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Corazon Partío - Capítulo VI

Escrito por Indira Ligado . Publicado em Corazon Partío - A verdade sobre Caroline

Caroline arrependeu-se amargamente por ter trocado uma tarde com Enrique por aquela tortura que lhe embrulhava o estômago. Ao ver os primeiros machucados incutidos nos animais dera uma desculpa e passara a maior parte do tempo vagando fora do camarote com a princesa Melia - que assim como ela não tinha suporte para ver tais cenas. Jane ficara por educação e medo de ferir os sentimentos da família do Duque, mas estava escrito em sua face o quanto ela também estava horrorizada com aquela prática.

O último dia na Espanha passara mais lento do que Caroline desejava, em contraste com os momentos em que estava ao lado do pescador, que pareciam voar. Passara o dia relembrando os beijos trocados com Enrique, queria guardar para sempre e com nitidez aquelas memórias.

Finalmente a noite descera sobre Barcelona e Caroline se recolhera. Vestida com um elegante penhoar por cima da roupa de dormir ficara sentada na cama durante quase uma hora. Não conseguia dormir. Os ruídos do andar inferior foram minguando até o completo silêncio. Uma única vela deixava o quarto quase na penumbra.

Leves batidas nas portas que davam para a varanda do quarto surpreenderam Caroline. Prestes a fugir do quarto e pedir por ajuda ouviu o som do inesquecível “Señorita” num volume baixo, mas suficiente claro para que ela reconhecesse.

Pulou da cama com pressa e abriu a porta, Enrique entrou apressado no recinto enquanto ela se certificava que ninguém o vira cometer tal loucura, ao perceber a rua deserta ficou mais segura, embora a presença daquele homem em seu quarto a deixasse intranqüila.

- O que faz aqui? Acaso enlouqueceu?

- Precisava te ver outra vez antes de tua partida. Foi angustiante passar o dia longe de ti, sem saber com quem estava ou o que fazia.

Caroline baixou os olhos enquanto corava. Ele sentou-se na cama e puxo-a para o seu lado.

- Então? Gostou das touradas?

- Oh! – ela queria não ser rude, mas era difícil mentir sobre algo que a chocara tanto – Desculpe-me, mas devo confessá-lo que achei um esporte muito cruel...

- É um costume terrível! – ele concordou e ela sentiu-se aliviada por partilharem da mesma opinião – Tenho esperanças de que ainda chegará o dia em que este ato será abolido desta província. Não entendo esta sede de sangue quando temos participado de tantas batalhas para manter intacto nosso território.

- Já lutou em alguma batalha?

- Sim, ainda que não tenha durado muito tempo. Nossos homens são muito bem preparados, estamos acostumados com que tentem tomar nossas terras, temos que estar sempre a postos para nos defender.

- Só agora percebo que sei tão pouco de ti.

- Deseja saber mais?

- Não, me contento em acreditar que é um pescador que se finge de nobre para me impressionar. Isso basta, o restante pode ficar a cargo da minha imaginação, terei tempo suficiente no restante da viagem.

- Então quer dizer que pensará em mim? – ele ficou orgulhoso.

- Talvez um pouco. – Caroline brincou – E você? Lembrar-se-á de mim?

- Impossível esquecê-la, señorita! – sussurrou aproximando-se e roubando-lhe um beijo suave - Precisa me prometer algo antes de ir.

Caroline, curiosa, esperou que ele falasse.

- Tem de me prometer que não deixará nenhum homem invadir seu quarto como eu fiz. – ele ordenou com a voz solene.

- Prometo. Se algum lunático invadir meu quarto acreditando que eu sou uma cortesã o expulsarei eu mesma! – ela brincou.

- Falo sério. Tremo só de imaginar outro homem a sós com você.

- Fique tranqüilo. Não tenho o costume de deixar cavalheiros entrarem em meu quarto.

- Eu sei que não. Mas eu estou aqui não estou?

- Sim, porque confio em ti.

- E promete não confiar em nenhum outro? - Caroline achou graça daquela preocupação - Não são todos os homens que sabem respeitar uma mulher. E não sabe o quanto é difícil para um homem ficar sozinho com você.

- Difícil, por quê? – ela indagou curiosa.

Enrique engoliu em seco. Como explicar a uma donzela tais assuntos? Coisas que aconteciam entre um homem e uma mulher entre quatro paredes.

Diante do silêncio de Enrique, Caroline começou a tentar responder.

- Por causa do que acontece entre uma mulher e seu marido?

- Sim. – ele respondeu e ela fez uma careta - O que passa?

- Todos dizem que é horrível para uma mulher as noites em que é obrigada a dividir o quarto com seu marido.

Ele lamentou tal crença, mas sabia que era verdade. A maioria dos homens não sabia dar prazer as suas esposas, apenas usavam-nos para suas necessidades e as descartavam depois.

- Nem sempre é ruim.

- Não?

O olhar curioso de Caroline o incitava a falar mais, e aquele assunto o deixava ainda mais desconcertado devido ao desejo que sentia por ela.

- Não. – respirou antes de continuar – O que acontece entre marido e mulher pode ser bom para os dois, se for realizado com amor e cuidado.

- É melhor do que beijar?

- É como beijar, é um beijo com o corpo todo.

- Ah.

- Prometa-me uma outra coisa. – ele mudou de assunto.

- Sim?

- Não a quero de passeios com ninguém além da criada de quarto! Não dê chances para homens com intenções maldosas se aproximem de você!

- Assim como fez? – ela sorria provocativa.

- Sim, como eu fiz, mas já lhe pedi perdão por isso.

- E eu lhe perdoei, mas não posso prometer-lhe nada assim.

- Por que não?

- Por que o fato de lhe perdoar e aceitar passear com você tornou meus dias incríveis. Imagine o quanto posso me divertir em outros locais se conhecer outras pessoas como você?

- Caroline! Não me faça segui-la por toda a Europa para me certificar que estará segura! – ele brincou.

- Você faria isso? – ela indagou esperançosa.

- Quem sabe? Ah, e prometa me escrever também.

- Escrever-te? O que dirão de mim escrevendo e recebendo cartas de um cavalheiro?

- Já não rompeu tantas regras? Por que não o faz com mais uma? – ele insinuou – Que tal enviar as cartas a Eva? Assim eu passo aqui para pegar as tuas cartas e assino as minhas como se fossem dela!

- É uma idéia maluca!

- É genial! Então, aceita?

- Tudo bem, acertarei isto com ela assim que amanhecer.

Permaneceram juntos um longo tempo. Entre beijos e carinhos conversavam apenas sobre o que viveram, sem promessas e expectativas, apenas aproveitando o momento. Antes que os primeiros raios de sol surgissem para acordar a cidade Enrique foi embora, escorregando pela mesma parede que escalara mais cedo, já sentindo saudades daquela britânica. Fora extremamente difícil controlar-se ao lado dela. Mas valera a pena. Achara Caroline linda desde a primeira vez que a vira, mas o impossível acontecera, naqueles poucos dias de convivência sentira sua beleza desabrochar mais a cada regra que ela quebrava, a cada desafio vencido. Sabia que ela iria embora da Espanha mais feliz, mais leve, e principalmente mais livre.

As semanas foram passando, e como prometido recebera cartas de Caroline de todos os lugares que ela visitava. Ela contava eufórica de como gostara de Roma, mas que Florença era apaixonante, de como se sentira oprimida em Viena e que simplesmente adorara a Suíça. Falou-lhe sobre cada monumento que visitara e que nenhum baile que frequentara fora mais divertido que a festa Catalunha que ele a levara, roubando um sorriso saudoso de Enrique.

A carta enviada assim que ela chegara a Londres fora a mais tocante de todas, Enrique sentiu um ímpeto de estar ao lado da ruiva e abraçá-la naquele momento.

 

“Londres, 19...

Querido Enrique,

Não tenho palavras para expressar o que esta viagem significou para mim. Encontrava-me dentro de uma nuvem negra, daquelas que oprimem o ar quando está prestes a desabar uma tempestade. Raios e trovões poderiam ser a segura descrição do meu estado de espírito, e eu me sentia permanentemente de mal com a vida.

Mas agora me sinto completamente outra pessoa. Sinto que mudei, e principalmente que cresci. Quem diria que eu um dia fosse dizer algo assim! Para as mulheres, principalmente as solteiras, assumir cada primavera que se passa geralmente é extremamente vergonhoso. Cada ano diminuem as chances de um bom casamento se realizar, mas não exprimo nenhuma vergonha por meu amadurecimento nesse caso.

E posso garantir-lhe que certo “pescador” teve intensa participação para que hoje eu me sinta assim. Ajudou-me a enfrentar a moral que tanto nos cerceia e nos impede de agirmos naturalmente, ajudou-me a dar mais ouvidos ao que eu queria do que ao que os outros esperavam de mim, e ajudou-me principalmente a enfrentar meu orgulho.

Sentirei falta dos momentos que nos divertimos juntos. Saiba que é a melhor lembrança que trouxe para Londres, e são essas memórias que substituíram os pesadelos nos quais eu vivia imersa!

Tenho também a alegria de participar ao senhor que minha cunhada veio sofrendo de terríveis náuseas durante toda a viagem de volta para casa, e um médico que se encontrava no navio não teve dúvidas depois de examiná-la, eu serei tia pela primeira vez daqui a alguns meses! Como Charles não quer que Jane enfrente a viagem de carruagem até nossa propriedade, permaneceremos em nossa residência de Londres até o nascimento da criança e a recuperação de minha cunhada. Logo, se ainda quiser manter nossa amizade aguardarei suas cartas com ansiedade.

Com carinho,

“Señorita” Caroline Bingley!”

 

Enrique demorou mais do que queria para responder a missiva. Um sentimento de inquietude lhe destruía e lhe esperançava ao mesmo tempo. Sua experiência masculina não tinha dúvidas de que Caroline esquecera o tal tolo que a fizera sofrer, entretanto não sabia se os momentos que compartilharam eram suficientes para que ele substituísse o outro no coração da ruiva.

Sentia um terrível ciúme ao pensar que Caroline um dia sofrera por outro homem, sentia a necessidade de ampará-la, de protegê-la, e principalmente de tê-la para si. Acreditava em amor, só não acreditava que seria um dia atingido por tal sentimento, mas não tinha duvidas de que era esse o seu mal. Não passara um só dia sem pensar na inglesa. Não passara uma só noite sem que ela fosse a última imagem a passar por seus olhos antes que ele dormisse.

Inicialmente acreditara que se tratava apenas de desejo. Mas depois de algumas tentativas frustradas de resolver-se com verdadeiras cortesãs percebera que não era mais a mesma coisa. Não adiantava aliviar-se com qualquer mulher, precisava de Caroline.

Devia arriscar, sua impulsividade era forte demais para ser ignorada. Não esperaria mais. Pegou papel e tinta e debruçou-se sobre a escrivaninha:

 

“Barcelona, 19...

Minha doce señorita,

Não sabe o quanto me sinto feliz por fazer parte de suas melhores lembranças, e acredite-me, nenhuma memória minha é mais forte do que as que guardei de vossa presença em meu país.

País esse que perdeu a cor depois que foste embora. Nada consegue ser divertido sem sua presença, e eu estou certo de que continuará assim se não a tiver ao meu lado novamente.

Não quero assustá-la, mas não tenho a coragem de esconder-me por trás de uma falsa amizade. Não quero manter laços de amizade com a señorita, não me contento apenas com isto.

Enganou-se quando confundiu-me com um pescador, pois meu coração é que foi fisgado por ti tal qual um peixe curioso pela isca. Atraiu-me com tamanha beleza e vivacidade e depois foste embora, me deixando a ver navios num mundo cinza.

Sei que não sabe nada sobre mim, mas estou disposto a cruzar o mar que nos separa e abrir minha vida a ti como um livro se oferece a um ávido leitor. Sei também que não acredita que faço parte da nobreza, mas tenho amigos que não se furtarão de me acompanhar nesta viagem apaixonada e provar-te de que tenho condições de te dar uma vida de rainha, tal como merece.

Me aceite como seu marido e me faça um homem completo, pois sem você tornei-me apenas um espectro do que um dia fui.

Aguardarei sua resposta ansiosamente. Se negativa for, sei que minha vida jamais será a mesma, mas me confortarei se isso a fizer feliz, caso for positiva – e eu espero realmente que assim seja – partirei para Londres o mais rápido possível, para pedir-lhe a mão ao seu irmão e oficializar nosso noivado.

Certo de que a espera me machucará,

Com amor, seu pescador.”