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O anjo de Pemberley - Capítulo 18

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

No dia seguinte à conversa que tivera com Lizzy, Jane saiu de casa determinada a por em prática seu propósito de dar uma chance a si mesma e a Sam Mac Gregor.

 

Um novo amor para esquecer um velho amor!

 

Quem sabe esta velha máxima não iria funcionar para ela também. Sam sempre lhe inspirara simpatia e tinha todas as qualidades que o tornavam um homem apaixonável.

 

Os acontecimentos do dia, entretanto, não se encaminharam como o esperado e se voltaram contra os vacilantes propósitos de Jane.

 

Logo ao chegar à sala que ocupava junto com outros colegas no escritório, teve a surpresa de encontrar sobre sua mesa um belíssimo buquê de rosas vermelhas com a etiqueta de uma das mais exclusivas floriculturas londrinas juntamente com um cartão:

 

Apelo para a bondade sem limites de seu coração e pelo amor que ainda possa sentir por mim, para me dar uma segunda chance, me perdoe e volte para mim. Sempre seu, Charles Bingley.

 

 

As flores e principalmente os dizeres do cartão perturbaram profundamente a sensível e ainda apaixonada Jane, que passou aquele dia como se estivesse num transe, só conseguia pensar em Charles, na sua visita no dia anterior, no sincero arrependimento que este parecera demonstrar, nos beijos que haviam trocado.

 

Jane ficou mergulhada num mar de dúvidas sobre qual a decisão certa a tomar.

Esqueceu completamente Sam Mac Gregor,  que trabalhava a pouca distância dela na mesma sala e da conversa que tivera com Lizzy na noite anterior.

 

A campanha de Charles pela reconquista do amor de Jane começara acirrada. No princípio daquela mesma tarde, ele ligou para ela como havia prometido na noite anterior. Após as saudações iniciais, Jane se apressou em dizer:

 

- Charles, eu ia ligar para você e agradecer as lindas rosas que me mandou. Adorei, mas não havia necessidade.

 

- Jane, precisamos terminar nossa conversa de ontem à noite, pois fomos interrompidos pela chegada de suas irmãs. Será que não podemos sair hoje à noite, jantar e terminar nossa conversa?

 

Jane, como ocorre frequentemente com as pessoas bondosas, foi incapaz de dizer “não” e aceitou o convite sem medir as conseqüências que ele teria em sua vida futura.

 

Charles escolheu um sofisticado restaurante londrino para causar a melhor das impressões em Jane. O jantar foi à luz de velas em um ambiente requintado, regado com o melhor vinho francês. Durante a sucessão de pratos servidos a conversa se manteve no plano das amenidades, mas assim que a sobremesa foi servida, sem conseguir esconder seu nervosismo, Charles entrou no assunto que tanto o perturbava.

 

- Esta conversa será uma continuação do que eu estava lhe dizendo ontem em sua casa. Este período em que estivemos separados serviu para eu ter certeza de que você é a mulher que quero para ser minha esposa e mãe de meus filhos. Todas as minhas dúvidas acabaram. Por favor, Jane, aceite se casar comigo?

 

- Charles, se você tivesse me feito este pedido antes de nossa separação, eu não teria hesitado em dizer “sim”, era o que eu mais queria e esperava. Mas, agora, tenho sérias dúvidas se nosso casamento daria certo.

 

- Você deixou de me amar, Jane?

 

- Não deixei de te amar, mas tenho dúvidas se seremos felizes juntos. Você sabe que o amor não é tudo num casamento. Tenho medo de que sua família e amigos acabem interferindo em nosso relacionamento como já fizeram uma vez e transformem nossa vida em comum num inferno e terminem por nos separar.

 

- Por favor, Jane, dê-me uma oportunidade para provar que mudei, que nada, nem ninguém terá mais o poder de interferir no nosso amor.

 

Diante da hesitação de Jane, Charles lançou mão de um último recurso.

 

- Eu te proponho o seguinte: ficarmos noivos e enquanto nos preparamos para o casamento, você poderá constatar que mudei. Caso, por qualquer motivo, você desista, eu deixarei você ir embora, mesma que seja no dia de nosso casamento.

 

- Charles...

 

- Por favor, Jane.

 

- Está bem, então, Charles. Vou te dar esta chance para nós porque te amo e não gostaria de perder você.

 

 

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As irmãs Bennet tomavam sempre o cuidado de avisar uma as outras sobre seu paradeiro quando saíam à noite. Porém, nesta noite, Jane não teve coragem de avisar nem Lizzy, nem Mary de que iria sair para jantar com Charles Bingley. Ela teve medo de ouvir as críticas que elas certamente fariam, por isto deixou um recado lacônico na secretária eletrônica:

 

“Lizzy e Mary, vou jantar fora. Devo chegar tarde, não se preocupem. Está tudo bem comigo.”

 

- Que estranho, Jane não disse com quem, nem onde foi jantar. Só espero que não tenha sido com Charles Bingley. – comentou Mary ríspida ao ouvir o recado da irmã mais velha.

 

- Não foi com Charles, isto eu tenho certeza. Ela saiu com Sam Mac Gregor, até que enfim, ela teve a sensatez de aceitar o convite dele.

 

- Sam Mac Gregor? Aquele advogado, colega de escritório dela?

 

- Ele mesmo, faz um tempão que a convida para sair.

 

- Por que você tem certeza de que ela saiu com ele?

 

- Porque fui eu que a aconselhei, ontem à noite, a tentar um novo amor. Só estou surpresa como ela agiu tão rápido. Você sabe como Jane é lenta para tomar este tipo de decisão.

 

- Vai ver que tudo deu certo, ele estava disponível, ela também. Se eu tivesse a beleza de Jane, não ficaria um dia sem namorado. Teria todos os homens comendo na minha mão.

 

- Jane é tímida e não faz idéia de como a beleza dela afeta os homens.

 

Mary e Lizzy ainda estavam acordadas naquela noite assistindo entretidas a um filme na TV quando Jane chegou.

 

- E aí Jane, como foi o jantar? Que tal o Sam? – Lizzy foi logo perguntando.

 

- Ele te beijou? – Seguida por Mary.

 

- Meninas, eu não saí com o Sam. Sai com o Charles. – Houve um instante de silêncio devido ao choque diante da notícia. - Por favor, não me olhem com este olhar de recriminação.

 

- Mas, você não me disse ontem à noite que ia dar uma oportunidade para o Sam.

 

- Lizzy, o Charles me mandou um lindo buquê de rosas vermelhas e um cartão pedindo novamente perdão e para eu voltar. À tarde, ele me ligou convidando para jantar e terminarmos a conversa que interrompemos ontem. Não consegui resistir aos seus apelos. Eu o amo profundamente e estamos noivos.

 

Jane estendeu a mão direita para mostrar o belo e caro solitário de brilhante que faiscava em seu dedo anular direito.

 

Lizzy e Mary olhavam incrédulas para a jóia e levaram alguns segundos para voltarem a falar.

 

- Parabéns, Jane. Espero sinceramente que Charles tenha amadurecido neste período em que ficaram separados e que ele saiba fazê-la feliz, que vocês sejam felizes. – Lizzy deu um apertado abraço na querida irmã.

 

- Já que você decidiu assim, só me resta lhe dar meus parabéns e desejar-lhe boa sorte, mas se eu fosse você não confiaria cegamente no Charles como fez da outra vez. Quem apronta uma vez poderá aprontar outras. – Ponderou Mary antes de também abraçar Jane.

 

 

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Lizzy estava muito ocupada e satisfeita com todo o material que tinha para pesquisar sobre Lady Clementine, que Lord Darcy colocara a seu dispor. Além dos diários, havia outros tipos de documentos certidões de casamento, registro de nascimento dos filhos e muitas cartas trocadas com seus familiares, principalmente com sua irmã mais velha Cassandra, Lady Sherrington.

 

Naquele tempo, a troca de correspondências consistia no único meio de comunicação a longa distância. Nas inúmeras e longas cartas, as pessoas costumavam contar desde seu cotidiano até confissões e desabafos de seus problemas pessoais que acabavam resultando num excelente registro dos usos e costumes e da cultura da época.

 

Lord Darcy vinha ver Lizzy quase todos os dias, às vezes pela manhã, antes de sair para o escritório, outras no final da tarde. Ela não estranhava o fato, afinal ela estava trabalhando em sua casa e com seus documentos, era natural que estivesse interessado em verificar o progresso que ela fazia.

 

Ele sempre indagava sobre o andamento do trabalho de Lizzy e ela lhe contava muitas vezes em pormenores as descobertas que fizera sobre a vida de Lady Clementine e sua família.

 

Um atento e interessado William Darcy a fitava com aqueles magníficos olhos azuis, entretanto, na maioria das vezes ele ficava quieto num silêncio constrangedor que Lizzy se via obrigada a preencher.

 

Evitava voltar a tocar no assunto sobre Georgiana e Richard, pois reconhecera que não devia se intrometer em questões de família, que em absoluto diziam respeito a ela, mesmo que fosse com a boa intenção de defender os amigos.

 

Além das visitas silenciosas, o que mais incomodava Lizzy eram os olhares que Lord Darcy lhe lançava, cuja natureza ela não conseguir definir.

 

- Este final de semana, eu e Georgiana vamos a Pemberley, não gostaria de ir conosco?

 

Lizzy ficou surpresa com o convite totalmente inesperado. Aliás, quando este homem enigmático deixaria de surpreendê-la?

 

- Eu aceito o seu convite, pois se me der licença gostaria de verificar se não restou mais algum outro documento sobre Lady Clementine, tanto no sótão como na biblioteca de Pemberley.

 

- Tudo bem, poderá ficar à vontade para examinar o que precisar. Confesso que quando recolhi os documentos para trazer para você não fui muito cuidadoso, pode ser que alguma coisa tenha ficado esquecida.

 

- O Richard irá também?

 

- Não. Vamos apenas nós três. Parece que ele viajou a trabalho.

 

Nem acredito que vou voltar a Pemberley. Rever aquela mansão maravilhosa onde meus personagens viveram e se amaram. Certamente agora a verei com outros olhos, mas talvez com um encantamento maior.”

 

 

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Londres, 12 de abril de 1883.

Cheguei ontem a Londres para a temporada. Faz precisamente 6 anos que não venho nesta época a cidade.

Todos estes anos Arthur veio sozinho para participar das sessões da Câmara dos Lordes, eu preferia ficar em Pemberley ou porque estava grávida, ou porque as meninas eram muito pequenas e eu não queria expô-las ao desconforto de uma viagem tão longa. Mas agora que Claire está com 4 anos e Georgiana com 2 e eu não estou grávida resolvi que estava na hora de mudar de ares e ter um pouco de vida social.

Ao contrário da maioria dos casais que deixam seus filhos pequenos no campo aos cuidados das babás, eu e Arthur fizemos questão de trazer nossas meninas, não suportaríamos ficar longe delas por três longos meses.

Claire poderá me acompanhar nas compras e passeios pelo parque.  Ela é uma criança esperta e está empolgada com as novidades que está vendo na cidade grande.

Foi com imensa alegria que reencontrei meus familiares, pais e irmãos, e os amigos. Eu só os havia encontrado em visitas que eles fizeram para mim em Pemberley e na única viagem que fiz nestes anos a propriedade de meus pais no Lincolnshire.

Parece que por aqui nada mudou. Londres continua a mesma, cheia de gente, barulhenta e poluída, mas ela terá sempre seus encantos únicos: seus edifícios suntuosos, seus belos e majestosos parques, as atraentes lojas da Bond e da Oxford Street e intensa vida social na temporada.

Tenho de confessar, entretanto, que apesar de todos estes atrativos já cheguei com saudades da calma bucólica de Pemberley. Meu paraíso aqui na Terra.

O que mais me impressionou foi a transformação sofrida por meu pai. Aquela figura imponente que outrora causava tanto temor a todos nós não existe mais, ele envelheceu muito, sua aparência é de alguém que está gravemente enfermo. Está indiferente a tudo, ao ver minhas lindas filhas, seu único comentário para mim foi:

- Você precisa dar um herdeiro para o Darcy.


As ondas de mal estar que acometiam Clementine continuaram esporadicamente durante os dois anos que haviam se passado após o nascimento de sua segunda filha, houve épocas que elas chegaram a desaparecer dando-lhe a falsa ilusão de que estava curada.

 

Logo após sua chegada a Londres, ao encontrar com sua irmã mais velha Cassandra, contou a ela sobre seu problema de saúde e pediu informações sobre um bom médico.

 

- Vamos marcar uma consulta com o Dr. Thomas Everton, ele é um renomado e competente médico. Poderemos confiar no diagnóstico que ele fizer e logo você estará curada.

 

 

Londres, 03 de maio de 1883

Ontem fui acompanhada de minha irmã Cassie me consultar com o Dr. Thomas Everton.

Após exaustivos exames e perguntas sem fim, ele desvendou para mim o mistério destes mal estares súbitos, que me acometem de tempos em tempos, cuja causa o Dr. Gregson de Lambton, não conseguiu descobrir.

Ele disse que tenho uma doença do coração, que ele é fraco e preciso me poupar, nada de grandes esforços físicos.

Pedi a Cassie para não comentar com Arthur sobre minha consulta e o diagnóstico do Dr. Everton, quero, eu mesma, dar-lhe a notícia.

Como qualquer ser humano eu não quero morrer, assim tão jovem, tenho apenas 23 anos. Não suportaria deixar Arthur e duas filhas pequenas órfãs. Eles precisam tanto de meus cuidados e do meu amor.

Mas o que mais me preocupou foi o conselho que o Dr. Everton me deu para não ter mais filhos. Como vou dar esta notícia a Arthur. E o que será de nossa vida íntima como marido e mulher? E o herdeiro que ainda não tive?

 Arthur não diz nada, mas sei que no fundo ele não só precisa, como anseia ter um filho, um herdeiro de seu nome, suas propriedades e de sua fortuna.

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Lady Clementine e sua irmã haviam acabado de sair da consulta com o Dr. Thomas Everton na tradicional Harley Street, rua onde se situam os consultórios dos mais afamados médicos londrinos, quando tiveram um encontro totalmente inesperado.

 

Clementine estava tão atordoada com as notícias que recebera do médico que só se deu conta do casal que se aproximara quando ambos já estavam em frente a ela e ouviu a voz de sua irmã saudando-os

 

- Lady Agatha, Sr. Langley como estão? É um prazer revê-los.

 

- O prazer é nosso Lady Sherrington. – Respondeu a jovem mulher elegantemente trajada, que Clementine não conhecia com um belo sorriso.

 

-  Lady Agatha, Sr. Langley, esta é minha irmã Lady Darcy. Clementine, Lady Agatha é filha do duque de Montford e casou-se no final do ano passado com o Sr. Langley.

 

- Conheço Lady Darcy, embora faça muitos anos que não nos vemos. Como está Lady Darcy? – apesar de ser o cumprimento correto de um cavalheiro, a Clementine não escapou o brilho malicioso no olhar que Walter Langley lhe dirigiu.

 

Clementine precisou respirar fundo para acalmar as batidas aceleradas de seu coração que parecia querer lhe sair do peito. Ali estava, em frente a ela, o belo e charmoso Walter Langley, o homem por quem um dia ela fora tão ardentemente apaixonada, com quem tivera a coragem de fugir desafiando sua família e a sociedade para se casar na Escócia e que depois de uma mirabolante perseguição fora resgatada e salva por seu pai e por Lord Darcy, de um escândalo que iria comprometer sua reputação para sempre.

 

Felizmente, apesar dos diz-que-diz que circulou sobre sua fuga com Langley, a sociedade acabou se convencendo de que sua fuga fora com Lord Darcy e o casamento deles na Escócia pôs fim aos falatórios.

 

Após, as formalidades da apresentação e algumas trocas rápidas de palavras as irmãs se despediram do casal. Assim que entraram no interior da carruagem que as conduziria para casa, Cassie perguntou:

 

- Clementine, você está bem? Está tão pálida.

 

- Estou bem, minha irmã. Não se preocupe.

 

- Espero que não tenha sido o canalha do Langley que a deixou assim. Não tive como fugir de te apresentar Lady Agatha.

 

- Não foi isto que me perturbou, estou abalada é com a notícia de minha doença.

 

- Espero que você tenha o bom senso de contar a Arthur tudo que o Dr. Everton nos disse.

 

- Claro, só preciso de tempo para pensar na melhor forma de lhe dar a notícia.

 

Após alguns minutos em que tentou recuperar a emoção do reencontro com o antigo namorado perguntou à irmã:

 

- Quer dizer que Walter Langley casou-se com a filha do duque de Montford?

 

- O duque não queria o casamento por causa da péssima reputação de Langley, mas foi obrigado a concordar quando ele descobriu que a filha estava grávida. Apesar dos esforços para esconder o escândalo, a própria criança revelou o segredo, nasceu 6 meses após o casamento.

 

Clementine não aceitou o convite da irmã para tomar chá na casa desta, quis ir imediatamente para sua residência para a sós tentar colocar em ordem seus pensamentos tumultuados pelo diagnóstico do médico e pelo encontro inesperado com Walter Langley.