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O anjo de Pemberley - Capítulo 11

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

 

Passar três dias de um final de semana prolongado em Netherfield Park, a bela propriedade campestre de Charles Bingley não havia entusiasmado Lizzy. E ela tinha vários razões para isto: em primeiro lugar, estava bastante ocupada concluindo uma matéria com prazo fatal de entrega e tinha planos para trabalhar neste final de semana. Em segundo, tinha receio dos vexames que sua mãe e irmãs mais novas poderiam proporcionar diante de convidados tão finos e sofisticados.

 

Entretanto, por fim decidiu ir, principalmente em consideração à Jane, que tinha a perspectiva de que Bingley formalizasse o pedido de casamento e fazia questão da presença da irmã, caso o noivado fosse anunciado.

 

Outro motivo que levou Lizzy a ir Netherfield foi a esperança de se encontrar com Lord Darcy. Queria aproveitar a oportunidade e tentar convencê-lo a autorizar que ela terminasse a pesquisa sobre Lady Clementine, na expectativa de que passados tantos meses, a ira do grande homem houvesse se aplacado e ele se mostrasse mais razoável nesta questão.

 

Assim que chegaram, Charles apresentou as três irmãs que vieram de Londres a alguns convidados que tomavam aperitivos no jardim antes de almoço, dentre eles se encontrando Lord Darcy.

 

Ele cumprimentou Jane e Mary com um formal aperto de mão e foi até simpático com elas, mas quando se dirigiu a Lizzy não escondeu o tom irônico ao dizer:

 

- Nós já nos conhecemos, não é verdade Srta. Bennet? – Bingley e Jane lançaram um olhar surpreso para ela, mas não fizeram nenhum tipo de comentário. - Como tem passado?

 

- Bem, obrigada, Lord Darcy. – Lizzy percebeu imediatamente que ele não havia esquecido as circunstâncias em que ambos haviam se conhecido e também não parecia ter perdoado sua transgressão.

 

Assim que ficaram a sós, Jane questionou a irmã sobre o fato de ela conhecer Lord Darcy.

 

- Lizzy, por que nunca me contou que o conhecia? De onde você o conhece? E o que houve entre vocês que ele pareceu zangado com você?

 

- Calma Jane. É uma longa estória. – Lizzy contou em detalhes as peripécias que vivera para obter informações sobre a antepassada de Darcy.

 

- Lizzy, realmente, só você para se meter em encrencas deste tipo. Desafiar um homem como ele, poderia estar atrás das grades numa hora destas. Parece que ele não a perdoou, pois não escondeu sua contrariedade ao reencontrá-la.

 

- Eu não me incomodo com isto e quer saber: vou ver se consigo conversar com ele durante este final de semana. Não acho que o que fiz foi tão grave assim e tenho a intenção de tentar convencê-lo a me autorizar a prosseguir com minhas pesquisas sobre Lady Clementine.

 

- Você é muito corajosa! Em seu lugar, depois de tudo o que aconteceu, eu não teria coragem de me aproximar dele novamente.

 

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Lizzy não se deixou intimidar pela figura imponente de Lord Darcy ou pela aparente rancor que ele ainda pudesse estar guardando por ela. Ficou a espreita esperando uma ocasião em que ele estivesse sozinho, o que parecia não ser uma tarefa fácil.

 

O homem parecia estar sempre cercado de pessoas, principalmente por mulheres e dentre elas a mais assídua era Caroline Bingley, irmã de Charles, que não fazia segredo de quanto estava empenhada em conquistar Darcy.

 

Estas mulheres só podem estar atrás da fortuna dele porque o homem deve ser mais frio que uma geladeira. Dormir com ele deve ser o mesmo que dormir com um iceberg, mas claro que para certo tipo de mulher, o dinheiro compensa qualquer tipo de falha que o marido possa ter. Não o queria para mim nem que fosse o último homem na face da Terra, nem com todo  o dinheiro que ele tem.

 

Finalmente, o acaso proporcionou a esperada oportunidade, Lizzy encontrou Lord Darcy sozinho em uma das salas de Netherfield. Ela não teve dúvidas, se aproximou dele e disse:

 

- Lord Darcy será que podemos conversar alguns minutos? – pego de surpresa ele olhou para Lizzy com o cenho franzido não escondendo sua contrariedade.

 

Ela ignorou o sinal, não podia perder esta oportunidade de ouro que se apresentava e se apressou a falar antes que a coragem lhe faltasse ou que ele lhe virasse as costas e saísse da sala, largando-a sozinha. Grosseria que ele era bem capaz de fazer pensava Lizzy.

 

- Queria apenas pedir ao senhor que lesse a parte da matéria sobre Lady Clementine, que escrevi até onde consegui pesquisar.

 

Lizzy teve certeza de que os sinais de irritação haviam aumentado nas feições já pouco amistosas de Lord Darcy e apressou-se em completar o que tinha a dizer:

 

- O senhor verá que não há nada na estória de vida de sua antepassada que a desabone ou que possa envergonhar sua família, muito pelo contrário, qualquer pessoa se sentiria orgulhosa de descender de uma pessoa como ela. Ela foi gen...

 

Lord Darcy a interrompeu abruptamente com um gesto de mão antes que ela pudesse continuar sua argumentação.

 

- Srta. Bennet, minha secretária lhe deve ter transmitido meu recado. Tudo o que tinha a ser tratado entre nós já o foi em nosso último encontro.  Sua insistência é algo que me surpreende e que tem o poder de me irritar profundamente, já disse à senhorita desde a primeira vez em que me procurou que não vou permitir que vasculhe a vida de Lady Clementine e que este assunto está encerrado.

 

- Por favor, me responda apenas a uma pergunta: o senhor chegou a ler o diário de Lady Clementine?

 

- Li. Por quê?

 

- Porque o senhor sabe que sua negativa não tem razão de ser. O senhor está agindo por mero capricho e orgulho porque não quer voltar atrás na palavra dada.

 

- Classifique a minha decisão como quiser, estou apenas exercendo o meu direito de não querer que a vida de Lady Clementine se torne pública e de discutir minhas razões com a senhorita. Peço que respeite minha vontade.

 

- O senhor é o homem mais orgulhoso e intratável que conheço.

 

- Sua opinião pessoal a meu respeito não me interessa, guarde-o para si mesma. Com licença.

 

O olhar frio que Lord Darcy lançou sobre Lizzy antes de se retirar teria feito qualquer pessoa menos valente que ela encolher de medo. Lizzy tremia sim, mas era de raiva, sua vontade era a de agredir com socos e pontapés aquele homem tão arrogante, que se considerava tão importante e que na opinião dela estava lhe negando o direito de publicar a estória de sua antepassada por simples capricho, pelo simples prazer de fazer prevalecer sua autoridade e não voltar atrás numa decisão anterior.

 

- Que ódio! É o homem mais detestável que conheço! – exclamou e voltou para seu quarto para tentar se acalmar.

 

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O estado de euforia da Sra. Bennet e de suas filhas adolescentes Lydia e Kitty se revelou logo na chegada a Netherfield Park. Acostumadas a levar uma vida social bastante simples e restrita em Longbourn, elas não escondiam seu entusiasmo em passar um fim de semana inteiro no conforto e luxo de uma mansão repleta de convidados e divertimentos.

 

Não tardou para que Lizzy começasse a se envergonhar com o comportamento da mãe que não escondia seu entusiasmo e comentava em voz alta, para quem quisesse ouvir, sobre sua satisfação pelo iminente noivado da filha mais velha.

 

- Não é à toa que minha Jane sempre foi linda. Confio que ela fará um casamento vantajoso que abrirá caminho para que suas irmãs também casem com homens ricos.

 

Quanto a Lydia e Kitty corriam, falavam alto e gargalhavam pelos salões, tão à vontade como se estivessem em sua própria casa.

 

Lizzy não deixou de notar os olhares de reprovação dos demais hóspedes diante deste comportamento inapropriado para a discreta e fina sociedade ali reunida, principalmente de Lord Darcy que não escondia o seu olhar reprovador diante do comportamento das Benett.

 

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Lizzy estava se sentindo entediada naquela final de tarde de sábado, em seu segundo dia em Netherfield, não queria se juntar a nenhum dos grupos formados. Suas irmãs mais novas estavam participando de uma animada partida de críquete nos jardins. Jane estava em companhia de Charles. Sua mãe tomava chá e conversava com as senhoras mais velhas.

 

Lizzy decidiu dar um passeio pelo parque que circundava a mansão e caminhou um longo tempo, pensando que teria sido melhor ela não ter vindo a Netherfield, teria aproveitado melhor o tempo ficando em Londres trabalhando e sem ter passado pelos aborrecimentos que passara.

 

Ela vagou pelo imenso parque por longo tempo, apreciando a beleza da paisagem sem se dar conta da chuva que se armava no céu cinzento e que caiu torrencial apanhando-a em cheio. Lizzy saiu correndo em direção à mansão quando já totalmente molhada avistou um belo panteão neoclássico, construído para embelezar o parque, onde buscou refúgio com medo dos raios que poderiam apanhá-la em meio às árvores.

 

 

Ainda arfava pela corrida após alcançar o abrigo quando um vulto surgir ao seu lado. Não conseguiu reprimir um grito de susto ao ouvir a voz de Lord Darcy, que também tivera a mesma idéia que ela e buscara proteção da chuva no mesmo local.

 

- Desculpe se a assustei, Srta. Elizabeth.

 

Lizzy assentiu com a cabeça que estava tudo bem e ficaram alguns minutos em absoluto silêncio, tendo por fundo apenas o som ruidoso da chuva.

 

Com tantos hóspedes na casa, fui justamente me encontrar com este homem.” – pensou Lizzy sentindo-se constrangida por estar naquele estado, a camiseta e a calça de moletom molhadas grudadas ao corpo, o cabelo presos num rabo de cavalo pingando água. – “Ele também não está em situação melhor que a minha, está todo ensopado, mas sua aparência é bem melhor que a minha e não perde a pose.

 

Após mais alguns minutos, Lord Darcy quebrou o silêncio instalado entre os dois.

 

- Srta. Bennet, quero lhe pedir desculpas pela forma rude como a tratei ontem, mas a sua insistência em querer voltar a um assunto que para mim está encerrado me irritou profundamente e não consegui me conter.

 

- Desculpas aceitas, Lord Darcy. Está no seu direito não querer que a vida de seus antepassados se torne pública. Reconheço que tive minha parcela de culpa por ser tão insistente.

 

Novamente apenas o ruído forte da chuva que parecia não querer ceder. De repente, um raio iluminou o céu, muito próximo de onde eles estavam, seguido pelo forte som de um trovão que assustou Lizzy. Ela, num gesto instintivo, deu um pulo e buscou proteção se agarrando no braço de Lord Darcy que estava próximo a ela no pequeno espaço em que ambos buscavam abrigo da chuva.

 

O que se seguiu depois escapou a qualquer explicação lógica e só pode ser creditada à ancestral química da atração existente entre um homem e uma mulher.

 

Darcy atraiu Lizzy para si e ficaram assim abraçados no calor gerado por seus corpos que deve ter agido como um poderoso afrodisíaco, pois alguns minutos depois Darcy imobilizou a cabeça de Lizzy com suas mãos e desceu lentamente seus lábios sobre os lábios macios da jovem. O beijo, a princípio vacilante e tímido, foi se tornando aos poucos cada vez mais íntimo e ardente, explorando os recessos de suas bocas.

 

Lizzy sentia suas pernas trêmulas, o que a obrigou a se agarrar nos ombros largos de Darcy, gesto que ele interpretou como um sinal de consentimento e colou seu corpo ao de Lizzy. Mãos urgentes passeavam pelo seu corpo e não tardou para Lizzy ser imprensada contra a parede do panteão pelo corpo sólido de Lord Darcy, sentindo em si o estado de excitação em que ele se encontrava.

 

Subitamente um lampejo de consciência voltou a Lizzy e ela sentiu como se estivesse voltando de um sonho e reagiu. O que ela estava fazendo ali se deixando seduzir e seduzindo um quase desconhecido, aceitando suas carícias lascivas quase a ponto de se entregar a ele, ali ao ar livre num local que embora deserto naquela hora, era público.

 

Lizzy começou a se debater para se libertar dos braços de Darcy, mas levou alguns segundos para ele perceber a reação dela e a soltar.

 

- Você está muito enganado ao meu respeito. Não sou o tipo de mulher que concede favores sexuais em troca daquilo que quer.

 

- Não foi com esta intenção... Você está enganada...

 

- Gostaria muito de ver publicada minha matéria sobre Lady Clementine, pois acredito que ela seria a consolidação de minha carreira como jornalista, mas nem por isto pagaria por ela o preço que o senhor está querendo me cobrar. Homens como o senhor me enojam, Lord Darcy.

 

Lizzy saiu correndo sem dar tempo para que ele continuasse sua defesa. Não sentia a chuva fria que caía em seu corpo quente, que sentia tremer não sabia se de frio por causa da roupa molhada grudada a sua pele ou de indignação pelo que acabara de acontecer no panteão.

 

Darcy ainda permaneceu um longo tempo no mesmo lugar, a chuva agora já caía fina com toda a aparência de que iria parar. Ele, no entanto, não a percebia perdido em seus pensamentos. Estava furioso consigo mesmo, não se conformava com a reação que acabara de ter com Elizabeth Bennet.

 

O que estava acontecendo com ele? Nunca assediara mulher alguma. E ela interpretara de maneira errônea o que acontecera entre eles. Seu comportamento nada tinha a ver com assédio ou com o fim de mais tarde lhe conceder alguma vantagem.

 

“Elizabeth Bennet entendeu errado um comportamento que nem mesmo eu estou compreendendo.”

 

 

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Lizzy chegou à mansão e foi direto para o quarto que ocupava com suas irmãs e felizmente ele estava vazio, pois não se achava com disposição para conversar com ninguém. Tirou imediatamente a roupa molhada, tomou um banho quente, colocou um roupão e estava decidida a não comparecer ao jantar daquela noite.

 

Não, não sou uma covarde, nunca fui e não será agora por causa deste lordezinho que vou me acovardar. Irei a este jantar de cabeça erguida, afinal não fiz nada de errado e não tenho do que me envergonhar.”

 

Lizzy estava assim perdida em seus pensamentos quando Jane entrou no quarto. Demonstrando um entusiasmo que não estava sentindo, ela perguntou à irmã:

 

- E aí Jane? Teremos o anúncio de um noivado esta noite?

 

- Não, acho que eu estava enganada, Charles não pediu minha mão, interpretei de forma errada o comportamento dele. Acredito que ele tenha convidado toda nossa família apenas com a intenção de nos conhecer.

 

- Ele quer ver se somos pessoas dignas de nos associarmos a sua ilustre família! – ironizou Lizzy.

 

- Acho justo que Charles queira nos conhecer, afinal o casamento é um laço sério, é melhor que tudo seja feito com tranqüilidade e certeza. Papai o convidou para visitar Longbourn num final de semana.

 

- Ótimo, só espero que mamãe não o assuste com o seu desespero de querer nos casar a qualquer custo.

 

- Pobre mamãe! Ela é do tempo em que o único caminho para uma mulher era o casamento. Bem, vou tomar um banho e me preparar para o jantar. - arrematou Jane.

 

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William estava decidido a conversar com Elizabeth Bennet e lhe pedir desculpas pelo seu comportamento inusitado, completamente fora de seus padrões. Afinal, ele se considerava um cavalheiro e se orgulhava disto.

 

O jantar daquela noite em Netherfield, em comemoração ao aniversário de Charles Bingley, foi a rigor, os homens de terno e gravata e as mulheres exibindo belos vestidos de noite.

 

Lizzy estava satisfeita consigo mesma por ter comparecido ao jantar, não se deixando acovardar. O fato de estar sentada longe de Lord Darcy também a alegrou quanto mais longe dele ficasse, melhor. Os planos para terminar a matéria de Lady Clementine estavam definitivamente enterrados e esperava não ter muitas ocasiões de se encontrar com ele.

 

Após o longo jantar, os convidados se dirigiram à sala de visitas. Lizzy ficou sentada sozinha próxima a uma das janelas observando um grupo de jovens que estavam organizando um baile. E só se deu conta da aproximação de Darcy quando ele já se encontrava junto a ela.

 

- Srta. Elizabeth, podemos conversar?

 

- Pode falar, Lord Darcy. Sou toda ouvidos.

 

- O que tenho a lhe dizer é um assunto particular. Por favor, poderia me acompanhar até o escritório de Bingley.

 

Era tudo que Lizzy não queria, voltar a ficar a sós com Darcy, mas como já notara que alguns convidados os observavam, decidiu acompanhá-lo para não chamar ainda mais atenção sobre eles.

 

Assim que chegaram ao escritório, Darcy, demonstrando nervosismo, começou a falar:

 

- Srta. Bennet, peço desculpas pelo que aconteceu hoje à tarde. Quero que saiba que estava enganada ao pensar que eu a assediei com a intenção de depois lhe conceder favores. O que houve entre nós foi algo que não consegui explicar a mim mesmo e que fugiu completamente ao meu controle.

 

- O senhor tem uma forma bastante prática de encarar seu relacionamento com as pessoas. Faz e fala o que bem entende e resolve tudo com um simples pedido de desculpas.

 

- Pedir desculpas é o que usualmente as pessoas fazem para redimir seus erros, acho que meu comportamento não é diferente da maioria.

 

- Com o agravante de que o senhor se acha melhor do que todos nós, comuns mortais.

 

- De onde tirou esta conclusão, Srta. Bennet?

 

- Da forma como sempre se comportou comigo.

 

- A senhorita está aborrecida comigo porque não a autorizei que investigasse os documentos sobre Lady Clementine. Não consegue aceitar um “não“ como resposta.

 

- Pois saiba que perdi completamente a vontade de continuar a pesquisa sobre Lady Clementine, se neste momento o senhor me concedesse permissão para pesquisar estes documentos, eu não iria querer mais.

 

- Fico satisfeito em saber que finalmente desistiu desta ideia.

 

- Só não consigo entender como um homem tão arrogante como o senhor pode descender de duas pessoas maravilhosas como Lady Clementine e Lord Arthur.

 

- A senhorita me conhece muito pouco para emitir opiniões a meu respeito.

 

Lizzy saiu do escritório pisando duro e ao invés de voltar para a sala onde o som alto de música “disco” indicava que os convidados deviam estar dançando, subiu para seu quarto para se acalmar.