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O anjo de Pemberley - Capítulo 17

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Naquela noite, Lizzy e Jane não conseguiam conciliar o sono, por razões diversas, cada qual remoendo seus problemas e suas dúvidas, até que ao ver e ouvir Lizzy se virar e revirar na cama na penumbra do quarto, Jane disse por fim:

 

- Lizzy, você também está com insônia?

 

- Sim, Jane. Não consigo pegar no sono.

 

- Eu também. Podemos conversar sobre o Charles?

 

- Claro, diga.

 

Estas conversas e trocas de confidências à noite eram comuns entre as irmãs que dividiam o mesmo quarto deste a infância em Longbourn. Quando mudaram para o apartamento em Londres, fizeram questão de continuar a dormir no mesmo quarto enquanto Mary ocupava sozinha o segundo quarto.

 

- Não consigo parar de pensar no Charles. Não consigo tirar da cabeça o que ele me disse na visita de hoje, sobre o erro que cometeu ao me propor amizade no jantar da Associação. Ele me disse que me ama e que quer se casar comigo, que me quer como companheira de sua vida.

 

- Olhe, Jane, é muito difícil para alguém que está do lado de fora dar palpites nestas questões sentimentais, acho que uma decisão destas só cabe a você a ninguém mais, após você pesar e medir os prós e os contras.

 

- Estou cheia de dúvidas, se devo ou não, dar a ele uma segunda chance. Gostaria de ouvir a opinião de uma pessoa sensata como você, Lizzy. Diga-me o que acha com sinceridade.

 

- Para ser sincera com você, eu perdi a confiança no Charles. Ele demonstrou ter um caráter fraco e falta de personalidade, se deixando influenciar facilmente pela opinião dos outros. O que ele fez com você foi muito grave. Não será fácil conviver no dia a dia com um homem assim, principalmente quando ele tem duas irmãs e um amigo, que como você viu, têm grande influência sobre ele.

 

- É esta a minha grande dúvida em aceitá-lo de volta. Ao mesmo tempo sinto que ainda o amo... O que eu faço, Lizzy, para esquecê-lo?

 

- Que tal um novo amor? Você está sempre dizendo que seus colegas de trabalho a convidam para sair. Por que pelo menos não tentar? Quem sabe este não será o primeiro passo para você esquecer o Charles. Precisa se dar esta oportunidade.

 

- Eu andei pensando nisto. Eu já te falei do Sam Mac Gregor, ele é o mais insistente de todos, não passa uma semana sem que ele me convide para sair com ele.

 

- E como ele é?

 

- É um escocês, alegre, brincalhão, simpático, jovem, além de ser um dos melhores advogado do escritório. Já saímos várias vezes em grupo com o pessoal do escritório e ele sempre procura ficar perto de mim, já tentou até me beijar quando tinha bebido um pouco a mais, mas quando eu disse que não, ele parou imediatamente.

 

- Jane, eis aí uma oportunidade de ouro. O que está esperando menina?

 

- Estou relutando em aceitar sair com ele porque você sabe que não gosto de brincar com os sentimentos dos outros e fazer alguém sofrer por minha causa. E se eu não sentir nada por ele.

 

- Nunca irá saber se não tentar. Você não irá brincar com os sentimentos deste cara. Vai sair com ele algumas vezes e ver se pinta alguma atração de sua parte, pois da parte deste Sam Mac Gregor, tenho certeza de que ele deve estar babando por você para ser tão insistente.

 

- Vamos ver... Vamos ver...

 

- Pelo menos tente, Jane, aceite sair com ele, quem sabe este escocês não conseguirá apagar de seu coração e de sua cabeça o Charles Bingley?

 

- Você está certa, Lizzy, vou tentar. Agora que eu já contei o que está me tirando o sono, é a sua vez, conte-me qual é o seu problema, pois sei que você está me escondendo algo, tenho notado que nos últimos dias tem andado bastante agitada.

 

- Trata-se de Lord Darcy e aquela matéria que eu estava escrevendo sobre Lady Clementine.

 

- Mas você não havia dito que não queria mais saber desta estória?

 

- Pois é, outro dia, Georgiana Darcy me pediu para ler a matéria. Ela gostou tanto do que escrevi que pediu ao irmão lesse e por incrível que possa parecer, o grande homem gostou.

 

- Não acho incrível ele ter gostado, afinal a matéria está muito bem escrita e a estória desta mulher é cativante e emocionante.

 

- Muito bem, a secretária de Lord Darcy me telefonou dizendo que ele queria conversar comigo sobre a matéria. Eu recusei dizendo que havia perdido o interesse em terminá-la.

 

- Você sempre foi obcecada por esta estória. Por que de uma hora para outra desistiu dela?

 

- Para evitar ter contato com Lord Darcy, você sabe que eu e ele nunca tivemos o melhor dos relacionamentos, principalmente depois que ele me flagrou em Pemberley, disfarçada de criada, lendo os diários de Lady Clementine.

 

- Mas isto são águas passadas, considerando que ele gostou da matéria.

 

- Bem, acontece que houve algo mais entre nós dois...

 

- Algo mais? O que houve? Deixe de mistérios e conte logo, Lizzy.

 

- Ele me beijou quando estivemos naquele fim de semana em Netherfield.

 

- O quê!? Ele te beijou!? Por que você andou me escondendo isto? Vamos me conte tudo isso direito.

 

Lizzy contou pela primeira vez a alguém o que acontecera naquela tarde longínqua e chuvosa no panteão de Netherfield.

 

- Ele deve sentir algo por você para te beijar, Lizzy.

 

- Jane, não seja ingênua, ele apenas aproveitou a ocasião, o que sentiu por mim foi apenas luxúria, o que normalmente os homens sentem em relação às mulheres. Ele talvez tenha achado que eu seria uma conquista fácil. Cheguei a pensar que ele queria favores sexuais em troca da autorização para eu prosseguir pesquisando e escrevendo sobre a matéria de Lady Clementine.

 

- Não acredito que Lord Darcy seria capaz de uma vilania destas. Ele não é o tipo de homem que precisaria usar destes subterfúgios cafajestes para conseguir levar uma mulher para a cama. Sou capaz de apostar como não faltam candidatas que cairiam com a maior boa vontade em seus braços por causa de sua beleza.

 

- ...Ou da sua riqueza. – arrematou Lizzy.

 

- Deixe de lado o preconceito que tem contra Lord Darcy e aceite a oportunidade que ele está lhe dando para pesquisar os documentos de família para você poder terminar a estória de Lady Clementine. Se não gosta dele, pense que o contato que terão não será tão longo assim.

 

- Você tem razão Jane, o contato que terei com ele será pequeno, apenas enquanto estiver consultando os documentos sobre Lady Clementine, o que acredito falta pouca coisa a ser vista. E seria uma idiotice de minha parte perder esta oportunidade de ouro para terminar esta matéria que tanto me fascina e que poderá ser a consolidação de minha carreira como jornalista, pois estou apostando na repercussão enorme que a matéria terá.

 

**********************


Após esta conversa com a irmã, Lizzy decidiu pôr um fim em suas dúvidas e aceitar a oferta de Lord Darcy para terminar a matéria sobre Lady Clementine. Ela sabia, desde o princípio, que acabaria aceitando esta tarefa, apesar das dúvidas que tinha a respeito e que enumerara várias vezes para si mesma.

 

Esta matéria era a menina de seus olhos, desde o princípio, quando descobrira a existência desta mulher através de uma nota em um antigo jornal da Era Vitoriana e começara a investigar sua vida parecia sentir uma atração que a levava a querer saber mais e mais sobre ela.

 

Só não posso me deixar envolver pela atração que sinto por este homem, pois seria sofrimento na certa.” – pensava Lizzy ao se dirigir ao escritório de Lord Darcy para tratarem dos detalhes como haviam combinado anteriormente.

 

- Fico feliz que tenha voltado atrás em sua decisão e decidido terminar a matéria sobre Lady Clementine.

 

- Escrever é o meu meio de vida e de sobrevivência, não posso me dar ao luxo de recusar trabalho.

 

- Tenho certeza de que não é apenas pela sua sobrevivência que aceitou terminar a matéria. – E completou olhando com um brilho irônico os olhos de Lizzy. – Já percebi que é fascinada pela estória de vida de minha antepassada.

 

- O senhor está certo. – Admitiu Lizzy à contragosto, ela se sentia incomodada quando ele demonstrava o quanto a conhecia.  – Agora vamos às questões práticas, como o senhor me dará acesso aos documentos que preciso consultar?

 

- Em primeiro lugar, não acha que já passou da hora de você abolir o “senhor” e o “Lord Darcy” e me tratar simplesmente de William e de você?

 

- Se você faz questão, tudo bem, William.

 

- Ótimo. Por uma questão de segurança, gostaria que você consultasse todos os documentos sobre Lady Clementine em minha casa aqui em Londres. Quero que entenda que não se trata de falta de confiança em você, mas acho melhor que eles permaneçam em local seguro e não sendo transportados de um canto para outro podendo sofrer alguma avaria. Prefiro não confiar na sorte.

 

- Tudo bem, entendo perfeitamente e concordo com seu cuidado, também prefiro não transportá-los para não correr o risco de perdê-los ou danificá-los. E quanto aos documentos que se encontram em Pemberley?

 

- Eu já os trouxe para cá. Estão todos aqui, inclusive os diários.

 

Lizzy não pôde evitar uma ponta de decepção diante da notícia, não haveria, então, oportunidade para ela voltar a Pemberley.

 

- Ótimo, então amanhã mesmo posso começar a trabalhar, se for conveniente para você.

 

- De minha parte tudo bem.

 

No dia seguinte, Lizzy chegou cedo à residência de Lord Darcy, como ficou combinado. Ele mesmo fez questão de mostrar a ela seu local de trabalho e os documentos.

 

- Você poderá ocupar a biblioteca. Todos os documentos relativos a Lady Clementine se encontram aqui e estão separados neste armário. Você poderá consultá-los à vontade, inclusive tirar cópias do que precisar, em minha copiadora. Qualquer coisa que precise é só pedir que meu mordomo Stevens providenciará.

 

Neste instante, Georgiana apareceu e saudou a amiga com um largo sorriso.

 

- Lizzy, bom dia! William me contou que você aceitou terminar a matéria sobre a vida de Lady Clementine. Que ótimo, agora vou poder ler a estória inteira.

 

- Ainda irá demorar um pouco, pois estou começando hoje a pesquisa restante. Como vai Richard? Faz um tempão que não o vejo e nem falo com ele.

 

- Ele está ótimo. Vamos combinar jantar juntos numa noite destas. Só não podemos convidar o William porque ele continua fazendo oposição ao meu namoro com Richard. – disse Georgiana dirigindo o olhar em direção ao irmão, este fechou a fisionomia após estas palavras, causando um mal estar geral, mas não disse nada. Georgiana, então, prosseguiu com um suspiro e um sorriso que não escondia sua tristeza:

 

- Preciso ir embora, já estou atrasada para minha primeira aula, só passei aqui mesmo para te ver.

 

Após abraçar e beijar Lizzy na face, Georgiana saiu deixando atrás de si um halo de juventude e frescor naquele ambiente sombrio e masculino da biblioteca da residência dos Darcy.

 

Lizzy, após alguns instantes de hesitação resolveu ir em defesa da amiga.

 

- Sei que esta é uma questão familiar e não devo me intrometer, mas não consigo assistir calada ao problema que o senhor está criando para Georgiana e Richard se opondo ao namoro deles. O senhor disse uma vez que não é um déspota, mas está agindo como um neste caso de sua irmã.

 

- O fato de eu ter lhe dado permissão de consultar os documentos sobre Lady Clementine, não lhe dá o direito de dar palpites nas questões de minha família. – respondeu Darcy de forma ríspida.

 

- Eu sei disto, mas ocorre que Georgiana e Richard são meus amigos, por isto estou tentando advogar a causa deles junto a você. Longe de mim querer me intrometer nas questões de sua família.

 

- Mas é justamente o que está fazendo. – disse Darcy com a fisionomia séria sem esconder o quanto o aparte de Lizzy o havia desagradado. Esta não se deixou intimidar e prosseguiu:

 

- Não acha que Georgiana tem o direito de fazer suas próprias escolhas, e talvez errar ou acertar com elas, sem que você fique puxando as cordas como se ela fosse uma boneca de marionete? Não entendo o que possa ter contra Richard.

 

- Não tenho nada contra Richard. Eu o conheço desde que nasci e sei que é um sujeito íntegro, mas minha ressalva é ele namorar minha irmã.

 

- Então, é porque sente ciúmes dela. É muito comum os irmãos sentirem ciúmes das irmãs.

 

- Não sinto ciúmes de Georgiana, apenas quero protegê-la e evitar que sofra.

 

- Não entendo por que ela sofreria.

 

- A questão é Richard ser muito velho para ela e pesa ainda o fato de serem primos.

 

- Reconheço que uma diferença de 15 anos é realmente grande, mas pode não significar nada quando há um amor verdadeiro.

 

- Georgiana ainda é uma adolescente, acaba de completar 19 anos. O que pode saber de amor uma garota nesta idade?

 

- Talvez ela saiba mais do que podemos pensar.

 

- Eu lhe garanto que não sabe. Richard é seu primeiro namorado, eu não queria que ela assumisse um compromisso sério como o casamento, sem antes ter tido alguma experiência na vida, ter namorado rapazes de sua idade. Ela poderá se arrepender mais tarde por esta falta de experiência e por não ter tido oportunidade de escolha.

 

- Se ela não teve namorados de sua idade até agora foi porque não se sentiu atraída por ninguém, aposto como não faltam admiradores para ela. Talvez o fato de ter perdido o pai tão menina explique a atração que sente por homens mais velhos.

 

- Se ela está buscando em Richard um substituto para o pai, então, sim, este relacionamento caminha para o fracasso. Está ficando tarde, eu também preciso ir trabalhar. Fique à vontade para consultar os documentos sobre Lady Clementine. Tenha um bom dia. – Darcy arrematou deixando bruscamente a biblioteca.

 

Toda a postura de Darcy era de quem não ficara nada satisfeito com a intromissão de Lizzy.

 

”Este homem não está acostumado a ser contrariado. Preciso aprender a ficar de boca fechada se não quiser me desentender com ele e ser novamente impedida de terminar minha pesquisa.”  -  pensou Lizzy recomeçando a ler o diário de Lady Clementine.

 

 

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Pemberley, 25 de julho de 1879.

Pemberley está em festa! Nasceu, finalmente, nossa linda Claire, Arthur e eu estamos muito, muito felizes.

Nossa filhinha é forte e saudável, loirinha e seus olhos, creio eu, serão azuis, mas não temos certeza ainda, eles estão com aquela cor indefinida dos olhos dos recém-nascidos.

Arthur diz, a toda hora, que ela é parecida comigo e tão diferente dos pais ingleses da nobreza, ele não cansa de carregá-la nos braços e dizer o quanto está feliz e ama a nossa pequena.

É a primeira vez que vejo um homem ficar feliz com o nascimento de uma filha, ao invés do tão esperado e desejado herdeiro.

Confesso que quem ficou decepcionada a princípio fui eu, porque tinha quase certeza de que seria um menino. Minha intuição falhou. Eu queria tanto ter dado logo um herdeiro para Arthur e ficar tranquila, mas terá que ficar para a próxima vez. Eu e Arthur esperamos povoar Pemberley de pequenos Darcy.

- Não se aflija, meu amor, teremos outros filhos e não faltará oportunidade para você me dar meu herdeiro, mas Claire será sempre especial porque é a filha que nos uniu.

Não existe na face da Terra ninguém que seja mais amoroso com sua filha que Arthur, chego a ficar até um pouco enciumada.

Como sou tola!

 


A vida transcorria normal em Pemberley, passados dois anos do nascimento da primeira filha, outra menina veio aumentar e alegrar o lar dos Darcy, recebendo o nome de Georgiana, desta vez escolhido por Lady Clementine.

 

Lord Arthur demonstrou a mesma alegria pela vinda da segunda filha, e não havia um casamento mais feliz, harmonioso e apaixonado do que o dos Darcy.

 

Foi logo após o nascimento de Georgiana, que Lady Clementine começou a sentir certo mal estar. Ela preferiu nada dizer ao marido para não alarmá-lo, achando que era algo passageiro e sem importância. Aproveitou uma das visitas rotineiras do Dr. Gregson para as filhas e se consultou com ele.

 

- Lady Clementine, talvez a senhora esteja exagerando em suas atividades, aconselho que reduza a sua carga de trabalho, deixe os cuidados de suas filhas com as babás e mande seus empregados entregar os mantimentos às famílias pobres que ampara. Vou prescrever um medicamento, peça que o boticário a prepare, tome três vezes ao dia, de manhã, à tarde e à noite antes de deitar e logo estará curada.

 

Lady Clementine tomou o remédio prescrito pelo médico, mas este pareceu não surtir o efeito desejado, ela continuou sentindo, de vez em quando, os mesmos mal estares que felizmente eram passageiros. Ela continuou ocultando o fato ao marido, pois não via necessidade de alarme. Estava programado que naquele ano eles iriam a Londres para a temporada. Ela aproveitaria a ocasião para se consultar com algum renomado médico da capital.