerar um filho legitimamente seu.

 

Pemberley, 10 de junho de 1878.

Estes primeiro dias que passei em Pemberley foram muito agradáveis, aos poucos estou me familiarizando com a mansão e começando a amar seus belos jardins, parques e bosques, onde faço longas caminhadas pela manhã.

Só encontro Lord Darcy durante as refeições. Ele continua se portando como um cavalheiro, é um esposo atencioso e gentil e pergunta sempre sobre minhas atividades durante o dia, me recomendando que tome cuidado ao passear nos bosques porque posso me perder neles.

- Clementine se você quiser redecorar o seu quarto e a saleta fique à vontade, eles foram deixados como minha mãe os usava, mas agora eles são seus e você pode, se quiser, modificar a disposição da mobília ou mesmo trocá-las a seu gosto.

Agradeci, surpresa com a delicadeza da sugestão. Creio que este foi o discurso mais longo que ouvi de Lord Darcy desde que o conheço, mas confesso que por enquanto não irei modificar nada, o quarto está decorado com extremo bom gosto e gostei de sua aparência clássica e refinada.


Pemberley, 16 de junho de 1878.

Chegou afinal a noite em que me tornarei verdadeiramente esposa de Lord Darcy.

Confesso que estou com receio de cumprir estes deveres de esposa. Espero que Lord Darcy não seja um bruto, que faça o que tiver de fazer rapidamente e que eu seja fértil para engravidar logo, assim ele só voltará a me procurar quando quiser outro filho.

Estou tão nervosa com a visita de hoje à noite que mal consigo escrever.

 

Deitada em seu leito, Clementine aguardou temerosa a chegada do marido. Ele entrou silenciosamente no quarto vestindo um roupão de veludo verde e se aproximou de Clementine que o esperava sentada numa das poltronas próximas à lareira. Ao ver os olhos de corça assustada e o corpo trêmulo da esposa, Lord Darcy a segurou firme pelos braços fortes e disse:

 

- Clementine, acalme-se. Serei bastante cuidadoso com você. Dizem que apenas a primeira experiência é dolorosa, e este desconforto acontece por causa do rompimento da membrana do hímen. O ato sexual é algo prazeroso, por isto existem tantos bebês no mundo. – Clementine ficou surpresa de ver um sorriso malicioso no rosto sempre sério de Lord Darcy. - Como você já passou por esta experiência não tem nada mais a temer.

 

- Lord Darcy acontece que houve um equívoco, que não contei ao senhor.

 

- E qual seria este equívoco?

 

- Eu... eu não me entreguei a Walter Langley como o senhor e meu pai acreditaram. Eu ainda sou virgem. Nós ocupamos o mesmo quarto porque não havia outros aposentos vagos na estalagem e o cocheiro se recusava a prosseguir viagem noite adentro.

 

- Virgem?

 

- Eu disse a Walter que só me entregaria a ele depois que fôssemos casados, eu sempre quis me casar virgem.

 

- É surpreendente que ele tenha respeitado a sua vontade. E por que não me contou isto quando vim conversar com você na noite que chegamos a Pemberley?

 

- Porque estava com medo. Medo de que o senhor não acreditasse e porque vi em suas palavras uma oportunidade para adiar nossa noite de núpcias.

 

- Quer dizer que eu lhe inspiro este terror, Clementine?

 

- Desculpe, sei que o senhor tem sido sempre muito gentil comigo e eu não tenho razão alguma para sentir medo, mas é algo que não consigo evitar.

 

- Quero que aprenda a não me temer jamais. Não quero que nossa relação seja baseada no medo, mas apenas no respeito.

 

Lord Darcy tomou inesperadamente Clementine em seus braços e segurando com ambas as mãos o rosto da esposa aproximou seus lábios para um beijo.

 

A princípio, ela apenas se deixou ficar naqueles braços e suportar passivamente a carícia, porém logo ela se viu correspondendo ao beijo que foi aumentando de intensidade. Os beijos que trocara com Walter Langley pareciam-lhe inocentes e ingênuos diante deste beijo que se tornava cada vez mais ousado e lascivo, enquanto as mãos de Lord Darcy começaram a passear urgentes por seu corpo, arrancando-lhe suspiros de prazer.

 

O que aconteceu naquela primeira noite jamais se apagou da memória de Clementine, mas não da forma negativa, como ela esperava. Ela iria sempre se lembrar da experiência gratificante que foi a primeira vez que se entregou a Lord Arthur, da delicadeza de seu toque, da sensação indescritível que era estar intimamente ligada a este homem, os instantes de dor que sentiu no momento do rompimento do hímen foram compensados e esquecidos pelo intenso prazer que ele soube extrair de seu corpo em seguida.

 

Após o ato Lord Darcy permaneceu com sua esposa em seus braços durante um longo tempo, acariciando sua cabeça recostada em seu peito.

 

- Sei que você não me ama Clementine, e não exigirei de você um sentimento que jamais sentirá por mim. Peço apenas que me seja fiel e respeite o meu nome e que me dê o herdeiro de que preciso.

 

- Sim, Lord Darcy. – respondeu Clementine diante da intensidade daqueles olhos azuis.

 

- Eu procurarei cumprir a promessa que lhe fiz quando a pedi em casamento, a de ser um marido fiel e dedicado e de fazê-la feliz.

 

Os olhos azuis de Lord Darcy pareciam negros quando aproximou seu rosto ao de Clementine e capturou com sua boca sedenta os lábios macios da esposa em outro beijo repleto de paixão e volúpia.

 

- Vamos parar por aqui, pois não quero machucá-la e tampouco assustá-la com meu ardor, afinal você não está acostumada a estes exercícios sexuais. Durma, minha querida.

 

Aos poucos Clementine sentiu o torpor do sono tomar conta de seu corpo, aninhada no calor dos braços do marido, mas ainda estava acordada quando sentiu que ele abandonava o leito vestindo de volta o roupão e vendo-a de olhos abertos depositou um beijo rápido em sua testa dizendo:

 

- Descanse, Clementine. Tenha uma boa noite.

 

- O senhor não irá dormir aqui? Junto comigo?

 

- Não, você descansará melhor sozinha. Até amanhã.

 

- Boa noite, Lord Darcy.

 

- Clementine, gostaria que passasse a me chamar apenas de Arthur daqui para frente.

 

Lord Darcy se retirou para o seu quarto deixando em Clementine uma estranha e profunda sensação de vazio, depois de toda a intimidade que haviam compartilhado. Ela gostaria de dormir no calor daqueles braços que tinham o estranho poder de acalmá-la, eles pareciam um abrigo seguro para todos os perigos que pudessem existir, e de poder despertar pela manhã naqueles braços.

 

 

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- Sra Reynolds, estou ligando para que a senhora me dê uma informação: quando estivemos em Pemberley neste final de semana Georgiana conversou com uma jovem que a senhora empregou para serviço temporário, o nome dela é Elizabeth, uma que acabou seus estudos e está viajando pela Inglaterra.

 

- Ah! Sei de quem o senhor está falando.

 

- Pode me dizer o sobrenome dela?

 

- É Bennet. Elizabeth Bennet, senhor. Algum problema?

 

- Não, Sra. Reynolds, não há problema algum, apenas curiosidade de minha parte.

 

Assim que desligou o telefone, Lord Darcy chamou sua secretária e disse:

 

- Sra. MacGregor, por favor, confirme para mim o nome daquela jornalista que me procurou há alguns meses atrás. Uma que chegou atrasada para a entrevista que tinha agendado comigo e depois me interpelou na saída.

 

- Sim, senhor. Um instante que vou verificar.

 

Não demorou e a eficiente secretária de Lord Darcy voltou com a informação.

 

- O nome dela é Elizabeth Bennet, Lord Darcy. Ela é uma jornalista freelancer que costuma publicar artigos na revista feminina “Mulheres”.

 

William agradeceu a eficiente secretária que o deixou sozinho em seguida.

 

“Eu sabia que a conhecia de algum lugar! Dificilmente esqueço a fisionomia de alguém. Vou ter o prazer de desmascará-la Elizabeth Bennet.” – disse ele dando um soco no tampo da mesa com o punho fechado para extravasar a raiva por ter sido enganado.