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O anjo de Pemberley - Capítulo 13

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Lizzy se enganara ao classificar William Darcy como um homem mulherengo, pelo contrário, era sério e pouco afeito a conquistas amorosas inconsequentes. Ele perdera seus pais muito jovem. A mãe, de complicações do parto após o nascimento da irmã, e o pai alguns anos mais tarde quando William tinha apenas 23 anos. Assumira, desde então, as duras responsabilidades: de gerir os negócios da família e de criar a irmã Georgiana que contava na ocasião apenas 9 anos.

 

William tivera, é verdade, algumas namoradas, mas nenhuma o encantara o suficiente para se animar a deixar sua condição de solteiro. Ele testemunhara o feliz casamento por amor de seus pais e sonhava para si próprio algo semelhante.

 

Estava então, aos 33 anos sozinho, considerado um dos solteiros mais cobiçados do Reino Unido. Ele mantinha uma vida discreta, avesso às badalações sociais, dedicava-se ao trabalho que lhe tomava a maior parte de seu tempo e em seus momentos de lazer procurava a companhia de um pequeno grupo de amigos, tão discretos quanto ele.

 

Depois que Charles Bingley terminou seu namoro com Jane, William não ouvira mais falar da família Bennet. Entretanto, o comportamento inusitado que tivera no panteão com Elizabeth não lhe saía da lembrança. Não entendia porque agira daquele modo, tão fora de seus padrões habituais.

 

”Pelo menos o infeliz episódio fez com que Elizabeth desistisse da ideia de publicar  a biografia  de Lady Clementine. Ela estava muito equivocada pensando que eu iria permitir que ela prosseguisse suas pesquisas apenas por causa de uns beijos. Logo ela que nem sequer é o tipo de mulher pelo qual sinto atração.

******************

O relacionamento profissional entre Lizzy e Richard não demorou a se transformar em amizade. Ambos tinham muito em comum e Richard era comprovadamente um homem amável e de fácil trato, muito diferente, na opinião de Lizzy, do primo. Nem mesmo em seu aspecto físico ele lembrava Lord Darcy, a não ser pela altura, Richard era loiro e não tinha aquela presença física imponente e a beleza do primo que o destacava dos demais onde quer que estivesse.

 

Sempre que Lizzy ia ao Tate para tratar com Richard sobre a matéria que estava escrevendo conversavam sobre si mesmos durante a pausa que faziam na cafeteria do próprio museu.

 

- Você tem namorado, Lizzy?

 

- Não, atualmente estou sozinha, tive alguns namorados nos tempos da faculdade, namoricos, nada muito sério, mas agora com a vida corrida que levo, nem tenho tempo para pensar em ter um relacionamento estável. E você, tem namorada?

 

- Não, não tenho... Mas quero te confessar que tenho um amor impossível.

 

- Que romântico! Um amor impossível nos dias de hoje! É inacreditável.

 

- Por favor, não zombe de mim.

 

- Não estou zombando, seria incapaz de zombar de alguém que está apaixonado, respeito muito o amor em todas as suas formas.

 

- Pois é, amo esta pessoa há muitos anos, mas não ouso confessar o meu amor porque há muitos empecilhos nos separando.

 

- Desculpe a indiscrição, mas por acaso ela é casada?

 

- Oh! Não! Ela é solteira e muito jovem tem apenas 19 anos.

 

- Mas diferença de idade não é impedimento, e você não é tão velho assim. Tem quantos anos?

 

- Tenho 34 anos.

 

- Há muitos homens mais velhos que se casam com mulheres bem jovens, algumas até os preferem por serem mais sérios e responsáveis.

 

- Mas o problema que nos separa não é apenas esta diferença de 15 anos que temos um do outro.

 

- E qual é então?

 

- Nós somos primos. Ela é a irmã mais nova de Lord Darcy, Georgiana.

 

Lizzy lembrou-se imediatamente da amável e simpática Georgiana Darcy que conhecera em Pemberley, mas não achou que seria o momento de revelar a Richard que a conhecia e prosseguiu a conversa.

 

- Ela sabe que você a ama?

 

- Não, não tive coragem de confessar, mas sei que ela me ama também. Georgiana é a criatura mais doce do mundo e sempre foi muito apegada a mim e a William, talvez porque perdeu os pais quando ainda era uma menina. Quando se tornou adolescente senti que meu sentimento por ela foi se transformando lentamente do amor fraternal para o amor que um homem sente por uma mulher. A princípio, neguei a mim mesmo este sentimento, procurei escondê-lo o quanto pude até que no ano passado no dia de seu aniversário de 18 anos, Georgiana se declarou a mim aos prantos. Ela se atirou em meus braços dizendo que me amava e que queria que eu correspondesse ao seu afeto. Não tive coragem de revelar meus verdadeiros sentimentos a ela, disse-lhe que sentia por ela apenas um afeto fraterno, mas está sendo cada vez mais difícil resistir quando sinto por ela um amor profundo e verdadeiro.

 

- Mas qual seria o problema de vocês assumirem o romance? Apenas a diferença de idade? Ou o fato de serem primos?

 

- Ambos os problemas, acrescido do fato de que William seria totalmente contrário a este namoro.

 

Será possível que Lord Darcy está no mundo apenas para atrapalhar a vida de todos que o cercam?  – pensou Lizzy sentindo renascer a antiga animosidade que sentia por ele.

 

- O que pesa mais na minha decisão de não revelar meus sentimentos é o fato de que Georgie e eu somos primos irmãos. Um casamento entre nós seria perigoso, você sabe que existe grande probabilidade de termos filhos com defeitos genéticos devido ao problema da consangüinidade.

 

Lizzy olhava para as feições tristonhas de Richard, sem nada dizer, não encontrava palavras para expressar sua solidariedade diante de todo o problema que ele acabava de lhe revelar. Assim ele prosseguiu:

 

- Depois tenho medo de que este amor que Georgie diz sentir por mim seja apenas um entusiasmo juvenil, de uma adolescente que vai passar à medida que ela se tornar adulta.

 

- Hoje em dia as garotas amadurecem muito cedo e sabem muito bem o que querem, acredito que seja este o caso de Georgiana.

 

- Tenho minhas dúvidas. Ela foi sempre muito mimada, muito protegida por William pelo fato de ter se tornado órfã de ambos os pais quando ainda era uma criança. Ela desconhece a realidade da vida e isto talvez tenha colaborado para  fantasiar esta paixão que diz sentir por mim.

 

- Pode ser que não seja uma fantasia, Richard, pode ser que ela o ame de verdade e vocês estejam sofrendo à toa e perdendo tempo quando poderiam ser felizes juntos.

 

- E ainda há o outro problema, William seria radicalmente contra a nossa união. Não quero que ele pense que traí a confiança que seu pai depositou em mim, nomeando-me juntamente com ele, tutor de Georgiana. Não gostaria de entrar em confronto com ele.

 

- Sinto muito Richard, realmente, a sua situação é bastante complicada.

 

Havia se passado alguns dias após esta surpreendente confissão quando Richard convidou Lizzy para ir assistir o musical “Mamma Mia!” que estava estreando no teatro londrino com grande sucesso de público e elogios da crítica.

 

 

 

- Lizzy, você não gostaria de ir ao teatro comigo e com Georgiana hoje à noite? Estou com um ingresso sobrando, é do William, ele não poderá ir, pois precisou viajar a negócios.

 

- Se eu não for atrapalhar vocês dois, gostaria de ir sim.

 

- Não irá nos atrapalhar em nada. Assim terei a oportunidade de te apresentar Georgie, quero muito que a conheça, você vai gostar dela.

 

- Richard, preciso te confessar algo... Eu já conheço Georgiana.

 

- Você a conhece!? Como?

 

- É uma longa estória, vou te contar... – Lizzy contou ao amigo em detalhes como conhecera Georgiana em Pemberley, quando trabalhara lá como empregada atrás de informações sobre Lady Clementine Darcy.

 

- Não vejo problema algum em ter a vida de Lady Clementine divulgada, seria até uma honra para a família. Este William é um teimoso, quando ele cisma com algo ninguém consegue fazê-lo mudar de idéia. Mas vamos deixar William e sua teimosia de lado e me diga o que achou de Georgiana.

 

- Só conversamos rapidamente, ela foi muito agradável e simpática comigo.

 

- Ela é mesmo um amor de pessoa. Gostaria que vocês se tornassem amigas.

 

Lizzy e Richard combinaram se encontrar no saguão do teatro, ele iria buscar Georgiana e no caminho se encarregaria de contar a ela quem era Lizzy e que ambas já haviam se conhecido anteriormente.

 

Lizzy percebeu deste o primeiro instante que o comportamento de Georgiana mudara, embora educada, estava calada e parecia pouco amistosa, bem diferente da primeira vez em que haviam se encontrado em Pemberley.

 

Durante o intervalo da peça, quando Richard foi buscar um refrigerante para Georgiana, Lizzy procurou quebrar o gelo e iniciou uma conversa com ela. Georgiana se limitou a responder às perguntas de maneira curta numa clara demonstração de que não estava disposta a fazer amizade com Lizzy.

 

Lizzy ficou bastante aborrecida com esta reação inesperada de Georgiana e acabou se calando. Felizmente, Richard retornou dando fim ao mal estar entre as duas mulheres.

 

Terminada a peça Richard convidou ambas para irem a um pub onde pudessem beber algo e conversar. Lizzy recusou dando a desculpa de que precisava se levantar muito cedo no dia seguinte e se despediu do casal. Ela tomou o metrô rumo a sua casa intrigada com o que poderia ter ocasionado a mudança radical de comportamento de Georgiana para com ela.

 

Ela deve ter ficado ressentida comigo pela forma como entrei em Pemberley, enganando a todos, quase como uma ladra. Lord Darcy deve ter contado tudo a ela. Só pode ser isto. É uma pena porque gostei muito dela e gostaria de me tornar sua amiga.

 

No dia seguinte, Lizzy foi ao Tate tratar de serviço com Richard e ao final da conversa ele perguntou:

 

- Você gostou do musical de ontem?

 

- Gostei muito, a montagem muito bonita, os atores ótimos e as músicas são contagiantes, dá vontade de cantar e dançar junto. Obrigada mais uma vez por me convidar.

 

- Também gostei muito, só fiquei aborrecido porque parece que você e Georgie não se entenderam, como eu esperava. Achei que ela ficou retraída, o que não é o comportamento normal dela.

 

- Acho que ela me tratou com frieza por causa do que aconteceu em Pemberley. Eu ter entrado lá, disfarçada de empregada, tentando descobrir documentos, pode até ter pensado que iria furtá-los. Sinto muito, pois gostaria muito de me tornar amiga dela, a culpa é minha, pois eu estraguei tudo.

 

- Não creio que seja por isto. Fomos ao pub e lá ela me fez inúmeras perguntas sobre você e por fim perguntou o que havia entre você e eu.  Quando disse que éramos apenas bons amigos, não acreditou e se pôs a chorar dizendo que eu não fazia nenhum esforço para amá-la. Você não imagina, Lizzy, a tortura que está sendo para mim este comportamento de Georgie, quando tenho que segurar meus próprios sentimentos.

 

- Por que você não se declara de uma vez e termina logo com este sofrimento de ambos, o importante nesta questão toda é que vocês se amam.

 

- É... Às vezes penso que você tem razão...

 

- Há tantos casamentos entre primos, quando resolverem ter filhos consultem um médico e resolvam de comum acordo se vale a pena se arriscar, há sempre uma solução para isto, há milhares de crianças esperando serem adotadas.  Quanto à diferença de idade, ela não é tão grande assim, isto não chega a ser um problema. E Lord Darcy terá que aceitar, gostando ou não, a decisão de vocês.

 

- Vou pensar e tomar uma decisão, Lizzy.

 

- É assim que se fala, meu amigo! Espero que depois que vocês se acertarem, Georgiana possa se tornar minha amiga. Não me passou pela cabeça que ela pudesse estar com ciúmes de mim!

 

**********************

 

Foi através de Georgiana que Lord Darcy ficou casualmente sabendo que Elizabeth Bennet estava trabalhando para Richard.

 

- Você gostou do musical que foi assistir com Richard, Georgie?

 

- Sim, é muito bom. Quando puder você deve ir assistir. Mas você não imagina quem Rick levou no teu lugar.

 

- Alguma namorada?

 

- Ele diz que não é namorada, mas estou desconfiada que seja. Lembra da Elizabeth Bennet, aquela jornalista que estava em Pemberley disfarçada de empregada para tentar descobrir documentos sobre Lady Clementine e que você desmascarou?

 

- Claro que lembro! Richard e Elizabeth Bennet estão namorando?

 

- Rick negou quando perguntei, disse que ela está trabalhando para ele, escrevendo uma matéria para a exibição dos quadros do Van Gogh. Achei estranho Rick tê-la convidado. Ela é bem bonita.

 

Darcy procurou esconder da irmã o choque que a notícia lhe causou, mas nem precisou de muito esforço porque Georgiana não percebeu a reação do irmão preocupada com seus próprios sentimentos tumultuados.

 

Por que estou tão incomodado com o fato de Elizabeth estar namorando Richard, o fato de tê-la beijado uma vez não significou nada, foi um impulso de momento, cuja razão não consegui explicar. Não tenho nada que ficar enciumado, ela é livre para namorar quem bem entender.

 

********************

 

Os conselhos de Lizzy foram o empurrão que Richard precisava para deixar de lado suas restrições e medos e declarar seu amor a Georgiana. Aconteceu num dia em que Georgiana na saída da faculdade foi até o museu para ver o primo, como costuma fazer habitualmente.

 

- Que surpresa agradável a sua visita, Georgie!

 

- Vim aqui para encostá-lo na parede.

 

- O que foi que eu fiz?

 

- Quero saber o que há entre você e Elizabeth.

 

- Georgie, eu já te disse, não há nada entre nós, somos apenas bons amigos. Ela é uma excelente pessoa por quem sinto uma grande afinidade.

 

- E eu? O que sou para você?

 

- Você?!... Você é a mulher mais importante de minha vida, Georgie. Não vou mais me calar, nem esconder meu real sentimento por você. Eu te amo, Georgie. E este amor só cresce a cada dia que passa, se estiver disposta a ficar comigo e enfrentarmos juntos os problemas que possamos ter. Sou todo teu.

 

Georgiana espontaneamente se atirou nos braços de Richard e procurou seus lábios enquanto dizia:

 

- Sim... sim... Estou mil vezes disposta a ficar com você e enfrentar tudo e todos pelo nosso amor. Eu te amo tanto, Rick.

 

Muitos beijos e carinhos apaixonados selaram a revelação dos sentimentos que Richard ocultara até então.

 

- Quero que saiba que devemos a minha amiga Lizzy, a nossa felicidade. Foi ela que me incentivou a declarar meu amor por você.

 

- E eu que fiquei morrendo de ciúmes achando que ela o estava roubando de mim. Preciso pedir desculpas pela forma como a tratei quando fomos ao teatro, foi um comportamento imperdoável.

 

- A princípio ela pensou que você estava zangada por causa do que aconteceu em Pemberley. Só depois que eu contei sobre sua reação enciumada, é que ela entendeu sua atitude.

 

- Eu não quero dividir você com ninguém, Rick.

 

- Não vai precisar dividir, meu amor.

 

- Nunca me passaria pela cabeça tratar Elizabeth mal por causa do que houve em Pemberley, pois não tenho nada contra a divulgação da estória de Lady Clementine.

 

 

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Finalmente, chegou o dia da inauguração da exposição no Tate Britain. A matéria que Lizzy escrevera havia sido publicada, como Richard havia dito, nas principais revistas e jornais, divulgando o evento e despertando a curiosidade do grande público.

 

- Jane, eu preciso que você vá comigo para me fazer companhia, para eu não  ficar sozinha na inauguração.

 

- Lizzy, eu não vou porque não quero encontrar o Charles, tenho quase certeza de que ele estará lá.

 

- Você não tem motivo algum de ter medo de encontrá-lo, afinal não fez nada errado, ele é que errou.

 

- Mesmo não sendo a errada, eu prefero não me encontrar com ele. Lizzy, peça a Mary que vá com você, por favor.

 

- Você ainda não o esqueceu, não é?

 

- Acho que meu amor por ele era mais profundo do que eu imaginava, pois está sendo difícil esquecê-lo, mas aos poucos vou conseguir, acho que preciso dar tempo ao tempo.

 

Lizzy sentia muita pena de Jane porque sabia o quanto a irmã estava apaixonada por Charles e o quanto o término do namoro devastara seu coração sensível.

 

- Estou com tanta raiva de Charles Bingley que quando o encontrar na exposição vou ignorá-lo, fazer de conta que nem o conheço.

 

- Não faça isto, Lizzy. Ele vai achar que somos realmente uma família sem educação e ele vai pensar que estava certo por ter terminado nosso namoro.

 

- Tudo bem, então, serei bem educada para mostrar que nós, as Bennet, somos a classe e a educação personificadas.

 

Jane caiu na gargalhada diante desta observação sarcástica de Lizzy.

 

Depois desta conversa, Lizzy foi pedir a Mary que a acompanhasse e esta surpreendentemente, saindo de seu casulo, aceitou dizendo:

 

- Vou com você, Lizzy. Quero muito ver esta exposição, deve estar muito bonita.

 

- Garanto que não irá se arrepender.

 

Assim Lizzy garantiu uma companhia, pois não poderia contar com Richard, que como curador da exposição, não teria tempo para lhe fazer companhia.