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O anjo de Pemberley - Capítulo 14

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Lizzy e Mary chegaram ao museu para a inauguração por volta das sete da noite, as salas já estavam lotadas pelos convidados e pela imprensa. Lizzy cumprimentou Richard que estava na entrada recebendo os que chegavam e lhe apresentou Mary.

 

- Parabéns, Richard, pelo sucesso desta exibição.

 

- Obrigado, Lizzy, por ter vindo e prazer em conhecê-la, Mary. Fiquem à vontade, mais tarde arrumo um tempo para conversarmos.

 

Mary chamou a atenção da irmã logo que começaram a adentrar o imenso salão.

 

- Veja, Lizzy, lá no canto esquerdo está um grupo de conhecidos, Lord Darcy, Charles Bingley e as irmãs dele, você acha que devemos ir até lá cumprimentá-los?

 

- De jeito nenhum! Pare de olhar na direção deles. Só vamos cumprimentá-los se não houver outro jeito, quero distância daquela gente. Vamos começar a ver os quadros do outro salão, assim evitamos o encontro com eles.

 

- Não estou entendendo, afinal são nossos conhecidos e não fizemos nada de errado para estarmos fugindo deles.

 

- É verdade, não fizemos nada de errado, mas quero manter distância deles, principalmente de Lord Darcy. Venha, Mary, por aqui.  – E Lizzy arrastou a irmã para o outro salão.

 

As irmãs observavam e comentavam os quadros quando uma mulher se aproximou delas, e chamou por Lizzy. Era Georgiana.

 

- Boa noite. – As duas irmãs cumprimentaram a jovem que aparentava estar bastante constrangida. - Posso conversar com você, Elizabeth, em particular?

 

- Claro que sim, Georgiana. Quero te apresentar minha irmã, Mary. Mary, esta é Georgiana Darcy, irmã de Lord Darcy.

 

Após os cumprimentos, Mary se afastou das duas mulheres deixando-as à vontade.

 

- Bem, Elizabeth, eu... Eu queria pedir desculpas pela forma como me comportei com você quando fomos assistir ao “Mamma Mia!”. Eu estava enciumada achando que você e Rick estavam namorando, mas agora sei que estava enganada, ele me disse que você até nos ajudou, deu um empurrão para que ele se resolvesse a declarar. Obrigada!

 

- Ah! Então, ele resolveu finalmente colocar as cartas na mesa! Não estava sabendo, não tenho conversado com Richard faz algum tempo, desde que entreguei minha matéria. Saiba que fico feliz por vocês. Fique tranqüila, ele sempre foi apenas um amigo querido. Desejo de coração que sejam felizes.

 

- Estamos felizes por estarmos juntos, mas estamos enfrentando problemas com William. Ele não aceita nosso namoro. Rick e eu não estamos sabendo o que fazer. Eu não queria contrariar meu irmão, mas estou vendo que não vou ter outra saída, vou ter que fazer uma escolha.

 

- Se me permite ser franca, não vejo um motivo realmente sério para Lord Darcy ser contra este namoro.

 

- William acha que sou jovem demais para me envolver com alguém muito mais velho. Acha que o que sinto por Rick é apenas um capricho de momento e que vou me arrepender mais tarde. Depois existe, também, o fato de sermos primos irmãos. Enfim, William não aprova nosso namoro de jeito nenhum.

 

A vontade de Lizzy era dizer a Georgiana que mandasse o irmão para o meio do inferno, mas diplomaticamente procurou amenizar a situação.

 

- Dê tempo ao tempo para que seu irmão acabe aceitando o relacionamento de vocês, para que ele veja que o seu amor por Richard é verdadeiro e não é apenas um capricho.

 

- É que fico aflita, não gosto de contrariar William que é tão bom para mim. Queria que ele aceitasse meu namoro com Rick, assim minha felicidade seria completa.

 

- Georgiana, infelizmente, na vida nunca se tem tudo. E é preciso muitas vezes fazer escolhas e conviver com situações que não são as ideais, que não são como a gente sonhou.

 

- Você tem razão, Lizzy. Posso te chamar de Lizzy, não é?

 

- Claro que sim. Quero muito ser sua amiga, assim como sou de Richard.

 

- Seremos sim, tenho certeza. Posso ficar com você e sua irmã? O Rick está ocupado recepcionando os convidados e disse que só vai poder ficar comigo mais tarde.

 

- Será um prazer. Vamos nos juntar a Mary e continuar vendo os quadros.

 

Esclarecido o incidente dos ciúmes, Georgiana voltou a ser a jovem simpática e amável que Lizzy conhecera em Pemberley e ambas tiveram certeza de que poderiam se tornar boas amigas.

 

As três jovens haviam visto a exposição inteira e pararam em um canto de um dos salões quando Richard se aproximou sorridente delas.

 

- Aí estão vocês. Vejo que esclareceram o mal entendido. Gostaram da exibição? O que acharam?

 

****************

 

Lizzy observava a movimentação do salão lotado enquanto o coquetel era servido, quando viu Lord Darcy vir em sua direção. Ele caminhava em passos largos e decididos. Ela não pôde deixar de observar como ele estava elegante em seu terno de corte impecável e pensou que gostaria de achá-lo menos atraente.

 

Será que ele está vindo falar comigo? Não temos mais nada a tratar?

 

- Boa noite Elizabeth Bennet. Por que está me evitando?

 

- Não o estou evitando, simplesmente não tenho nada mais a tratar com o senhor.

 

- É verdade, havia me esquecido que você perdeu completamente o interesse em continuar a escrever sobre Lady Clementine. – ironizou Darcy.

 

- Pode ter certeza. Vejo que tem boa memória, Lord Darcy.

 

- Não acha que depois do que já houve entre nós não há necessidade de me tratar com tanta cerimônia? Gostaria que me chamasse de William.

 

- Não houve nada entre nós e prefiro continuar tratando-o com toda a cerimônia que merece.

 

- Vejo que ainda continua bastante aborrecida comigo. E que não aceitou meu pedido de desculpas. Não imaginei que fosse tão rancorosa, afinal o meu pecado não foi tão grande assim. – Havia um leve tom de ironia e malícia na voz de Darcy que só fez aumentar a irritação que Lizzy sentia contra ele.

 

- Vejo que costuma ser bastante condescendente com suas próprias faltas.

 

A reação de Darcy foi inesperada, ele soltou uma gargalhada mostrando uma carreira de dentes perfeitos. Rindo ele parecia extraordinariamente mais jovem  e parecia se tornar ainda mais atraente.

 

- Admiro esta sua capacidade de ter resposta para tudo.

 

Lizzy pensou em pôr um fim àquela conversa e se afastar quando viu Caroline Bingley os observando e lançando olhares fulminantes que pareciam adagas mortais. Ela, apenas com o propósito de irritar Caroline, prosseguiu a conversa com Darcy.

 

- É o meu jeito de ser. Mas mudando de assunto, fiquei muito contente em saber que Richard e Georgiana estão namorando.

 

- E eu que pensei que era você que estava namorando Richard.

 

- Ficou com medo de que eu viesse a fazer parte de sua família? – ironizou Lizzy.

 

- Seria melhor que ele estivesse namorando você a Georgiana.

 

- Melhor para quem?

 

- Melhor para mim que não quero ver Georgiana envolvida com ele e para você também, ele é um excelente partido.

 

- O senhor está enganado, se está pensando que estou à procura de um marido rico que me sustente. Tenho minha profissão, que amo, e sou perfeitamente capaz de me sustentar sem recorrer a este expediente que acho desprezível.

 

- Então você está indo contra a vontade de sua mãe. Em Netherfield eu a ouvi dizer que seu maior sonho era ver as filhas casadas com homens ricos. Não foi nada inteligente da parte dela dizer isto, pois deu a entender a todos que Jane estava interessada apenas no dinheiro de Charles.

 

- Ah! Então foi por isto que aconselhou seu amigo a terminar o namoro com ela?

 

- Não apenas isto, acrescido pelo fato de que sua irmã nunca me pareceu realmente apaixonada por Charles.

 

- Jane é tímida, uma pessoa extremamente reservada em seus sentimentos. Saiba que ela amava Charles sinceramente, e sofreu muito com a separação. Sei que foi influenciado por seus conselhos que Charles decidiu romper o namoro com Jane. O senhor não tinha o direito de separar duas pessoas que poderiam ser muito felizes juntas.

 

- Não me arrependo do que fiz, defendi apenas os interesses de meu amigo.

 

- Ah! Como o senhor pode saber o que é o melhor para seu amigo?  O senhor quer dirigir a vida de seus amigos e parentes, como dirige suas empresas, tomando decisões por eles.

 

A primeira reação de Darcy ao ouvir esta opinião tão franca a seu respeito foi de indignação, a única pessoa que falara com ele deste jeito havia sido seu falecido pai.

 

- A senhorita não acha que está ultrapassando os limites da cerimônia de que diz sou merecedor, emitindo suas opiniões de forma tão contundentes? Não sei por que estou dando satisfações a você.

 

- Ah! O senhor queria que eu concordasse com tudo que diz como devem fazer todos que o cercam?

 

Neste momento Richard se aproximou dos dois interrompendo a acalorada discussão que travavam.

 

- Lizzy, você e Mary são minhas convidadas para o jantar que reservei no restaurante do Gordon Ramsey no Claridge’s.

 

- Obrigada, Richard, mas...

 

- Não vou aceitar uma recusa. Faço questão absoluta da presença de vocês, ficarei ofendido se não forem.  – Diante da quase imposição de Richard, Lizzy não teve como recusar o convite.

 

- William, vou te pedir um favor, poderia levar Lizzy e Mary em seu carro, pois vou levar comigo Georgiana e o diretor do museu de Amsterdã e sua esposa.

 

- Será um prazer levar as irmãs Bennet comigo. – Podia ser apenas impressão sua, mas Lizzy achou que havia ironia no tom de voz de Lord Darcy, o que a deixou bastante irritada.

 

Neste momento Caroline Bingley se aproximou do grupo e disse para Darcy:

 

- William, posso ir com você ao restaurante?

 

A William, como cavalheiro, não restou alternativa senão concordar e Caroline imediatamente propôs:

 

- Elizabeth e Mary poderão ir com Charles que irá sozinho. – e voltando-se para o irmão que se aproximava, disse: - Charles, você poderia levar as senhoritas Bennet ao restaurante? Eu vou com o William.

 

Todos os presentes estavam atônitos com o arranjo que Caroline fizera para ficar a sós com Darcy e a este não escapou o sorriso sarcástico que aflorou nos lábios de Lizzy.

 

- Será um prazer ter a companhia de vocês. Vamos Lizzy e Mary. – Charles Bingley parecia realmente satisfeito com a incumbência de dar carona às irmãs de Jane.

 

- Tudo bem com você, Charles?

 

- Sim, tudo bem. Eu... Eu gostaria de saber como está Jane. Ela está bem?

 

- Jane, agora, está ótima, felizmente conseguiu superar o sofrimento que foi para ela o fim do namoro de vocês. – Lizzy se arrependeu imediatamente da mentira, mas não tinha mais como recolher o que dissera e teria que sustentá-la até o fim.

 

- Jane... Jane já encontrou outra pessoa?

 

- Linda como é, nunca lhe faltaram admiradores. – desta vez resolveu ser vaga na resposta.

 

Lizzy chegou a ficar com pena da decepção e tristeza que viu nos olhos azuis de Charles.

 

- Mande-lhe lembranças minhas, não se esqueça de dizer que perguntei por ela.

 

- Pode ficar tranqüilo, não me esquecerei.

 

Não vou ficar com pena dele. Ele merece sofrer as penas do inferno por ter terminado com Jane do jeito que terminou, fazendo a coitada sofrer duplamente.

 

Logo que o grupo chegou ao restaurante foram conduzidos à mesa reservada e Caroline desta vez não logrou êxito, apesar de suas manobras para se sentar ao lado de Darcy. Foram Lizzy e Mary que se sentaram ao lado dele.

 

Darcy parecia ressentido com a conversa que tivera com Lizzy e dirigiu sua atenção à Mary mostrando-se extremamente simpático com ela, esforçando-se em colocar a tímida jovem à vontade. Lizzy ouviu surpresa a conversa dos dois.

 

- Não sabia que você é violinista. É um instrumento que exige muita dedicação, aliás, como todos os instrumentos musicais.

 

- É verdade, só não estudo mais por absoluta falta de tempo, trabalho tempo integral numa escola de música para crianças. Tentei uma vaga no curso de pós-graduação do Royal College of Music, mas fui reprovada, acho que fiquei nervosa demais na hora de me apresentar aos professores da comissão examinadora.

 

- Sou um dos patronos da Orquestra Filarmônica de Londres, se quiser posso lhe dar uma carta de apresentação.  Existem lá projetos de longa duração para que músicos jovens talentosos tenham acesso à orquestra através de programas de estágios e de tutoria.

 

- Uau! A Orquestra Filarmônica de Londres! Seria um grande sonho. Mas como o senhor mesmo disse são para músicos talentosos, chego a duvidar de que tenha talento.

 

- Mary é muito talentosa e esforçada, Lord Darcy. – comentou Lizzy, que até então estivera calada, mas que não pôde deixar de dar sua opinião em defesa da irmã.

 

- Amanhã mesmo vou providenciar a carta de apresentação para você se inscrever num dos programas. Claro que terá que fazer todos os testes como qualquer outro candidato, e desta vez trate de não ficar muito nervosa.

 

- Muito obrigada, tenho certeza de que sua indicação irá me ajudar muito.

 

Lizzy estava surpresa com a gentileza com que Lord Darcy estava tratando Mary.

 

Decididamente desisto de querer entender este homem!

 

Terminado o jantar, outra surpresa aguardava Lizzy. Após se despedir de todos, ela e Mary se dirigiram à entrada no hotel. Lizzy estava pedindo ao porteiro que chamasse um táxi para elas, quando ouviram Lord Darcy dizer:

 

- Não há necessidade de chamar o táxi, vocês irão embora comigo.

 

- Não queremos incomodá-lo, Lord Darcy. – Disse Lizzy sem entender aquela atitude inesperada.

 

- Não é incômodo algum.

 

Durante o curto trajeto a conversa girou em torno do delicioso jantar e da exposição. Quando chegaram em frente ao edifício onde as Bennet moravam. Lord Darcy entregou a Mary um cartão dizendo:

 

- Mary, aqui está o número de telefone do meu escritório, ligue amanhã à tarde para minha secretária para saber o dia em que poderá ir buscar a carta de apresentação para a Filarmônica. Boa noite, a companhia de vocês foi um prazer. – E voltando-se para Lizzy disse com um ligeiro sorriso malicioso no belo rosto. - Elizabeth, você precisa me conhecer melhor, verá que não sou o déspota que você imagina que eu seja.

 

Não tenho interesse algum em conhecê-lo melhor.” – Foi a resposta que veio imediatamente à cabeça de Lizzy, mas ela achou melhor se calar para não prejudicar a ajuda que Lord Darcy estava disposto a dar à Mary.