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Corazon Partío - Capítulo IV

Escrito por Indira Ligado . Publicado em Corazon Partío - A verdade sobre Caroline

Caroline teve pela primeira vez uma noite insone pensando num homem. Emoções conflitantes lhe povoavam. Tivera seu primeiro beijo! Seu primeiro contato tão íntimo com um homem, e não poderia dizer que fora ruim, pelo contrário, gostara muito. O espanhol tinha uma boca tão macia, saborosa, um cheiro bom, um abraço acolhedor.

Por um lado flutuava, por outro se sentia ofendida pela ousadia do homem. Ele a confundira com uma cortesã ou era fantasia de sua cabeça? Não sabia se ficava ofendida ou se achava graça. Ela, Caroline Bigley, uma cortesã? Sentia ainda mais vontade de sorrir. Criada com tudo de melhor, em meio ao luxo e ao glamour, uma cortesã?

Contraiu os lábios num sorriso tímido. Nunca mais se sentira desejada por um homem depois da rejeição que sofrera, e por incrível que pareça se sentia melhor agora. Talvez Darcy não a quisesse, mas outros homens a queriam, não devido ao seu dote ou a sua família, mas por ela mesma.

Sabia que o certo seria contar ao irmão sobre o acontecera, mas preferiu ficar quieta, aquela loucura já acabara, e, no fim das contas vivera uma aventura, agora tinha algo divertido para lembrar, uma recordação intensa da Espanha que ficaria marcada para sempre em sua memória.

Não muito distante dali, Enrique galopava a toda velocidade em seu cavalo. Precisava domar aquela inglesa brava. Não estava acostumado a ouvir “não”, e a inglesa não ia deixá-lo a ver navios. Encontrou sua cunhada e Hassan – seu sobrinho mais velho – no caminho. Estava irritado, talvez uma conversa com Melia lhe apaziguasse os ânimos.

- Vai nos acompanhar ao teatro esta noite, meu cunhado? – a princesa indagou conduzido majestosamente o animal enquanto seu filho montava um pônei mais a frente.

- Não, tenho coisas mais interessantes a resolver. – ele explicou sedutor para provocar seu sorriso.

- É uma pena. Queria que conhecesse a moça que veio com o irmão e a cunhada jantar na outra noite.

- Eu nunca esperei que justamente você quisesse me casar, Melia! – Enrique fez um gesto dramático protegendo o coração – Pensei que estivesse do meu lado contra moças casadoiras e interesseiras.

- E eu estou! Não tenho nenhuma intenção de casá-lo com a moça, só acredito que você seria um ótimo guia para ela nos seus dias de passagem pela Espanha. Percebi que ela ficou um pouco entediada no jantar. Não a culpo, não havia ninguém além de casais mais velhos para entretê-la.

- Tenho cara de bobo da corte, princesa?

- Não, Enrique, você sabe bem disso! Mas esses ingleses são tão frios! E a moça tinha uma tristeza no olhar, algo me diz que ela merecia conhecer realmente o que é diversão, e nisso sim você é especialista!

Um alarme soou na cabeça de Enrique. “Ingleses”! Tinha a impressão de que cometera um estrondoso engano.

- Por Deus Santo! Não me diga que a tal moça é ruiva e possui encantadores olho verdes?

Melia sorriu curiosa. O que o cunhado tinha aprontado?

- É essa mesma. Miss Caroline Bingley! O que fez com a moça, Enrique? Não venha me contar que ela já sucumbiu aos seus encantos?

- Se eu contar, jura que não vai me delatar?

- Já o fiz alguma vez? – ela piscou o olhou divertida.

Enrique narrou à princesa tudo o que se passara entre ele e Caroline desde a primeira vez em que se encontraram. Melia achava graça da situação em que Enrique se metera. Teria sorte se Caroline nunca ficasse sabendo quem ele era e a que família pertencia.

- Eu preciso me retratar, Melia. Preciso pedir perdão à estrangeira! E você irá me ajudar.

- Então vá ao teatro e peça desculpas pessoalmente.

- Não posso! E se ela falar aos meus pais sobre a atitude covarde que tive para com ela? Não, temos que pensar em outro jeito.

 

~x~

 

Caroline observava as pessoas com atenção, talvez pudesse reconhecer o pescador. Mas passara o dia passeando e ninguém com olhos negros tão expressivos lhe surgia à frente. Ousara perguntar a um ou outro vendedor se conheciam algum Dom Enrique, mas por se tratar de um nome comum na Espanha tornava-se complicado. Não voltaria à praia, não sabia se queria vê-lo de novo, mas estava curiosa para descobrir de quem se tratava, já que ele dizia não ser realmente um pescador.

No teatro foram recebidos no luxuoso camarote do Duque. As pessoas chegavam aos poucos, o burburinho inicial preenchia o espaço. Foram apresentados às melhores famílias de Barcelona, mas Caroline já estava cansada de trocar amabilidades e torcia para que o espetáculo se iniciasse.

No primeiro intervalo as damas foram dar uma volta. Jane e a duquesa mais à frente e Caroline e a princesa Melia um pouco afastadas. Um serviçal se aproximou e entregou um papel a Caroline, que ficou um pouco confusa.

- Pelo visto os admiradores não perdem tempo. – Melia comentou e Caroline corou – Não vai ler? – indagou frente à indecisão de Caroline.

- Eu não devo.

- Oras! Quem disse? Uma das melhores coisas da juventude é burlar as regras. Vá, abra o bilhete, acompanharei sua cunhada e minha sogra para lhe dar mais privacidade.

Caroline abriu o papel nervosa. Quem cometera aquele desatino? Uma letra bem desenhada ocupava o pequeno espaço do papel.

 

“Miss Caroline,

Minha conduta ontem foi imperdoável. Minha mente angustiada necessita do seu perdão. Permita-me implorar por ele pessoalmente?

Aguardo-lhe no hall de saída do teatro no segundo intervalo. Esperarei contando os segundos.

Ass. Seu Pescador.

 

- Ele só pode estar louco! – Caroline tapava o sorriso com as mãos enluvadas sem saber que Melia a observava de longe.

Nunca o segundo intervalo demorou tanto. Caroline fitava a platéia inquieta, mexendo as mãos sobre o colo e batendo o pé no chão. Melia sorria ante a ansiedade da juventude e os outros pareciam não notar, com exceção de Jane, que indagou se Caroline tinha algum problema, mas ela negou e procurou disfarçar seu nervosismo.

Quando a campainha do intervalo soou Melia apressou-se em ficar ao lado de Caroline mais uma vez, indagou sobre o bilhete, o qual Caroline respondeu tímida. Depois a aconselhou a não se preocupar, não necessitava ter pressa, ela mesma trataria de dar uma desculpa para sua ausência. Depois, um pouco mais distante dos outros, a princesa lhe soltou o braço discretamente e as duas se separaram cúmplices.

A ruiva desceu as escadas lentamente até chegar ao hall. Atraído pelos sons dos saltos dela ecoando pelo piso, o pescador surgiu por detrás de uma das grandes colunas.

Ele esperou ela se aproximar e fez uma profunda reverência para depois tomar-lhe a mão num suave roçar de lábios, evocando lembranças do beijo da noite anterior e provocando arrepios em Caroline.

- Não tenho palavras para expressar o quanto lamento pelo episódio da noite passada, Señorita.

Sorriu tímida. Nem ela lamentava quando se lembrava do beijo.

- Você tem consciência então de que foi imensamente rude?

- Sim, señorita.

- Pensava que eu não tinha nome ou família?

Ele assentiu mais uma vez.

- E acreditou que eu era uma cortesã?

Com um leve balançar de cabeça concordou com a pergunta, sentindo que sua situação estava cada vez pior.

- E acredita que me ofendeu com tais modos?

- Infelizmente, sim. – Não sabia onde aquele interrogatório ia parar, mas temia as conseqüências.

- Não tem respeito pelas mulheres que por necessidade vendem o corpo e a saúde?

- Tenho, bastante! Seu trabalho é realmente admirável! - Caroline levantou a sobrancelha de forma inquiridora – É realmente sacrifício muito grande, uma sina difícil de carregar. – ele mudou o tom.

- Então por que teme ter me ofendido?

- Não ofendi? – ele indagou esperançoso.

Caroline divertia-se. Como mudara. Na noite anterior estava seguro e decidido, e agora parecia um menino assustado com receio de levar uma surra da mãe. E ainda assim continuava lindo.

- Um pouco. Você foi rude e grosseiro em me, me... – não sabia como se referir ao beijo – Em se aproveitar de mim daquela forma.

- Sim, peço perdão pelo patife que fui. Permita-me recompensá-la esta noite!

- Esta noite? Estou assistindo ao espetáculo.

- Garanto-lhe que se divertirá mais na minha companhia.

- O que direi aos meus parentes?

- Diga que se sentiu mal e tomou um coche de volta para o hotel.

Caroline ficou levemente pensativa, mas logo se decidiu. Estava na Espanha, longe de casa, não lhe faria mal mais uma aventura. Concordou com a loucura e resolveu acompanhá-lo.

O coche penetrava ruelas escuras e isoladas. Caroline começou a temer, mas nada disse.

Pararam em frente ao que parecia ser uma festa de criados. Ela engoliu em seco, nunca vira nada parecido, nunca pensara nem que criados se divertiam.

Respire fundo. – ela ordenava a si mesma em pensamento – Logo tudo vai acabar.

 

Todos cumprimentavam o “pescador” como iguais, entre abraços efusivos e expressões típicas em catalão que Caroline não entendia, reforçando a teoria de sua origem humilde que Caroline acreditara anteriormente. Mas alguns estranhavam um pouco a presença dela, olhando-a com curiosidade, o que era óbvio, visto sua total inadequação ao ambiente.

As mulheres a olhavam receosas, e os homens admiravam-na, enquanto ela ficava cada vez mais envergonhada.

- Não se preocupe, - Enrique mirou a face assustada de Caroline - você não vai querer ir embora ao fim da noite.

Mesmo sem confiar em tal afirmação Caroline não mudou de idéia. Estava ali, então iria até o fim. Continuaram entrando no ambiente quente, em contraste com o clima ameno da rua. A medida que se afastavam da entrada começavam a ouvir os acordes de uma canção nada suave e bastante harmônica. Enrique recebeu dois canecos de vinho e agradeceu com o que ela entendeu como uma piada a um rapazinho bem mais jovem.

 

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Puderam visualizar duas mulheres dançando no centro do salão. Vestiam vestidos de cores fortes e vivas. O salto de seus sapatos ecoavam alto, batendo no ritmo da música. Nas mãos objetos pequenos com um barulho característico acompanhavam a performance. Enrique explicou-lhe que a banda tocava música flamenca e a função e origem das castanholas, os tais objetos, que foram incorporados à cultura espanhola pelos ciganos.

 

http://www.flickr.com/photos/jucalil/1468326680/

 

Caroline observava surpresa a forma graciosa com que as mulheres dançavam. Seus braços e mãos movimentavam-se de forma encantadora. Suas pernas eram rápidas e firmes. Estava adorando. Entregou a caneca de vinho vazia a Enrique.

- Pelo visto você passou a apreciar o nosso vinho. – ele sussurrou em seu ouvido devido ao barulho.

- Passada a estranheza inicial ele fica bem mais saboroso. Vai ser difícil voltar a me acostumar aos vinhos suaves da Inglaterra. – arrependia-se de ter falado em seu país. Fazia-a se lembrar do que viera esquecer.

- Vou providenciar mais. – ele se afastou com as canecas vazias e voltou com uma bandeja com pães recheados e mais vinho.

- Prove destes pães, são feitos com tomate seco e queijo, um verdadeiro manjar.

Caroline estranhou. Tinha que pegar o pão com a mão e comer em pé. Mas não voltou atrás. Nunca comera nada tão delicioso. Comeu um sanduíche inteiro enquanto mais mulheres acompanhavam as duas primeiras sob olhar satisfeito de Enrique que também comia do seu pão.

- Quero mais! - Caroline mostrou a caneca e as mãos vazias. Não era de bom tom mulheres mostrarem-se famintas. Mas todos ali comiam sem regras, saboreando as delícias, não ia se importar.

Ele negou com a cabeça.

- O que?

- Não pode se embebedar e nem comer mais pão, tem outras coisas que quero que prove.

- E se eu quiser ficar bêbada? – ela sorria, mais solta com o efeito da bebida.

- Só um pouco então.

Enrique fez sinal e o rapazinho colocou numa mesa de madeira rústica perto dos dois um garrafão de vinho. Ele encheu metade do caneco de Caroline e completou o seu. Os homens começavam a dançar com as mulheres. Caroline espantou-se com o convite e a proximidade entre homens e mulheres durante a dança. Eles se apossavam das cinturas das damas e cochichavam-lhes no ouvido.

- Concede-me essa dança? – Enrique indagou depois de uma mesura.

Por que ele não fizera como os outros? – Caroline indagava pensativa - Por que fora tão formal?

- Eu?

- Não estou vendo mais nenhuma moça que me desperte o desejo de dançar.

- Eu não sei dançar esse tipo de música!

- Basta me acompanhar. – sem aceitar recusas Enrique levou-a pela mão até o salão onde estavam os outros casais.

O total desconhecimento sobre a dança atrapalhava Caroline, mas mesmo assim ela conseguia acompanhar os passos de Enrique, que aos poucos ficava mais próximo.  As faces dela tornaram-se rosadas, devido ao esforço, ao calor e ao vinho, ressaltando seus olhos que agora brilhavam e tornando-a ainda mais bonita.

Ela observava as mulheres e tentava dançar como elas. Uma senhora mais velha se aproximou e tentou ensiná-la, mas Caroline não entendia o que ela falava. Enrique traduziu enquanto a mulher balançava mais o quadril de Caroline e levantava a barra de seu vestido até quase a altura do joelho.

Ela sorria e girava animada. Mas Enrique chamou-a e a escoltou até a mesa.

- Estou lhe envergonhando? – ela provocou por causa da interrupção.

- De maneira nenhuma, mas agora quero que prove isso.

Ele puxou o banco de madeira e Caroline sentou-se. Enrique fez o mesmo. Em cima da mesa um prato bastante colorido despertava o estômago dos dois devido ao delicioso cheiro.

- O que é isso? – indagou curiosa.

- Chama-se paella. É como um risoto de arroz, mas bem temperado e misturado com frutos do mar. Tem bastante camarão, legumes, verduras e chili, não precisa comer se não gostar do sabor.

Eles mesmos se serviram em pratos de cerâmica e Caroline não pôde deixar de sorrir ante esta condição. Jamais se imaginara numa festa assim, e se divertia absurdamente com isso.

- Qual o motivo da gargalhada?

- Estou contente por ter vindo! – ela sorriu agradecida para ele.

- Não sabe o quanto eu aprecio ouvir isso.

Ela ficou surpreendida mais uma vez. A comida era picante e deliciosa, diferente dos jantares que era obrigada a engolir. A comida britânica lhe agradava, mas as iguarias espanholas eram “vivas” como as pessoas do país. Tinham cor, sabor forte, presença. Parecia que encontrara seu lugar no mundo.

- Pelo sorriso creio que gostou!

- É divino! Não, é demoníaco se isso puder servir como um elogio! – os dois gargalharam.

Acabaram de comer e continuaram a observar a dança. Beberam mais vinho e dançaram outras vezes. Caroline arriscou brincar um pouco com as castanholas, e ficou ainda mais vermelha quando se viu dançando entre vários homens. Procurou Enrique com o olhar e o viu entre os cavalheiros, batendo as mãos enquanto ela dançava.

 

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Cansada Caroline jogou-se no banco. Agora apenas observaria as três mulheres que faziam uma bela coreografia com a melodia mais calma que os músicos tocavam.

- Quer ir embora? – ele sugeriu.

- Não! Não quero!

Ele deu um sorriso torto, ela agira como ele previra, quer dizer quase. Não tinha imaginado que beberiam tanto vinho e que ela dançaria tão solta, mas estava maravilhado com seu comportamento, parecia uma ave que passara a vida inteira presa numa gaiola e agora finalmente fugira e aprendera a voar.

Olhavam-se de forma intensa, Caroline não tinha mais vergonha de flertar com Enrique. Agora confiava nele, sabia que ele não lhe faria nenhum mal. A atmosfera de sedução foi interrompida com a chegada de uma morena de olhos amendoados, vestida num sensual vestido vermelho e preto com um amplo decote.

- Como vai, Enrique? – sua voz melodiosa e forte pronunciou em espanhol.

 Enrique fechou o cenho ao vê-la. Caroline percebeu que ele mudou completamente. Quem era tal mulher? Por que o pescador mudara tão bruscamente?

- Vou bem, e estou de saída.

- Exijo que fiques para uma dança.

Enrique sorriu irônico.

- Temo desapontá-la.

- Eu quero ficar. – Caroline falou sem pensar. Tomara essa atitude de forma brusca sem entender o motivo, mas algo lhe dizia para não ir embora naquele exato momento.

- Tem certeza de que é isso que quer?

Ela confirmou. Enrique ficou em pé ao seu lado e Diana colocou-se no centro do salão, sozinha, enquanto aguardava os músicos recomeçarem.

Caroline sentiu-se boba. Nenhuma das mulheres naquele salão dançava como a morena. Ela girava e balançava-se com maestria, deixando todos admirados. Homens e mulheres batiam palmas encantados, mas Enrique continuava sisudo. A morena disparava olhares nitidamente sedutores para ele, no entanto Caroline percebia que os mesmos não eram recíprocos. Será se ela não sentia que a situação não o agradava em nada? Será se era assim que Mr. Darcy se sentia com suas atenções exageradas? Incomodado? Impaciente? Diana se exibindo para Enrique estava lhe deixando irrequieta. Lembrava uma Caroline que ela queria esquecer. Levantou-se e sorveu todo o vinho da caneca de uma vez sob olhar surpreso de Enrique. Pegou-o pela mão e chamou-o para ir embora. Ele assentiu satisfeito e depois de se despedirem de algumas pessoas saíram caminhando pelas ruas.

Ele percebia que Caroline estava andando de forma mais solta e segurava o sorriso de vez em quando. Ela era ainda mais linda levemente embriagada. Conversava empolgada sobre o quanto tinha gostado da noite. Ele ficara surpreso por ela não perguntar nada sobre Diana. Sem dúvida percebera os olhares que a morena enviava a ele. Será que não conseguira despertar nem ciúme em Caroline?

- Para onde vamos agora? – ela indagou.

- Não quer ir para a hospedaria?

- Não! Quero amanhecer na rua como as cortesãs, não é assim que você me vê? – brincou tentando parecer sensual, o que sem dúvida conseguiu tendo em vista o olhar nublado que Enrique lhe lançou.

- Cortesãs não amanhecem nas ruas, amanhecem nas camas dos homens.

- Então neste caso vou amanhecer na sua cama.

- É o vinho que fala por ti, jamais falaria algo assim se não tivesse bebido.

- Jamais falaria algo assim se não tivesse te conhecido. – ela corrigiu-o – Não tenho nada a perder, não sou amada por nenhum homem, quero então ser amada por todos, quero ficar na Espanha e me tornar uma cortesã! Me ensina a fazer com que todos os homens me desejem?

Seu desejo por Caroline se tornava mais forte a cada momento, mas precisava se conter. Enrique pediu forças aos céus para não cair em tentação. Não era homem de resistir a uma fêmea, além disso, se sentiria um canalha por passar a noite com uma mulher sem que ela estivesse plenamente consciente de seus atos.

Não assumiria para ela que não apenas ele a desejava, que ela era uma mulher quente por baixo do verniz de delicadeza. Não queria incitá-la ainda mais com aquela idéia maluca de se tornar uma cortesã. Ela era mulher para aquecer a cama de apenas um homem, e por um momento ele desejou que esse homem fosse ele.

- Só um tolo não a amaria.

- E é isso que ele é, um tolo! Um grande e lindo tolo. Um tolo perfeito de olhos azuis, mas mesmo assim um tolo. Um grandissíssissimo tolo! – falava com a língua um pouco enrolada.

Sentir que Caroline amava outro homem lhe incomodava, ele não sabia dizer o por quê. Talvez fosse o orgulho masculino, como ela falava de outro homem se era ao lado dele que ela estava? Uma idéia se apossou de sua cabeça: Faria Caroline esquecer tal patife, ou não se chamaria Dom Enrique Fernandez Guzman y Andrade.