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O anjo de Pemberley - Capítulo 16

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Foi bastante surpresa que Lizzy recebeu o telefonema da secretária de Lord Darcy.

 

- Srta. Bennet, Lord Darcy deseja conversar com a senhorita a respeito da matéria que escreveu sobre Lady Clementine. Ele pediu para agendarmos um horário a sua conveniência.

 

Pediu ou mandou? Certamente mandou, ele não parece ser do tipo que pede. A secretária é que deve estar sendo delicada.  – pensou Lizzy.

 

- Eu deixei claro a Lord Darcy há algum tempo atrás que perdi o interesse na matéria sobre Lady Clementine, por isto não há necessidade de agendarmos este encontro, pois não temos mais nada que conversar, eu e ele.

 

- Está certo, Srta, Bennet. Transmitirei seu recado a ele. Obrigada.

 

Lizzy tinha sim, muita vontade de continuar a pesquisa sobre a vida de Lady Clementine, depois que ela e o marido pareciam haver se entendido e principalmente saber por que ela havia falecido tão jovem. Mas não queria reencontrar Lord Darcy, seus sentimentos a respeito dele eram totalmente ambíguos e ela tinha consciência do perigo que ele representava para sua paz de espírito.

 

Ainda hoje, passado tanto tempo ela recordava com frequência do encontro naquela tarde chuvosa no panteão de Netherfield. Quando menos esperava relembrava o poder da atração que ele exercera sobre ela, sentia o calor dos beijos e a sensualidade das carícias que trocaram, deixando-a com aquela sensação incômoda de desejo insatisfeito.

 

Por outro lado, o forte lado racional de Lizzy não a fazia esquecer e tampouco perdoar a interferência de Lord Darcy no relacionamento de Charles e Jane, de cujo término, ela considerava ser ele o responsável indireto. E, sua oposição ao namoro de Georgiana e Richard era mais uma prova da insensibilidade deste homem e de sua incapacidade de compreender as questões do coração.

 

O único ponto que contava a favor de Lord Darcy era a ajuda que ele prestara a Mary, que Lizzy qualificava como um ato de caridade, um prêmio de consolação para as Bennet, movido certamente pelo remorso por ter prejudicado o romance de Jane.

 

Georgiana deve ter mostrado minha matéria a ele. Eu até gostaria de saber o que ele tem a dizer a respeito e o que ele pode estar querendo comigo agora. Mas não vou procurá-lo, sinto que conviver com ele só me trará problemas e não preciso de mais problemas na minha vida!

 

Alguns dias após o telefonema da secretária de Lord Darcy, Lizzy estava sozinha no apartamento no início da noite preparando o jantar para ela e suas irmãs, que não tardariam a chegar.

 

A campainha tocou e Lizzy pensou que só podia ser Mary que tinha o péssimo costume de esquecer as chaves sempre que saía.  Como era hora da maioria dos moradores do prédio voltar para casa, ela deveria ter aproveitado a entrada de algum vizinho para subir sem precisar tocar o interfone.

 

Lizzy abriu a porta e estacou surpresa. Era uma visita totalmente inesperada.

 

- O senhor!?

 

O primeiro impulso de Lizzy foi o de fechar a porta na cara de Lord Darcy. Sentiu-se corar de vergonha ao se lembrar de sua aparência, o cabelo preso de qualquer jeito por uma presilha no alto da cabeça, vestida com um jeans surrado e uma camiseta velha e suja com manchas do molho que estava cozinhando que respingara.

 

- Boa noite, Elizabeth. Não vai me convidar para entrar?

 

Lizzy constrangida se afastou da entrada e fez um gesto com o braço esquerdo convidando-o a entrar.

 

- Peço desculpas por ter vindo sem avisar, mas como achei que não queria me ver, foi a única forma que encontrei para podermos conversar.

 

- Se quer falar sobre a matéria de Lady Clementine, está perdendo o seu tempo. Como lhe disse em Netherfield, perdi o interesse por ela, sua secretária deve ter lhe transmitido meu recado.

 

Darcy ignorou o aparte de Lizzy e como continuava de pé no meio da sala disse:

 

- Não me convida a sentar para podermos conversar mais confortavelmente?

 

- Sinta-se à vontade. – Lizzy indicou a poltrona mais próxima.

 

- Li a matéria sobre Lady Clementine que você entregou para minha irmã.

 

- Antes que pense que pedi a sua irmã para que intercedesse a meu favor, quero deixar claro que não pedi nada a ela.  Foi a própria Georgiana quem me pediu para ler a matéria e deve ter falado a respeito com o senhor. Como já lhe disse: eu já desisti desta matéria, perdi o interesse em continuar a escrevê-la.

 

Lord Darcy ignorou mais uma vez o aparte de Lizzy e disse:

 

- Realmente Georgiana me pediu para ler sua matéria. Quer saber o que achei dela?

 

- Pode dizer, pelo menos tenho certeza de que o senhor não me fará falsos elogios.

 

- Não precisa temer uma crítica negativa de minha parte. Você escreve muito bem, sua narrativa é envolvente e como li o diário original de Lady Clementine, posso afirmar com certeza de que sua narrativa foi fiel à estória de vida dela.

 

- O senhor deve ter percebido que não existiu nada de desabonador que justificasse sua relutância em ver a estória de vida de Lady Clementine conhecida pelo público.

 

- Bem, você está certa, Elizabeth, por isto mudei de idéia. Confesso que eu sabia muito pouco sobre a vida de minha antepassada e não imaginava que em suas mãos ela pudesse render uma boa estória. Fui convencido pela leitura dos capítulos que Georgiana me passou. Agora não estou vendo motivo para impedir a publicação, por isto peço que reconsidere sua decisão anterior, pois vou dar meu consentimento para que continue a pesquisa, termine a matéria e a publique.

 

- O senhor que é tão avesso a exposição na mídia não tem medo da repercussão que a matéria poderá ter?

 

- Confesso que pensei neste aspecto dos repórteres batendo à minha porta querendo saber sempre algum detalhe que não foi revelado.

 

- E está disposto a correr o risco?

 

- Digamos que é um capricho de minha parte. Depois que li o diário de Lady Clementine e parte de sua matéria, gostaria de vê-la concluída e publicada. Será uma forma de prestar homenagem a minha antepassada. E, então, posso contar com você nesta tarefa?

 

Os sentimentos de Lizzy eram contraditórios. Por um lado ela gostaria de terminar a matéria que tanto a fascinava, tarefa que seria fácil quando teria acesso a toda a documentação sobre Lady Clementine. Mas, por outro lado, ela considerava perigosa a convivência com Lord Darcy, pois tinha consciência do poder de atração que ele exercia sobre ela.

 

- Posso lhe dar uma resposta definitiva dentro de alguns dias?

 

- Sim.

 

- Mesmo que minha resposta seja afirmativa, não poderei voltar a pesquisar a vida de Lady Clementine imediatamente, pois preciso terminar uma matéria em andamento que devo entregar ainda este mês.

 

- Tudo bem. Caso sua resposta seja afirmativa, e espero que seja, me procure que vou lhe dar acesso a todos os documentos de minha família, que estão aqui em Londres e em Pemberley. Só vou impor uma condição.

 

- Condição?! E qual seria ela? – perguntou Lizzy sem esconder seu ar de desconfiança.

 

- Que eu possa ler a matéria concluída em primeira mão e aprove sua publicação.

 

- O senhor não está querendo que eu modifique a estória se houver algo que desabone sua antepassada, não é?

 

- Não me entenda mal. Será apenas uma precaução de minha parte, não pretendo interferir no conteúdo de sua matéria.

 

- Saiba que costumo ser fiel à verdade naquilo que escrevo, não costumo distorcer ou modificar os fatos, quer para embelezar ou para denegrir com fins sensacionalistas.

 

- O que nem sempre ocorre no jornalismo.

 

- Não posso responder por todos os meus colegas de profissão, apenas por mim mesma. – arrematou Lizzy.

 

- Não há nada no passado de Lady Clementine que possa denegri-la. Eu que agora conheço sua estória, lhe garanto. – completou Darcy.

 

Agradava a Darcy o jeito direto como Elizabeth Bennet lidava com ele, de igual para igual, sem aquela subserviência comum a maioria das pessoas que tratavam com ele.

 

- Se a matéria for publicada o senhor poderia aproveitar sua repercussão e pensar em abrir Pemberley à visitação pública.

 

- Sempre fui contrário a esta idéia, pois acho que perderia minha privacidade. Acho que o dinheiro arrecadado com as visitas não compensaria os transtornos que eu teria com os visitantes.

 

- Mas o senhor está privando as pessoas de conhecerem a beleza e o esplendor de Pemberley e impedindo o desenvolvimento que Lambton teria com a movimentação que o turismo lhe traria.

 

- Nunca pensei neste aspecto da visitação.

 

- Pois acho que deveria pensar. Suas visitas a Pemberley são poucas e os visitantes não o iriam atrapalhar se o senhor delimitasse as áreas de visitação pública para que não interfiram em sua privacidade quando lá estiver, como fazem os proprietários de tantos castelos e palácios abertos ao público aqui no Reino Unido.

 

- Vejo que está cheia de boas idéias. Quem sabe eu não a contrate para administrar este projeto.

 

- Não sou uma administradora, apenas uma jornalista e não tenho intenção alguma de mudar de profissão.

 

- Não deve mesmo mudar, você está na profissão certa. Aguardo uma resposta positiva de sua parte. Assim que decidir me comunique.

 

Quando Lord Darcy deixou o apartamento, Lizzy não pôde deixar de observar que ele havia se mostrado bastante tratável, apesar de não perder nunca aquela pose altiva de pessoa que se considera superior ao comum dos mortais, o que irritava Lizzy sobremaneira.

 

Será que este é o mesmo homem que me beijou? Tenho a impressão de que os momentos de paixão que vivi com ele em Netherfield foram apenas fruto de minha imaginação, uma ilusão que na realidade não existiu.”

 

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Charles Bingley se sentia arrasado com a maneira que Jane Bennet o tratara no jantar da associação e sabia que se encontrava num impasse e que se não agisse rápido perderia sua amada definitivamente.

 

A separação de seis meses não tivera o poder de fazê-lo esquecer da bela ex-namorada e o sentimento que nutria por ela ao invés de diminuir só fizera recrudescer à medida que o tempo passava.

 

- William, semana passada me encontrei com Jane Bennet no jantar da Associação dos Advogados e me dei conta da besteira que cometi! Estou muito arrependido por ter terminado meu relacionamento com ela.

 

- Você continua a se sentir atraído por Jane, Charles?

 

- Não é apenas atração o que sinto por ela. Cheguei à conclusão de que amo Jane de verdade, como nunca amei mulher alguma. Eu me pergunto: o que estou fazendo separado dela? Quando tenho certeza que não encontrarei outra mulher como ela. Além de amá-la, nós temos os mesmos objetivos de vida, casar, ter filhos e viver uma vida tranqüila juntos. Ela me completa.

 

- E ela, Charles? Ela o ama?

 

- Acredito que sim. Ela me confessou que me amava e que sofreu muito com nossa separação, não havia fingimento em suas palavras. Preciso recuperar a confiança de Jane.

 

- Charles, se é assim, peço desculpas se com meus conselhos o levei a tomar a decisão errada de abandonar Jane. Fiz com a melhor das intenções de te ajudar, mas me parece que acabei atrapalhando a tua felicidade.

 

- A decisão final de romper com Jane foi exclusivamente minha. Não posso culpar ninguém por ela. Afinal você, como meu amigo, me deu a sua impressão.  Não sou um incapaz, pelo contrário tenho perfeitas condições de tomar minhas próprias decisões e ser responsável por elas.

 

- Ainda bem que pensa assim. Não queria perder sua amizade. O que pretende fazer agora?

 

- Estou com o firme propósito de reconquistar Jane, mas depois de nosso encontro estou achando que não será uma tarefa fácil. Ela se mostrou bastante relutante comigo e acabei pondo os pés pelas mãos na conversa que tivemos, propus voltarmos a nos ver como amigos. Ela foi taxativa dizendo que não tem interesse em minha amizade.

 

- Talvez a forma como você fez esta proposta não tenha sido a mais adequada.

 

- Fiquei tão nervoso diante da frieza com que ela me tratou que não tive coragem de lhe propor uma reconciliação, fiz a besteira de falar em amizade e ela me entendeu mal e parece que estraguei qualquer possibilidade de voltarmos.

 

- Acho que nem tudo está perdido, mas precisará de muita paciência e tato para consertar a situação. – Foi o comentário feito por Darcy que olhava consternado o desalento do amigo.

 

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Naquela noite Jane se encontrava sozinha no apartamento que dividia com as irmãs. Lizzy havia acompanhado Mary a um concerto.

 

O interfone tocou e Jane teve a surpresa completamente inesperada de ouvir a voz de Charles Bingley.

 

- Jane, por favor, deixe-me subir, estou precisando conversar com você.

 

- Charles, nós não temos mais nada para conversar.

 

- Se não quer me deixar subir, pelo menos desça e vamos conversar num café ou num pub, onde quiser. Por favor, Jane.

 

O coração generoso de Jane não resistiu e acabou cedendo aos rogos de Charles e ela deixou que ele subisse.

 

- Jane, eu vim aqui esta noite porque preciso conversar com você e esclarecer um mal entendido, no jantar da Associação eu estava muito ansioso e nervoso e acabei me expressando mal.

 

- Eu entendi perfeitamente o que você me propôs. Já lhe disse que não quero ser sua amiga, Charles.

 

- É sobre isso que vim lhe falar. Eu não quero apenas a sua amizade, quero voltar a ser seu namorado... Ou melhor, quero pedir que se case comigo, pois este período que ficamos separados me fez ver que você é a mulher que quero ao meu lado, como companheira de minha vida.

 

- De minha parte, durante estes meses que ficamos separados, pensei muito sobre nós dois e cheguei à conclusão que seria um erro reatarmos nosso relacionamento.

 

- Por quê? Você deixou de amar?

 

- Não se trata disto. Acho que nossa diferença social será sempre uma barreira entre nós. Sua família... Suas irmãs jamais irão me ver em condições de igualdade com elas, sempre acharão que fiz um casamento de interesse visando minha ascensão social e sua fortuna. É melhor deixarmos tudo como está, seguirmos nossas vidas separados, Charles.

 

- Não, Jane, por favor, não vou suportar viver mais nem um momento longe de você.

 

Charles tomou Jane abrupta e inesperadamente em seus braços e apertou seu corpo contra o seu num desespero do náufrago que se segura a um destroço como única esperança de salvação da vida.

 

- Jane, dê-me uma última oportunidade para provar que meu amor por você é verdadeiro.

 

Apesar da firme intenção de Jane de não mais reatar com Charles, ela terminou por não resistir aos beijos apaixonados que ele distribuía por todo seu rosto, pescoço e por fim sua boca. Ambos estavam tão envolvidos um com o outro que não ouviram o barulho da chave girando na fechadura e levaram algum tempo para notar a presença de Mary e Lizzy que olhavam estupefatas o casal aos beijos.

 

Jane se afastou de Charles imediatamente ao ser pega em flagrante pelas irmãs e disse com a voz embargada incapaz de esconder a emoção que sentia pelo reencontro com o ex-namorado.

 

- Lizzy... Mary... Charles veio me ver.

 

- Sim, é o que estamos vendo. – Concluiu Lizzy.

 

- Boa noite, meninas. – Ainda bastante embaraçado, Charles cumprimentou as irmãs de Jane.

 

- Lizzy e Mary foram a um concerto no Royal Albert Hall. – Completou Jane para preencher o silêncio constrangedor.

 

- Espero que tenham gostado. Eu já estou de saída. Jane, amanhã eu telefono para terminarmos nossa conversa. Boa noite, meninas. Boa noite, Jane.

 

O constrangimento de Charles ao sair às pressas do apartamento sob o olhar pouco amistoso de Mary e Lizzy, chegava a dar pena.

 

Após alguns momentos de silêncio completo e embaraçoso, Mary foi a primeira a falar.

 

- Jane, você não está pensando em voltar com ele, não é? Depois de tudo o que ele aprontou com você.

 

- Espero que depois de alguns beijos, você não tenha se esquecido do quanto sofreu por causa dele nestes meses de separação. – foi o aparte de Lizzy.

 

- Meninas, estou tão confusa, não me censurem e nem me pressionem. Por favor, preciso que me ajudem a resolver o impasse em que me encontro.

 

- Jane, pode contar conosco, mas você sabe muito bem o que pensamos de Charles Bingley, depois do que ele fez com você. Se você resolver reatar o namoro com ele, embora a contragosto nós a apoiaremos, pois nestas questões do coração cada um sabe o que é melhor para si. – o aparte veio de Lizzy na tentativa de acalmar a irmã ao notar sua angústia.

 

– Só não me obrigue a voltar a gostar dele.  – completou Mary. – Ainda acho que ele não merece uma pessoa maravilhosa como você. Meia dúzia de palavras de arrependimento e alguns beijos, em minha opinião, não são suficientes para você esquecer o que ele fez você sofrer.