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O anjo de Pemberley - Capítulo 12

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Após a discussão que acabara de ter com Lord Darcy, Lizzy perdera completamente a vontade de retornar à animada festa que transcorria no andar inferior da mansão. Caminhou de um lado para outro pelo quarto sem conseguir parar de pensar no bate-boca que acabara de ter.

 

”É o homem mais arrogante que já encontrei. Ele se considera o sol que ilumina a Terra. Faz o que bem entende e depois pede desculpas como se elas fossem uma graça para quem as recebe. Quero que ele vá para o meio do inferno com sua importância. Por mais que me custe, vou esquecer a estória de Lady Clementine de uma vez por todas, assim não preciso nunca mais tratar com este homem odioso.”

 

Mas, o que Lizzy não queria admitir, nem a si mesma é que “o homem odioso” não lhe parecia assim tão odioso quando se recordava dos beijos e carícias que trocaram naquela tarde no panteão.

 

Ele não é um iceberg como eu pensava que fosse, pelo contrário. Deve ser um mulherengo de marca, por isso sabe beijar e seduzir uma mulher tão bem. Já deve ter dormido com metade das mulheres do Reino Unido. É o tipo de homem que abomino: arrogante e mulherengo.”

 

Após algum tempo, já mais calma, Lizzy decidiu que era necessário voltar ao convívio social, não queria que Charles Bingley pensasse que ela, como sua mãe e irmãs mais novas, não tinha boas maneiras, abandonando a festa sem dar nenhuma satisfação.

 

Assim que desceu as escadas ao invés de se dirigir à animada e ruidosa sala de visitas, Lizzy decidiu que iria tomar um pouco de ar por alguns minutos no jardim aproveitando a quente noite de verão. Mal havia saído no terraço quando ouviu a voz de uma mulher que dizia:

 

- Não acredito que a intenção de Charles seja a de se casar com Jane Bennet. Seria uma desgraça, imagine estarmos associados por casamento a esta gente sem educação e sem classe alguma. – Era Caroline Bingley quem conversava com um homem alto que estava de costas e que Lizzy imediatamente reconheceu pela bela voz masculina e aveludada.

 

- Talvez você esteja se preocupando à toa Caroline. Você sabe como Charles é volúvel.

 

- Mas se as intenções dele não fossem sérias, para que ele teria convidado a família inteira de Jane para esta reunião?

 

- Você tem razão.

 

- Chamei-o aqui para lhe pedir um favor: sei da sua ascendência sobre Charles, ele o respeita muito e costuma acatar seus conselhos, gostaria que você lhe mostrasse a loucura que fará ao se casar com Jane. Ponha um pouco de juízo na cabeça de meu irmão.

 

- Fique tranquila, assim que chegar a Londres terei uma conversa com ele. Só não sei se serei bem sucedido, pois Charles parece estar bastante apaixonado por Jane e você sabe como as pessoas apaixonadas costumam não ouvir o conselho de ninguém.

 

Lizzy ouvira o suficiente. Furiosa, ela se retirou em direção à festa, se isolando num canto da sala, pois precisava se acalmar, mas não teve tempo para isto. Um rapaz alto, a quem fora apresentada no início de sua estada em Netherfield, se aproximou sorridente. Não se lembrava de seu nome, apenas recordava que ele era primo de Lord Darcy.

 

- Não está se divertindo, Elizabeth? Não gosta de dançar?

 

- Gosto sim, mas esta noite não estou com vontade.

 

- Uma pena porque vim convidá-la para dançar.

 

- Desculpe-me, sei que fomos apresentados, mas não me recordo de seu nome.

 

- Então, estou em vantagem, pois sei o seu: Elizabeth Bennet. Sou Richard Fitzwilliam.

 

- Obrigada, Richard, mas não vou dançar, não estou com vontade. – Lizzy disse procurando ser amável, mas torcendo para que ele fosse procurar outra parceira de dança.

 

- Tudo bem, então faça-me companhia para uma volta ao jardim. A noite está bastante agradável e lá fora não está tão abafado como nesta sala.

 

Lizzy, meio à contragosto concordou, outra negativa iria parecer uma desfeita, afinal o rapaz podia ser primo de Lord Darcy, mas era simpático e bastante agradável.

 

- Está gostando de seu fim de semana aqui?

 

- Sim, está muito agradável. – Lizzy detestava mentir, mas seria grosseria dar outra resposta.

 

- Desculpe, mas tenho a impressão que você não está se divertindo.

 

- Talvez porque eu esteja preocupada com o trabalho que larguei para vir para cá.

 

- Ah! Então é uma workaholic(*)?

 

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workaholic= termo em inglês que designa a pessoa que tem compulsão por trabalho, é viciada em trabalho.

 

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Lizzy sorriu e respondeu:

 

- Não, não sou uma workaholic, acontece que não sou assalariada como a maioria das pessoas, trabalho como jornalista freelancer e só ganho quando trabalho, por isso me preocupo com ele, não sobreviveria sem meu ganha-pão.

 

- É justo. Escolheu o caminho das pedras para viver.

 

- Mais ou menos isto. E você o que faz? Trabalha com seu primo Lord Darcy?

 

- Não, não me interesso por negócios, não tenho o talento de William para ganhar dinheiro. Interesso-me por arte e trabalho na Tate (*), sou responsável pelas exibições especiais de pintura que o museu organiza.

 

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“Tate Britain” de Londres é um dos mais renomados museus de arte moderna do mundo.

 

 

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- Que trabalho interessante!

 

- Sim, é tão interessante quanto é trabalhoso. Atualmente estou organizando uma exposição dos quadros de Van Gogh que será apresentada ao público em outubro.

 

- Com certeza irei ver esta exposição, gosto muito dos quadros dele.

 

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Caminharam pelo jardim em silêncio por algum tempo até que Richard lhe perguntou abruptamente:

 

- A propósito, estou a procura de alguém que escreva sobre a vida e a obra de Van Gogh. Como jornalista, não tem interesse em escrever esta matéria?

 

- Eu!? Sim, claro que tenho.

 

- Então, mande-me alguns trabalhos seus que já foram publicados para que eu possa dar uma lida, preciso ver se seu estilo de escrita se enquadra ao que preciso. É necessário que a redação seja clara, objetiva e concisa.

 

- Espero preencher estes requisitos, pois gostaria de escrever esta matéria.

 

- Estou apostando que sim. Se for aprovada, a Tate se encarregará de que a matéria seja publicada em vários jornais e revistas de grande circulação, como parte da campanha de divulgação da exibição. Aproveitaremos também para inserir trechos da matéria nos informes publicitários, folhetos e cadernos que mandaremos preparar para distribuir ou vender durante a exposição.

 

- Nem acredito que um passeio com você nos jardins de Netherfield poderá me render um trabalho.

 

- Espero que sim, Elizabeth.

 

A partir daí, conversaram sobre os mais variados assuntos, passeando tranquilos, como se ambos fossem velhos amigos.

 

O bom humor de Lizzy voltou, afinal tinha a perspectiva de um ótimo trabalho e tudo indicava que fizera um amigo, pois Richard era um homem gentil, simpático e muito agradável.

 

O sorriso de satisfação que Lizzy trazia nos lábios morreu logo que ela e Richard retornaram à sala. A primeira pessoa que encontraram foi Lord Darcy, e ele franziu as sobrancelhas num claro sinal de seu desagrado ao vê-la acompanhada pelo seu primo.

 

- William, estava dando um passeio muito agradável com Lizzy pelo jardim. Vocês já se conhecem, não é?

 

Antes que Lord Darcy tivesse tempo de dizer algo, Lizzy se apressou em afirmar:

 

- Já nos conhecemos sim. – E voltando-se para Richard arrematou: - Richard foi um prazer conversar com você, agora se me dá licença vou conversar com Jane. – diante da concordância do rapaz, Lizzy se retirou, buscando a maior distância que pudesse manter de Lord Darcy.

 

”Só falta este homem horroroso falar mal de mim para o primo e eu perder esta excelente oportunidade de trabalho. Calma, Lizzy, isto não vai acontecer, pense positivo.”

Animada com a perspectiva de conseguir um trabalho, Lizzy suportou estoicamente o restante da noite até que o bolo fosse servido. Só então, após cumprimentar o aniversariante se apressou a voltar para seu quarto. Felizmente no dia seguinte, domingo, o torturante fim de semana estaria acabado, esperava nunca mais voltar a por os pés em Netherfield. 

 

Um último incidente aborreceu Lizzy antes de partir. Quando se despedia e agradecia a hospitalidade aos Bingleys, Caroline aproveitou que ambas estavam um pouco isoladas do grupo e disse num tom confidencial:

 

- Elizabeth, vi que Lord Darcy a chamou para uma conversa particular ontem após o jantar. Foi, por acaso, para adverti-la sobre o comportamento inadequado de sua família? – A ironia transbordava na pergunta e no rosto de Caroline Bingley.

 

Lizzy levou alguns segundos até conseguir processar a pergunta cheia de curiosidade e maldade de Caroline Bingley, porém logo recuperou sua presença de espírito e respondeu:

 

- Reconheço que alguns membros de minha família não têm o melhor dos comportamentos em sociedade, mas que eu saiba Lord Darcy não tem autoridade, nem direito algum para me repreender a respeito disto. O que conversamos não é nada que lhe diga respeito, Caroline.

 

Lizzy tinha consciência que tinha sido rude com sua anfitriã, mas não se importou. Esperava que sua resposta tivesse mostrado a Caroline o quanto a intromissão dela fora imprópria e a havia desagradado e se afastou sem revelar o verdadeiro motivo de sua conversa com Darcy.

 

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William aproveitou a primeira oportunidade que teve para conversar com Charles, não só para atender ao pedido feito por Caroline, mas também porque ele próprio comungava da mesma opinião da jovem.

 

O próprio Charles facilitou a tarefa a Darcy contando-lhe ansioso uma novidade.

 

- William, quero que seja o primeiro a saber que decidi pedir Jane Bennet em casamento.

 

Foi a oportunidade que Darcy esperava para entrar de chofre no assunto.

 

- Você tem certeza do que está fazendo Charles? Não acha que está sendo precipitado?

 

- Nunca tive tanta certeza de amar uma mulher como amo Jane. Estou completamente apaixonada por ela. Ela é a mulher que sempre procurei para mim, um verdadeiro anjo!

 

- Bingley, reconheço que a Srta. Bennet é uma bela mulher, mas não acha que ainda é um pouco cedo para assumir um compromisso sério como o casamento? Afinal você a conhece há pouco tempo.

 

- Estamos namorando há seis meses. Foi tempo suficiente para me dar à certeza da decisão que vou tomar. Eu a amo como nunca amei mulher alguma!

 

- Charles, você sabe que o amor não é tudo num casamento, há outros aspectos importantes a considerar.

 

- Se vai me falar que a família dela é pobre, eu não me importo com isto

 

- Não se trata de dinheiro. Jane é uma jovem de classe, que sabe se portar em sociedade, mas a família dela deixa muito a desejar. Ouvi a Sra. Bennet dizendo a um grupo grande de pessoas que esperava que a filha se casasse com você e que este casamento abrisse caminho para que suas outras filhas também se casassem com homens ricos.  E as irmãs menores! Corriam pelos salões e corredores, falando alto e rindo por tudo.

 

- Mas não vou me casar com a família. O importante é que nós nos amamos, que Jane me ama.

 

- Será que ela te ama, Charles? Seu comportamento contido e muito discreto não me dá esta impressão, não são indicativos de que ela sinta um grande amor por você.

 

- Você acha que Jane não me ama?

 

- Tenho minhas dúvidas. Por tudo isso, aconselho a você que pense melhor antes de pedir Jane Bennet em casamento para não se arrepender mais tarde.

 

Os conselhos de Darcy e comentários que suas irmãs faziam sobre os Bennet, plantaram a semente da dúvida na personalidade facilmente influenciável de Charles Bingley. Após refletir durante algum tempo sobre os argumentos que ouviu, ele decidiu qual a melhor atitude a tomar.

 

- Jane, antes de assumirmos um compromisso sério como o casamento, gostaria de pedir a você um tempo. Eu gostaria de refletir melhor sobre este passo que vamos tomar.  Seria um mês ou um pouco mais em que ficaremos afastados um do outro para termos certeza da profundidade de nossos sentimentos.

 

Jane que esperava a qualquer momento ser pedida em casamento disfarçou como pode sua decepção diante desta proposta inesperada de Charles, com sua docilidade natural concordou com o pedido do namorado sem nenhum questionamento, creditando as dúvidas que ele pudesse ter ao medo que a maioria dos homens tem do casamento.

 

Lizzy, assim que soube do pedido de Bingley, não escondeu o seu desapontamento.

 

- O quê? Charles te pediu um tempo? Isto está me parecendo muito estranho.

 

- Estranho por que, Lizzy? Acho natural que um homem tenha dúvidas e se sinta inseguro quando irá assumir um compromisso tão sério como o casamento.

 

- Desculpe te dizer isto, Jane, mas acho que ele não tinha que ter dúvida alguma, depois deste tempo todo de namoro.

 

- Eu conheço bem Charles e sei que é uma pessoa insegura, acho normal que esteja em dúvida de dar um passo sério como o casamento.

 

- Uma pessoa insegura ou volúvel? Não quero parecer uma ave de mau agouro... Mas isto está me cheirando a antecipação de um fora. Fique preparada!

 

Lizzy, embora fosse dois anos mais nova do que Jane, era mais realista e enxergava os fatos da vida sem a visão muitas vezes distorcida de Jane pelo seu excesso de bondade e generosidade.

 

Não demorou para que os prognósticos de Lizzy se concretizassem. Charles Bingley rompeu seu namoro com Jane alegando que não estava preparado para o casamento e que era melhor para ambos se separarem.

 

Jane ficou devastada, embora procurasse por todos os meios esconder de suas irmãs seu verdadeiro estado de espírito, mas Lizzy que a conhecia bem não se deixou enganar e sabia perfeitamente como sua sensível irmã estava sofrendo.

 

Tudo isto é obra daquele odioso Lord Darcy. O pior é que me sinto culpada, sei que tenho uma parcela de culpa nisto tudo. Tenho certeza de que minha insistência em pesquisar a vida de Lady Clementine deve ter influenciado a decisão dele de ser contra o casamento de Charles com Jane.”

 

Mary, por sua vez, que estudara com tanto afinco, foi reprovada nas provas para ingresso no curso de pós-graduação no Royal College of Music e estava bastante deprimida.

 

- Meninas, vamos levantar o moral, não vamos nos deixar abater por estes pequenos reveses da vida. Eles sempre existirão e devem servir para nos fortalecer. Jane, linda como é, logo irá arrumar alguém melhor do que Charles Bingley para namorar e casar. E, você, Mary, continue a se dedicar com afinco aos seus estudos que no próximo ano conseguirá sua vaga na pós-graduação.

 

Tudo parecia estar dando errado na vida de Jane e Mary, apenas Lizzy parecia estar entrando numa fase de sorte.

 

Assim que chegara a Londres de Netherfield, ela havia se apressado em enviar três matérias suas para Richard Fitzwilliam, conforme haviam combinado e aguardou ansiosa por sua resposta. Ela não demorou a chegar e foi positiva. Lizzy não cabia em si de felicidade, daria o melhor de si nesta matéria, pois este seria um novo filão de trabalho e parecia ser bastante promissor.