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O anjo de Pemberley - Capítulo 15

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

- Lizzy, Charles estava ontem na inauguração? – foi a primeira pergunta que Jane fez à irmã durante o café da manhã.

 

- Estava sim.

 

- E... Como ele está?

 

- Está bem, nos deu uma carona até o restaurante, falou de você durante todo o trajeto e pediu para eu não me esquecer de dizer que ele mandou lembranças.

 

Um sorriso triste aflorou no rosto de Jane.

 

- Ele estava sozinho?

 

- Se você quer saber se ele estava acompanhado de alguma namorada, a resposta é não. Mas acompanhado de suas irmãs, aquelas duas megeras.

 

- Lizzy, elas são um pouco fúteis, mas não são pessoas más.

 

- Só você mesmo para ver bondade naquelas serpentes. Sou capaz de apostar como elas também colaboraram e muito para que o namoro de vocês terminasse, envenenando a cabeça do irmão.

 

- Acho que se Charles me amasse de verdade, ele não teria se deixado levar pela influência de Lord Darcy e nem de suas irmãs. Foi melhor mesmo tudo ter terminado.

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Lord Darcy foi fiel a sua palavra e providenciou a prometida carta de apresentação para Mary, que a partir de então, todos os dias, cantava loas a ele, era Deus no céu e Lord Darcy na Terra, o que irritava profundamente Lizzy.

 

- Você precisa acabar de uma vez por todas com esta implicância que tem contra Lord Darcy, precisa respeitar o direito que ele tem de não querer a divulgação da estória de Lady Clementine. Afinal quem está errada é você.

 

- Tudo bem, reconheço o direito dele em não querer a divulgação da estória de Lady Clementine. Mas e o que ele fez para Jane? Não se esqueça de que foi ele quem envenenou a cabeça de Bingley para desmanchar o namoro deles.

 

- Não, não me esqueci. Acho inclusive que esta carta de apresentação que me deu, foi uma forma dele se redimir do mal que causou a Jane. O que você acha?

 

- Realmente, eu também estranhei sua atitude em querer ajudar você, uma pessoa que ele mal conhecia. Não entendi porque fez isto, pois ele não me parece ser o tipo de pessoa dada a estes atos magnânimos. Mas, seja lá qual tenha sido a motivação dele, o importante é que ele te ajudou, deu aquele empurrão, agora só cabe a você conseguir esta bolsa de estudos.

 

- Estou confiante de que desta vez vou conseguir, Lizzy.

 

- Você é talentosa, Mary, procure ficar calma no dia do teste, que será aprovada.

 

- Estou praticando respiração iogue para me manter calma e parece que está funcionando.

 

- É isto aí. Agora o que me preocupa é Jane, já se passaram seis meses que ela terminou o namoro com Charles e parece que ainda não o esqueceu, continua apaixonada por ele. Ela procura disfarçar para não preocupar a gente, mas ainda está sofrendo com a separação.

 

- Eu, no lugar dela, teria esquecido o Charles rapidinho, só com o ódio que sentiria dele. – retrucou Mary com indignação.

 

- Nestas questões do coração cada pessoa reage de um jeito diferente e tem o seu tempo para se recuperar, mas, em minha opinião, Jane está demorando demais para esquecer Charles e partir para um novo amor. – concluiu Lizzy.

 

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Terminada a matéria que escrevera para a exposição de Van Gogh, Lizzy não mantinha mais contato freqüente com Richard, mas este, sempre fiel às suas amizades, ligou para ela uma tarde.

 

- Lizzy, estou com saudades de você, faz tanto tempo que não nos vemos. Liguei para convidá-la para jantar comigo e com Georgie, uma noite destas, vamos colocar a conversa em dia.

 

- Eu também estou saudosa de nossos papos. Pode marcar, à noite geralmente estou sempre disponível.

 

- Você está precisando arrumar logo um namorado para não ficar tão disponível assim. – Ironizou Richard em tom de brincadeira.

 

- Estou procurando minha alma gêmea. – retrucou Lizzy.

 

- Faço votos que a encontre logo.

 

O jantar aconteceu numa acolhedora cantina italiana alguns dias depois.

 

- E aí, como estão os pombinhos? – perguntou Lizzy vendo Georgiana e Richard sentados à sua frente formando um belo par.

 

- Vamos bem, sou o homem mais feliz do mundo por ter Georgie comigo.

 

- E eu a mulher mais feliz do mundo por Rick me amar, mas ando chateada porque não há meio do William aceitar nosso namoro.

 

- Vocês já tentaram conversar com ele, chamá-lo à razão? Não vejo um só motivo razoável para que ele seja contrário ao namoro de vocês.

 

- Ele fica batendo na mesma tecla, dizendo que o que sinto por Rick é apenas um entusiasmo de adolescente e que logo isto vai passar e que vou me arrepender se me casar com ele, pois adoro crianças e não vou poder ter filhos com ele.

 

- Mas pode adotá-los, há tantas crianças abandonadas precisando de um lar. Gostaria de advogar a causa de vocês junto a Lord Darcy, mas vocês sabem que nós nunca nos entendemos e ele não daria ouvidos ao que eu dissesse.

 

- Não se preocupe, Lizzy, somos nós mesmos que precisamos resolver este impasse com ele. Se William continuar mantendo esta posição intransigente, terei que escolher entre ele ou Rick. Vou sofrer muito, porque amo meu irmão, mas minha escolha será o Rick. – Georgiana pareceu estranhamente madura e adulta ao pronunciar estas palavras.

 

- Meu amor, não vamos sofrer por antecedência, pode ser que com o tempo William reconsidere sua postura inflexível e possamos resolver tudo sem precisar tomar medidas tão extremas. – ponderou Richard segurando a mão direita de Georgiana e depositando nela um beijo cheio de ternura.

 

O gesto carinhoso comoveu Lizzy e ela sentiu o grande vazio sentimental que era sua vida, sem ter a quem amar e por quem lutar.

 

- Lizzy, mudando de assunto, estou para te perguntar há algum tempo: que fim levou aquela matéria que você estava escrevendo sobre minha antepassada Lady Clementine?

 

- Não concluída e arquivada. Depois do desentendimento que tive com seu irmão desisti de escrevê-la, pois estão me faltando dados, inclusive nem cheguei a terminar de ler o diário, pois perdi muito tempo fazendo anotações, não achava que seria descoberta e tivesse que sair corrida de Pemberley.

 

- Entendo.

 

- Tenho alguns capítulos da matéria prontos, mas está inacabada.

 

- Eu gostaria muito de ler o que já escreveu, Lizzy.

 

- Se quiser te mando uma cópia por email.

 

 

*******************

 

- Lizzy vai acontecer o jantar anual da associação dos advogados na semana que vem. Estou na dúvida, se vou ou não, pois Charles estará presente e não sei se estou preparada para reencontrá-lo.

 

- Jane, você não pode ficar a vida inteira fugindo dele. Você deve ir e enfrentar de uma vez por todas este encontro. Em minha opinião, será o primeiro passo para você começar a esquecê-lo, o que já está passando da hora. Ninguém mais fica, nos dias de hoje, curtindo por meses um amor que passou.

 

- Mas o que você quer que eu faça? Não consigo esquecê-lo, todo dia penso nele, sempre existe algo que me faz lembrar os momentos que vivemos juntos, uma música, um filme, um lugar...

 

- Que inferno que deve ser isto, Jane! Procure desviar estes pensamentos quando eles vêm. Que tal se você começasse a sair com algum dos rapazes com quem trabalha? Aposto que não faltam candidatos.

 

- Não acho justo fazer isto. Sair com uma pessoa pensando em outra.

 

- Hoje em dia ninguém tem mais estes escrúpulos.

 

- Mas eu tenho. Não me sentiria bem agindo desta forma.

 

- Tudo bem se quer esperar esquecer Charles naturalmente, mas você vai começar dar o primeiro passo indo a este jantar da Associação. Vai caprichar no visual para que ele se arrependa mortalmente por ter terminado o namoro com você. Aliás, pela conversa que tivemos, ele me pareceu que ainda não te esqueceu.

 

- Você tem razão, vou a este jantar, se Charles vier conversar comigo, conversarei com ele normalmente, e como você disse: este será o primeiro passo para começar a esquecê-lo.

 

- É assim que se fala. Vá à luta Jane. Você sairá vitoriosa!

 

Não foi preciso muito esforço para Jane ficar linda para o jantar de gala da Associação. Seguindo o conselho de Lizzy, ela comprou um vestido novo, escolhendo um modelo que realçava sua bela figura e ao mesmo tempo a deixara sexy sem torná-la vulgar.

 

- Jane, você está vestida para matar! – comentou Lizzy ao ver a irmã mais velha pronta para sair. - Aposto que aquele idiota do Charles Bingley vai se arrepender amargamente por tê-la desprezado.

 

- Lizzy, ele não me desprezou e não é idiota. Ele foi bastante gentil quando terminamos, dizendo que não tinha certeza de me amar o suficiente para nos casarmos. Foi uma atitude honesta da parte dele e foi melhor ele ter reconhecido isto antes de estarmos casados.

 

- Bem, não se esqueça de tratá-lo com frieza para mostrar que você já o esqueceu.

 

- Você é impossível, Lizzy. Nem sei se ele virá conversar comigo.

 

- Não tenho a menor dúvida que virá. Aposto o que quiser. Vou esperar acordada você voltar, pois quero saber nos mínimos detalhes, o que vai acontecer.

 

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Jane chegou à sede da Associação dos Advogados que estava lotado para o jantar anual de confraternização. Ela encontrou seus colegas de trabalho e ficou conversando numa animada roda formada por eles, recebeu muitos elogios, claras tentativas de flerte e as manobras de vários advogados, amigos de seus colegas de escritório, que queriam ser apresentados a ela. Toda esta movimentação acabou com a insegurança de Jane e deu-lhe a certeza de que tudo iria correr bem naquela noite.

 

Quando os convidados estavam se dirigindo às mesas, ela viu Charles Bingley se aproximar em passos rápidos.

 

- Jane, que prazer encontrá-la.

 

- Como está, Charles?

 

- Bem e você? – Ele parecia bastante nervoso e se via o brilho do suor em sua testa apesar da temperatura ambiente não estar quente.

 

- Estou bem. Lizzy me contou que vocês se encontraram no Tate.

 

- Sim, Lizzy e Mary. – Charles Bingley olhava fascinado para a bela Jane e depois destes longos meses em que não se viam, ela lhe pareceu ainda mais bela.

 

- Não gostaria de se sentar junto comigo e com o pessoal de meu escritório para podermos conversar melhor?

 

- Obrigada, Charles, mas vou ficar com meus colegas. Com licença, eles estão me chamando. Foi um prazer rever você.

 

Jane sentiu durante todo o jantar os olhos de Charles fixos em si, a ponto de incomodá-la, pois não conseguiu desfrutar nem da comida e nem da companhia alegre e descontraída de seus colegas.

 

Ao final do jantar, Charles se aproximou novamente de Jane em meio ao tumulto formado pelas pessoas que se despediam no saguão de entrada.

 

- Jane, posso lhe dar uma carona? Precisava muito conversar com você.

 

- Obrigada, Charles, mas já aceitei a carona de um dos meus colegas do escritório.

 

- Será que não podemos continuar a ser bons amigos?

 

- Mas nós somos amigos, não o considero meu inimigo.

 

- Quero dizer... Eu quero dizer continuarmos a nos ver, sairmos juntos de vez enquanto...

 

- Não. Não há o menor sentido em continuarmos a nos ver desta forma. Nós já tivemos nossa experiência juntos e não deu certo, agora é melhor cada um seguir seu caminho.

 

- Jane, Eu queria te dizer que me arrependi amargamente por ter terminado nosso namoro. Sinto muita falta de você e não consigo te esquecer.

 

- Charles, como já disse não vamos ficar insistindo em algo que já terminou. Vou ser sincera com você. Sou uma mulher adulta, estou com 26 anos, e procurando alguém para ter um relacionamento sério, casar, ter filhos, não quero voltar a me envolver com você num relacionamento inconseqüente, sem perspectivas.

 

- Entendo...- Disse Charles

 

- Sinto muito se eu e minha família demos a impressão de que estávamos atrás de seu dinheiro. Acredite-me, meu sentimento por você foi sincero, tanto que sofri muito com nossa separação, por isto não quero insistir num relacionamento que já provou que não dará certo. É melhor deixarmos tudo como está. Boa noite.

 

Jane se afastou rapidamente de Charles para evitar que ele visse seus olhos que começavam a marejar de lágrimas e foi à procura do colega que havia lhe oferecido carona.

 

Lizzy aguardava Jane acordada, assistindo a um filme na TV, quando ouviu o relato da irmã sobre os acontecimentos da noite, Lizzy se indignou:

 

- Que estória de bons amigos é essa! Você fez muito bem em responder a ele da forma que respondeu. Não sei como você pode gostar de um sujeito fraco e inseguro como ele.

 

- Falei o que sentia, mas acabei ficando com pena dele.

 

- Não sinto pena alguma dele. Em outras palavras, acho que ele queria que você aceitasse o posto de amante dele enquanto ele procura alguma rica herdeira para ser a esposa. Você é educada demais, eu o teria mandado para o meio do inferno!

 

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- William, será que posso conversar com você alguns minutos? Não quero atrapalhá-lo. – Georgiana entrou na biblioteca onde o irmão costuma trabalhar ou ler após o jantar.

 

- Claro, Georgie, sabe que sempre tenho tempo para você.

 

- Gostaria de lhe pedir um favor. Quero que leia isto. – Georgiana estendeu ao irmão um envelope de papel pardo.

 

- O que é?

 

- Uma cópia da matéria inacabada que Elizabeth Bennet escreveu sobre Lady Clementine.

 

- Não acredito que agora ela usou você para me convencer a publicar esta matéria.

 

- Não, está enganado. Lizzy não me pediu nada, inclusive me disse que havia desistido de publicá-la. Fui eu que pedi a ela para me mostrar a matéria. Quero que você a leia. Não será nenhum sacrifício, pois está muito bem escrita, depois me diga se a matéria não merece ser concluída e publicada.

 

- Está bem, quando tiver tempo lerei.

 

Lord Darcy colocou o envelope que Georgiana lhe entregou junto a outros papéis sobre sua mesa.

 

Passados alguns dias, numa tarde de domingo, Lord Darcy resolveu colocar ordem na papelada que estava amontoada sobre sua mesa de trabalho, quando se deparou com o envelope que Georgiana lhe entregara contendo a matéria de Elizabeth Bennet. Consistia em várias folhas impressas, na primeira havia a cópia de um email que Elizabeth enviara para Georgiana:

 

“Olá, Georgie. Estou mandando em anexo a parte da matéria que escrevi sobre Lady Clementine Darcy que você me pediu. Depois quero saber o que achou. Bjs. Lizzy.”

Na segunda folha em preto estava o título da matéria em letras grandes:

 

O Anjo de Pemberley por Elizabeth Bennet

 

A figura de Elizabeth Bennet veio imediatamente à mente de Lord Darcy, seu corpo delgado, o rosto de feições finas com aqueles magníficos olhos castanhos emoldurados por cílios espessos e longos. Os mais belos olhos que ele já vira num rosto de mulher.

 

Elizabeth podia ser uma jovem impertinente, sem papas na língua, mas sem dúvida, era inteligente, corajosa e determinada, não podia deixar de admirá-la por estas qualidades, admirava as pessoas corajosas que lutavam pelo que queriam.

 

William relembrou a forma tempestuosa como conhecera Elizabeth Bennet, como ela chegara atrasada à entrevista marcada e a maneira intempestiva e pouco respeitosa como se apresentara a ele, forçando sua presença, mas William conhecia os jornalistas e sabia que fazia parte de sua profissão ser atrevidos. A partir daí, uma série de acontecimentos havia cooperado para que o desentendimento entre eles só aumentasse.

 

Em seguida, a cena no panteão de Netherfield voltou à sua memória como num filme. Não conseguia esquecer os beijos trocados e a forte atração física que sentia por Elizabeth, sem que ela nada tivesse feito para provocá-la. Já era tempo de ter esquecido este episódio, mas bastou revê-la no Tate para sentir que o antigo fascínio voltara com força renovada.

 

Havia sido manobra sua se sentar ao lado das irmãs no jantar. Procurara conversar com Mary, pois sentia que Elizabeth estava pouco receptiva depois da discussão que haviam tido a respeito de Bingley e Jane. O auxílio que oferecera à Mary acontecera espontaneamente, não custava nada a ele escrever uma carta de apresentação, fora um pedido de desculpas e uma forma de tentar apagar a má impressão que causara nas Bennet.

 

Lord Darcy deixou de lado suas divagações e começou a ler o primeiro parágrafo da matéria. Não conseguiu mais parar. O texto de Elizabeth tinha o poder de cativar o leitor logo nas primeiras linhas, envolvendo-o na trama do enredo através de uma redação clara e muito bem escrita, relevando um trabalho de pesquisa de época cuidadosa.

 

A parte relativa ao diário de Lady Clementine estava romanceada. A matéria não continha nada que pudesse denegrir a imagem pública da família Darcy, muito pelo contrário qualquer membro dela deveria se sentir orgulhoso por ter uma antepassada como ela.

 

William decidiu, neste momento, que daria permissão para que Elizabeth terminasse suas pesquisas nos documentos da família e que publicasse a matéria sobre Lady Clementine.

 

O pensamento de que ele estava tentando uma reaproximação com Elizabeth incomodou William, onde estava a prudência que ele recomendara a Charles se ele estava incorrendo no mesmo erro. Queria verificar se a atração que sentia por ela resistiria a uma convivência assídua.